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A Luta por Emília Moncorvo Bandeira de Melo
Capítulo XII


No outro dia pela manhã, sob um sol de ouro que fazia esplender gotas diamantinas em cada corola de flor, cada folha de planta, cada ervinha rasteira, aljofradas ainda pela chuva da véspera, que tudo lavara com a sua onda refrigerante, purificadora, Gilberto lustrava as unhas à janela do seu quarto, ruminando com ódio o seu desapontamento da noite. Celina não aparecera ao jantar e ele, adormecida a casa, tinha ido em vão empurrar furtivamente a porta do seu aposento, Nem um movimento, dentro!... Tudo silêncio — e só o tic-tac do relógio da sala de jantar vindo da treva cerrada do corredor... Ele então, descalço, tivera de renunciar ao seu voluptuoso programa, voltando em pontas de pés para o quarto solitário — mas com que despeito!

Aliás, a essa hora matinal, olhando o azul bem lavado do céu, aspirando o aroma delicioso das plantas abeberadas d'água, sentindo a beleza gloriosa do dia que começava, o seu furor perdia a primitiva acuidade, como se pela alma se lhe entornasse um vivificante filtro de eterna esperança, de eterna alegria. Que lindo dia, caramba! Pensava em fazer um passeio a Petrópolis, para as próximas regatas; e ao mesmo tempo sorria, lembrando-se do carão intumescido do Coronel Juvenato, ao partir da pensão ao escurecer, seguido da mala, aos ombros do jardineiro, e debaixo da chuva e das lágrimas de D.Adozinda.... Lá se fora o melro! Bem feito, que sempre lhe tivera implicância. Mas aquela Celina, que tipo contraditório, bizarro e complexo!

Um verdadeiro enigma!

Assim ia considerando, ocupado em polir as unhas, quando lhe pareceu entrever através dos cílios descidos uma espécie de sombra negra que deslizava entre as folhagens verdes do jardim.

Volveu depressa a vista para fora, fitou curiosamente essa mancha que se movia — e um vulto de senhora se definiu, cortando as aléias ensolaradas na direção do flanco da casa onde se abria a porta da sala de jantar. O sol claro batia de chapa num toucado preto, de que emergia um pequeno tufo de violetas, e faíscas saltavam à luz dos vidrilhos do mantelete de rendas que revestia um busto magro, mas ainda ereto e decidido.

— "Ai! agora a sogra!..." murmurou Gilberto, mergulhando rapidamente atrás da janela, para não ser visto. Reergueu-se, depois, enfilou às pressas a roupa de sair, apanhou o chapéu e esgueirou-se pela frente da pensão, sem pedir café, mansamente, como um evadido, que não queria histórias com o seu nome. Foi tomar o elétrico já longe do portão e sentiu que lhe estava apetecendo um regresso imediato à calma de Belo Horizonte. Não! que isso de mulheres, são todas elas uma causa de perdição, e ele não admitia ser arrastado em embrulhos.

D. Margarida Galvão, no entanto, fora surpreender a mãe da sua nora em um desalinho matinal absoluto, os cabelos mal enrolados e sentada à soleira da porta da sala de jantar, comprando verduras a um quitandeiro que arriara o tabuleiro sobre um degrau da escadinha. Uma palestra familiar se entabolara entre a compradora e o vendedor, português de unhas sujas — e todo um fresco montão de cenouras e nabos e alfaces enchia já o regaço de Dona Adozinda, que contava muito calorosamente, revolvendo as hortaliças cheirosas, os estragos feitos pelas formigas na sua própria horta. Nem mais um tomate! As couves nasciam todas mofinas...

Foi quando surgiu a figura repreensiva e austera de D. Margarida — e a outra sentiu abalo tão brusco e tão forte, não obstante o seu arrojo habitual, que os legumes lhe rolaram do colo e ela se achou de pé no limiar da porta, vermelha como um lacre, abotoando instintivamente o roupão enxovalhado que só tinha cruzado sobre o volume dos seios. Sem se intimidar, Dona Margarida galgou os três degraus, arregaçando o vestido preto, por causa do tabuleiro e, parando em frente à mãe de Celina, disse pausadamente, dominado o arfar da subida e da emoção:

— Bom dia ! quero falar a minha nora... Pode chamá-la?

D. Adozinda teve ainda um movimento de embaraço, mas logo recobrou o aprumo e respondeu secamente:

— Celina não está mais aqui... já partiu...

— Para onde?...

— Não sei, nem tenho que lhe dar satisfações...

— Ah!...

Toda uma onda quente de indignação subiu à face pálida de D. Margarida, que comprimiu a tremura dos lábios com o lenço: mas conseguiu vencer-se e refletiu. Não, não, era preciso usar de muita calma, de muito sangue-frio... Bem sabia que viera para uma renhida luta e tinha de opor à inimiga armas absolutamente contrárias às dela, senão estava perdida a campanha.

A mulher queria amedrontar a sua intervenção com a ameaça da grosseria e do escândalo...

Replicou, pois, após um curto silêncio que D. Adozinda aproveitou para despedir furtivamente o quitandeiro:

— Nesse caso, falarei mesmo com a senhora...

D. Adozinda perfilou-se, já brutal e agressiva:

— Comigo? Comigo?... Essa é muito boa! Mas que tenho eu a ver com essas histórias de marido e mulher, não me dirá? Vivo em minha casa...

— Tem tudo a ver! interrompeu D. Margarida, mais grave, fitando-a nos olhos, desde que o seu modo de pensar, os seus conselhos, a sua cumplicidade, enfim, animaram minha nora, uma menina apenas imprudente e leviana, a sustentar um passo errado que pode causar a sua desgraça e outra mãe mais sensata jamais teria sancionado...

— E a senhora, atalhou desabridamente a outra, com que direito me vem dizer estas coisas? Eu me meto lá na sua vida? Eu vou porventura reclamar o genro?...

D. Margarida teve um riso sarcástico:

— Ora! mas ao contrário! a senhora até o enxota e se interpõe entre a explicação dos dois esposos, porque o seu fim é desuni-los, separá-los.

Com que intenção, porém?... que pretende a senhora fazer dessa filha casada que vivia no bom caminho com seu marido e seus filhos e de repente se afasta e encontra ao seu lado o refúgio para uma inexplicável loucura? É isto que eu lhe pergunto, como mãe do esposo injustamente desautorado — e a senhora tem de responder-me... Não se separa assim um casal...

Durante estas palavras, D. Adozinda perdia pouco a pouco a compostura, mais afogueada, e por fim, apoiando as mãos nos joelhos, vergou o corpo para a velha e rugiu, cara a cara, arreganhando os beiços carnudos, descobrindo falhas de dentes:

— Eu tenho de responder-lhe?... Eu?... Mas repita lá isso... Então a senhora pensa que manda sobre mim? Que me faz medo com as suas carantonhas de virtude?... Pois saiba que está muito enganada...

A D. Adozinda Ferreira, dona desta casa, não tem medo nenhum da senhora, nem do Alfredo, nem de... quem quer que seja, entende? — e dava palmadas no seio, que balouçava, nas coxas, nos quadris — Se minha filha fugiu para cá, é que tinha razões para fazê-lo e eu não havia de enxotá-la. Com certeza ela já não podia mais suportar o medonho... — hesitou, procurando o termo — o medonho xadrez fedendo a bafio onde a trancafiaram, coitada!

— Sim! interrompeu D. Margarida com superior e cortante ironia: a nossa moradia não é de fato um hotel aberto a qualquer que pague. E uma casa de família...

Uma roseta de sangue tingia-lhe agora os pômulos da face enrugada e mais se avivou, num estremecimento, ao grito de D. Adozinda:

— A senhora está me insultando!...

A velha passou o lenço pela testa suada, respirou com força e disse mais baixo, contendo-se:

— Tem razão, perdoe-me.

Como a outra enrolasse colericamente o cabelo, que se lhe desprendera dos ganchos, D. Margarida foi bater-lhe no braço e pediu-lhe em tom mais brando que se entendessem, sem brigas, sem injúrias... Pois não eram ambas mães? Deviam, portanto, compreender-se, harmonizar-se, no interesse dos seus filhos em jogo...

No íntimo, ia raciocinando que, com naturezas assim vulgares e explosivas, como essa de D. Adozinda, mais valia usar da tática do que da energia... E pensou com ansiedade no Alfredo, que ficara de vir esperá-la um pouco mais tarde pela estrada com o Raul, incapaz de suportar a angústia de uma longa expectativa e faltando pela primeira vez nessa manhã à sua repartição, sem um aviso, indiferente ao ponto... Exagerou, então, a sua fraqueza de velha, sentou-se, obrigou a outra a sentar-se também e tentou convencê-la com argumentos serenos. Ela era inteligente e devia ver... O Alfredo adorava a sua mulherzinha e não podia descobrir porque Celina o tinha deixado... Nada lhe fizera... Cumpria, portanto, que o casal se explicasse em liberdade — e ela, como mãe do Alfredo e ambicionando a felicidade dos dois, vinha falar a Celina, ouvir as suas queixas, dissipá-las com a voz da razão, se infundadas, como era certo, e pleitear a causa de seu filho. Nada mais natural. Em último caso — e a sua voz se fez dura — se de todo ela recusasse tornar para a companhia de seu marido, como lhe ordenava o dever, competia-lhe reclamar a Lucília, que pertencia ao pai...

D. Adozinda conservava-se calada, em atitude irreconciliável, com uma das pernas cruzadas sobre a outra e fazendo dançar o chinelo de couro sobre a ponta do pé gordo, branco e descalço. O sol mais alto, espadanava-se, numa larga esteira de luz sobre o soalho, onde esvaçavam moscas irrequietas, zumbindo, alisando as minúsculas asas irisadas: e o canário trinava loucamente na gaiola, à janela, sobre-excitado por essa claridade forte do dia magnífico. A cabecita fulva virava para todos os lados, fremente, enquanto do biquinho entreaberto jorravam gorjeios, florituras delicadas, estridências súbitas, uma catadupa de sons álacres, agudos ou doces; enchendo a sala de jantar de rumor.

Uma preta entrou, foi apanhar os legumes espalhados pela escadinha e saiu, dardejando um rápido olhar curioso a D. Margarida. Ouvia-se um rouquejar de tosse e pigarros de homem num quarto de hóspedes mais próximo... Deviam ser mais de nove horas... Então D. Margarida, curvando-se reprimindo a impaciência, dirigiu um apelo direto à sogra de Alfredo:

— Vamos, D. Adozinda! disse com branda persuasão, deixe-me conversar com Celina. A senhora assistirá à nossa conferência.

— Já lhe expliquei, insistiu D. Adozinda em tom áspero, que Celina não está mais aqui... Dentro da sua alma, rugia um confuso temporal. Por causa mesmo das doutrinas idiotas dessa velha é que Celina enxotara o Coronel Juvenato que tanto lhe valia nos apuros, agora que ela estava acabada e a pensão andava aos trancos devendo décimas e o gás. Não bastara porém, que esse fugisse, esbofeteado como um cão: queriam por força tirar-lhe a própria Celina, único chamariz para o Gilberto, que também podia ajudá-la tanto e estava pelo beiço, ela bem percebia, tendo posto de lado a Olga, por ser solteira... Oh! ela era fina, via tudo... Mas Celina não iria, não iria... O seu punho cerrava-se de raiva.

— D. Adozinda! tornou a velha, mais veemente, estou esperando a sua resposta... Quero falar com a mulher de meu filho!...

— Pois não falará! berrou a outra, levantando-se, decidida a tudo... Já lhe disse que ela não está aqui, e a senhora tem de contentar-se com esta resposta, quer lhe agrade ou não...

D. Margarida saltou da cadeira, pela primeira vez dominada inteiramente pela indignação: e tremia toda, branca como a cera, as narinas aflantes... Alta, magra, rígida sob as suas corretas roupas negras de viúva, avançava um dedo ameaçador e solene para a outra, balofa e vulgar, cuja camisola se colava às bossas disformes dos seios e dos quadris — e a sua voz entrecortava-se, enquanto um raio de sol vinha brincar sobre os bandós dos seus cabelos prateados.

— Ah! é assim? acabou por dizer, ofegando; a senhora quer manter em clausura uma mulher casada, que a lei considera maior e livre? Pois é inútil, porque eu não tenho a timidez do Alfredo que a senhora enxotou, e hei de ver a minha nora. Isto aqui é um hotel: entro por ele...

Antes que a outra, rolando a sua corpulência, lhe estorvasse os passos rápidos e sem se importar com os desaforos que choviam sobre a sua pessoa, já D. Margarida enfiara pelo corredor — mas de súbito estacou fulminada pela emoção. Ali estava a verdadeira luta! Encostada à parede, vestida às pressas com a saia e a blusa que trouxera de casa, dando a mão a filhinha, Celina parecia ter escutado tudo e baixava os olhos, de uma palidez macerada que lhe punha manchas de bistre na face morena.

— Vovó! gritou a pequena, largando a mãe para se grudar ao vestido preto da velha: onde está papai? e minha boneca grande?...

Julieta, perto de Celina, olhava tranqüilamente a cena; a cabeça de Olga espiava pela fresta de uma porta; e hóspedes vinham saindo dos quartos, uns em colete, outros escovando-se para descer à cidade, todos atraídos pelo rumor da discussão. Alguns murmuravam, zangados. Diabo! essa pensão andava a fazer-se insuportável por causa da tal Celina...

D. Margarida, entretanto, como sem ouvir as palavras com que D. Adozinda a zurzia, enxotando-a, prendeu nas suas as mãos frias e inertes da nora, apertou-as, impregnando-a do seu sentimento forte, e balbuciou numa comoção profunda:

— Minha filha, eu vim buscar-te para o amor de teu bom marido e das tuas crianças. Que fazes aqui, Celina, Celina? Pois não tens a tua casa?

D. Adozinda avançou, de mandíbula feroz:

— Ela está muito bem, porque está com sua mãe!... Não escutes essa velha, minha filha, que ela quer escravizar-te!...

O olhar da moça ergueu-se, enfim, e pousou alternativamente sobre as duas que a disputavam, com singular acuidade.

— Celina! prosseguia a velha, estreitando-lhe sempre a mão gelada, a ungi-la da sua energia, teu marido morrerá de dor, se o abandonares, e ficarás privada dos teus filhos. Pensa e volta, minha filha! Olha, eu nem te pergunto porque saíste, mas, se foi por minha causa, eu os deixarei sós, já prometi a Nossa Senhora das Dores...

— Pois sim! fia-te nisso!... casquinou D. Adozinda com sarcasmo.

A outra voltou-se e dominou-a com a expressão inspirada do seu rosto venerando, cortado de rugas tristes, verdadeiros sulcos de lágrimas:

— Celina sabe que eu não minto disse lentamente; e logo tornando à nora, incitou-a com novas palavras frementes, brotadas do fundo da sua sublime dedicação materna, a voltar para o seu lar, para o seu marido carinhoso, desvelado, apoio seguro da sua vida até a morte... Viesse, viesse, imediatamente, pelo braço que ela lhe estendia ali... E, de repente exasperada, por vê-la estremecer às suas palavras, mas não ceder, D. Maragarida exclamou, numa exaltação crescente:

— Toma cuidado, Celina, que já tarde não te arrependas!... Estás cometendo uma iniqüidade — e Deus te castigará... Olha — a sua mão se estendeu tremulamente — nesta casa está a tua perdição...

— Como?!... repita isto, velha malcriada! rugiu D. Adozinda em gestos violentos.

Mas, sem a ouvir sequer, a outra continuava:

— E debaixo do teto de teu marido está a salvação, está a honra, está a felicidade garantida. Ah! Celina — a velha, aqui vencida pela comoção, prorrompeu em soluços curtos e secos — ah! minha filha, que fizeste? Eu não desejei dantes o seu casamento, mas agora... O Alfredo morrerá de dor...

Gritos finos lhe abafaram a voz; era Lucília, assustadinha, que chorava com veemência, reclamando:

— Eu não quero que papai morra....

— Toleirona! protestou a avó materna.

Viram então avançar pelo corredor a mais antiga figura do hotel, o desenhista alemão John Gross, nutrido e loiro, que conhecera Celina de vestidos curtos e estendeu a D. Margarida uma manopla enorme, cor de lagosta, bradando entusiasticamente, como arrastado:

— Bravo, senhorra! Cumprimentos!

— E esta!... Hein?! bramiu Dona Adozinda, encarando furiosamente o velho hóspede.

À essa voz estridente, porém, Celina como que acordou enfim da estranha imobilidade e volveu a olhar para todo o grupo que a rodeava. Viu a sogra a soluçar, viu a filhinha em pranto infantil, pedindo o pai; e, inesperadamente, erguendo os braços à altura da testa, que comprimiu com os dedos crispados, como se ela lhe estalasse, explodiu em súbitas e copiosas lágrimas.

— Vai-te embora depressa! segredou-lhe Julieta.

— Leve-me!... leve-me!... implorou Celina à Sogra.

Esta sentindo em Julieta uma aliada, pediu-lhe baixo:

— Já, os chapéus de ambas!

E enquanto D. Adozinda vociferava, vendo perdida a campanha, a mãe de Alfredo, lívida, palpitante, sem quase respirar, com medo de esperdiçar um segundo, ia conduzindo a nora e a neta para a porta da sala de jantar, em cujo degrau ainda vermelhejava uma cenoura ao sol.

— Filha ingrata! clamava a dona da casa, eu te recebi quando vieste e assim me deixas!...

— Mamãe! vou para meu marido, balbuciou Celina: é melhor para todos!...

Mas já D. Margarida a levava através do jardim banhado de triunfal claridade, onde os passarinhos chilreavam doidamente nos galhos verdes das árvores. Um aroma quente e embriagante subia da seiva das plantas, errava no ar transparente. Papoulas flamejavam, escarlates, em maciços esmeraldinos e o céu era uma imensa turquesa, sem a mais leve jaça de um farrapinho de nuvem.

— Depois da tempestade a bonança! agradecia mentalmente D. Margarida, com um ávido olhar para a cidade — claro refúgio branquejando lá em baixo entre a imobilidade azul do mar. E entrou a tremer, chegando ao fim dos dois lances da escadaria com Celina e a neta, porque Alfredo devia achar-se do lado de fora do portão com o Raul e o casal não tardaria a encontrar-se, frente a frente...

Encontraram-se, de fato, com um primeiro movimento de mútuo enleio; mas Celina viu o marido tão desfigurado, tão sem cor, e abalou-a tanto o grito de alegria que soltou o pequenino ao tornar a ver a sua mamãe, que esqueceu tudo e, num ímpeto bom de alivio, de ternura, de remorso da sua loucura, resvalou sobre o peito débil, mas sinceramente amoroso, do Alfredo, murmurando, conquistada e arrependida:

— Perdoa-me, sim?... Acabou-se... Não terás mais queixa de mim... Sofri tanto!...

E ele, então, ele, inocente!

Sem embargo, Alfredo a remiu com um grande beijo generoso, que apagou talvez a mancha de outros menos puros, e correu depois a abraçar a mãe, agora exausta, sorrindo melancolicamente à sua obra de paz, Estava finda a luta de princípios, de educações, de caracteres; e a ela, pobre velha, viúva e solitária, restava apenas a única solução natural àqueles que terminaram o seu papel ativo no mundo: morrer. Não importava: morreria calma porque sempre cumprira o seu dever na vida. E, como um elétrico descesse, a mãe de Alfredo, disse com a simplicidade das obscuras heroínas:

— Vamos!...

Lá em cima, na pensão, D. Adozinda esbravejava sobre uma cadeira, ao excitado gorjeio do canário. Tratarem-na assim!... E o Gilberto que se safara misteriosamente de manhã, sem uma palavra!... Voltaria? Como solver agora tanta atrapalhação acumulada? Mas Olga surgiu do corredor, petulante e linda, já pronta para sair, e veio debruçar-se risonhamente sobre o ombro sucumbido da viúva:

— Deixe estar, Mamãe, que tudo se arranjará e talvez ainda hoje, eu lhe mostro...

— Ela tem razão, corroborou Julieta, que seguira a irmã e calçava as luvas; com Celina é que você não arranjava mesmo nada... E uma doida!...

A viúva do Ferreira ergueu um pouco a face esguedelhada de vencida e mediu as duas filhas com um olhar já mais reanimado, brilhante, em que se reacendia a esperança...

Sim, talvez...

Em tais meios, a luta jamais cessa: continua sempre, entre exploradores e exploradas. É a terrível, infindável, a eterna luta! É o renhido jogo dos interesses inconfessáveis!