A Moça Mais Bonita do Rio de Janeiro/III

A Moça Mais Bonita do Rio de Janeiro por Artur de Azevedo
Capítulo III


O Remígio mostrou-se verdadeiro amigo: pediu a d. Firmina licença para tratar do enterro, e nem esta nem os filhos conheceram até hoje a importância das respectivas despesas.

Tão piedosa solicitude, e as lágrimas acerbas que o moço derramou sobre o cadáver do velho colega aumentaram os sentimentos de Fadinha a seu respeito; agora não era somente o afeto, era também gratidão que aproximava aqueles dois corações. Com a morte do Raposo, ambos se sentiram órfãos, e essa identidade de situações cimentava ainda mais a mútua simpatia que os dominava.

Não teve d. Firmina uma palavra de agradecimento para tais favores e, mentalmente, o Remígio atribuiu essa falta à dor violenta que a viúva manifestava, a todos os momentos, com lágrimas e gritos. Na ocasião do enterro foram necessários três homens para arrancá-la de cima do caixão e, sete dias depois, terminada a missa, ele teve, na sacristia da igreja de São Francisco de Paula, um ataque de nervos tão violento, que parecia chegada a sua última hora.

Também os rapazes, quer o estudante, quer o empregado no comércio, não agradeceram ao Remígio o enterro e a missa; dir-se-ia que todos da casa consideravam aquilo uma obrigação.

Todos, não: Fadinha volta e meia falava da generosidade do moço, e as suas palavras, a que ninguém respondia, eram ouvidas com indiferença pela mãe e pelos irmãos.

O mais velho, o Alexandre, moço de vinte e dois anos, empregado na casa comercial do barão de Moreira, estava lisonjeadíssimo pelo fato de haver o patrão se dignado assistir pessoalmente à cerimônia fúnebre. Não queria acreditar nos seus olhos quando, no corredor da igreja, encontrou o barão parado, segurando o chapéu com a mão atrás das costas, de cabeça erguida, a examinar atentamente o retrato de um benfeitor da Ordem, pintado pelo Fragoso. O caixeiro a princípio supôs que o barão viesse a outra missa qualquer, mas, não obstante a sua tristeza, rejubilou-se quando viu que, ao começar a cerimonia, o titular tomava lugar entre os que tinham vindo render a derradeira homenagem ao defunto Raposo.

Acabada a missa, quando o padre, acompanhado do seu acólito, voltou para a sacristia, dobrando o joelho diante de cada altar, o barão foi o primeiro a abraçar o Alexandre, que estava perto da mãe dos irmãos.

— Seja homem! Todos nós passamos por estes dissabores... O mundo é isto mesmo...

— Obrigado, senhor barão.

— Não conheço sua família; peço-lhe que me apresente às senhoras.

A viúva não pôde ser apresentada porque chorava um oceano lágrimas, e não tinha atenção para mais nada além da sua dor espetaculosa; mas o barão, pasmado diante da beleza de Fadinha, deu-lhe um longo aperto de mão, dizendo-lhe:

— Minha senhora, seu irmão é empregado de nossa casa, e eu sou muito amigo de quantos me servem bem. Peço-lhe que diga à senhora sua mãe que o barão de Moreira está à sua disposição para tudo em que ela o queira ocupar, seja o que for.

— Muito obrigada, senhor barão.

Este oferecimento surpreendeu Alexandre, que não estava habituado às amabilidades do patrão, homem ainda novo, mas seco, autoritário, frio, orgulhoso da sua educação, da sua elegância, do seu títu1o e dos seus contos de réis; na sua humildade de subalterno, o rapaz imaginava que, se o barão o encontrasse na rua, não o reconheceria; admirava-se, portanto, de que esse ricaço comodista se abalasse de Botafogo para vir assistir a missa rezada por alma de um funcionário obscuro, e tão interessado se mostrasse pela família. Os leitores vão ter mais adiante a explicação desse fenômeno.

Quando todos os convidados se retiraram, e a família Raposo ficou só na sacristia, os dois rapazes despediram-se da mãe e da irmã: o mais velho ia para a casa onde era empregado e onde almoçava, e o mais novo para a Escola de Medicina: estavam à porta os exames, não convinha faltar; almoçaria no Rocher de Cancalle, à Travessa do Ouvidor.

O Remígio ofereceu-se para acompanhar as senhoras até o Engenho Novo; mas a viúva, que na ausência de espectadores já não parecia tão angustiada, recusou formalmente.

— Não, senhor; não quero que se dê a esse trabalho; o senhor precisa ir também para a sua repartição.

Fadinha interveio:

— Um dia não são dias. Venha, seu Remígio; almoçará conosco.

— Já disse que não!

O amanuense curvou a cabeça e levou as duas senhoras até o carro: fê-las entrar e fechou a portinhola.

— Apareça - disse Fadinha tristemente e agitou os dedos num delicado adeus.

D. Firmina, essa não articulou uma palavra; mas quando o carro se afastou, na direção da rua do Teatro, ela vociferou, com uma indízivel expressão de cólera no olhar:

— Trata de te esqueceres deste sujeitinho! Já não tens o pai toleirão que tinhas! Quem manda sou eu, estás ouvindo?...