A Moça Mais Bonita do Rio de Janeiro/IX

A Moça Mais Bonita do Rio de Janeiro por Artur de Azevedo
Capítulo IX


Não esperava o barão de Moreira que se decidisse tão bruscamente a sua sorte; no fundo, contava que uma circunstância qualquer, atirando-lhe Fadinha nos braços, o dispensasse das responsabilidades do casamento; entretanto, o titular submeteu-se a tudo, resignando-se a perder a liberdade que era o encanto da sua vida de libertino.

D. Firmina e os filhos não cabiam na pele de contentes. Ela tratava agora os vizinhos e mais pessoas do seu conhecimento com ares de proteção, e o Alexandre olhava para os companheiros do armazém e do escritório, e lhes falava, como se já fossem caixeiros dele.

O Pimenta estava radiante, e, com o olho na prometida lambugem, por todos os meios e modos estimulava o barão para que o casamento se realizasse quanto antes.

Marcou-se o "grande dia" em família, durante o jantar com que se festejou o décimo nono aniversário da Fadinha, e o barão, num brinde feito à noiva, ofereceu-lhe, com muita delicadeza, o enxoval, que mandaria vir de Paris. O casamento efetuar-se-ia em setembro, com todo o luxo e aparato. O noivo não mudaria de casa; apenas faria alguns reparos e modificações imprescindíveis em certos compartimentos, e substituiria a sua mobília de solteiro. O Pimenta foi logo encarregado de todas essas diligências.

Fadinha dissimulava o mais que podia o seu desgosto. Sofria muito, muito, porque, por mais que tentasse iludir a si mesma com a perspectiva de ser baronesa e abastada, não podia esquecer-se do Remígio. Este, que sabia, por portas travessas, de todos os incidentes relatados, sofria tanto como Fadinha; consolava-se, porém, com a idéia de que ela seria venturosa, e nada, absolutamente, nada lhe faltaria neste mundo, nem mesmo o seu amor, porque ele continuaria a amá-la, e amá-la-ia sempre, embora casada, cheia de filhos, envelhecida, morta!

Entretanto, prosseguiam os preparativos para o casamento. Chegou o enxoval, que era riquíssimo, e o palacete do barão ficou que nem um brinco. Os papéis estavam prontos. O Pimenta, que se incumbiu também disso, não se esqueceu de coisa alguma, nem mesmo do bilhete de confissão, comprado a um sacerdote pouco escrupuloso.

Na cidade, um dos assuntos obrigados de todas as conversas era o próximo enlace do barão de Moreira. Toda a gente o elogiava por se casar com moça pobre, e toda a gente o invejava, porque essa moça era a mais bonita do Rio de Janeiro. Fadinha tornou-se, mais que nunca, objeto de curiosidade pública, e mais que nunca o Engenho Novo foi visitado por pessoas estranhas ao bairro.

Faltava um mês apenas para a celebração do casamento. Era em 15 de agosto. D. Firmina, sempre devota, exigiu que Fadinha fosse com ela à ermida da Glória levar uma vela à Virgem e pedir proteção divina. A moça aquiesceu, e lá foram mãe e filha... A noite era quente, e no Largo da Glória, no outeiro e na ermida, a multidão compacta. Só à custa de incalculáveis esforços conseguiram as duas senhoras levar a vela ao seu destino. Dentro da ermida Fadinha sentiu-se mal, respirando com dificuldade, queixando-se de dores de cabeça.

— Não é nada. Vamos para casa, que isso passa.

Meteram-se num carro. Quando chegaram ao Engenho Novo, Fadinha ardia em febre. Foi imediatamente para a cama.

Estavam presentes, esperando as senhoras, o barão e o Pimenta, que se tornara íntimo da casa. Este foi logo chamar o médico.

Depois que Fadinha se acomodou, o noivo pediu licença para vê-la, e d. Firmina introduziu-o no quarto. A moça tinha os olhos fechados e ofegava. O barão aproximou-se dela e, tomando-lhe uma das mãos ardentes, perguntou-lhe com meiguice:

— Então?... Que foi isso?...

Fadinha sorriu e murmurou:

— Remígio!... Meu Remígio!

Delirava.

Trouxe o Pimenta o dr. Souto, o médico da família, o mesmo que passara o atestado de óbito do Raposo. Era um sexagenário, que havia mais de trinta anos clinicava no bairro, onde todos o conheciam e respeitavam.

— Então a beleza adoeceu?... Não há de ser nada, não há de ser nada...

O médico sentou-se junto ao leito e tomou o pulso à doente:

— Tem muita febre, tem... e a pele como está seca!... Já sei... uma supressão de transpiração... Não há de ser nada...

E voltando-se para d. Firmina:

— Segundo me disse aquele senhor (e apontou para o Pimenta), a menina foi à festa da Glória, sentiu-se mal dentro da igreja, e voltou para casa com febre e dores de cabeça...

— Sim, doutor.

— E não se queixou de mais nada?

— Não, senhor, mas está muito agitada, como vê...

O doutor debruçou-se delicadamente sobre a enferma, e perguntou-lhe em tom paternal:

— Ainda lhe dói muito a cabeça?

Fadinha não respondeu. Parecia não dar acordo de si.

O médico repetiu duas vezes a pergunta, e a enferma teve, afinal, um movimento quase imperceptível de lábios.

— E que mais lhe dói? Diga! Preciso saber... Vou dar-lhe um remédio que a porá boa...

A moça levou a mão à garganta.

— Dói-lhe também a garganta?

Desta vez ela respondeu distintamente:

— Dói.

— Bom. Não há de ser nada... Vou receitar, e amanhã voltarei cedo.

E depois de prescrever um sudorífico e uma dose alta de quinino, o médico despediu-se, dizendo:

— Convêm deixá-la quieta, muito quieta... Não lhe falem... Não façam o menor rumor neste quarto...

— Mas que tem minha filha, doutor?

— Por enquanto não posso diagnosticar... mas não há de ser nada... Não se assustem... Deixem-na transpirar, transpirar bastante... Só lhe mudem a roupa quando estiver alagada... De duas em duas horas uma cápsula... Até amanhã.

— E se a febre aumentar?

— Não aumenta, mas se aumentar previnam-me: darei cá um pulo. Não há de ser nada. Até amanhã.

— Boa noite, doutor.

E o médico saiu.

Entretanto, aquelas palavras - Remígio!.. Meu Remígio!.. - proferidas pela moça na inconsciência do delírio sobressaltaram a família - e, quando o barão e o Pimenta se retiraram, d. Firmina e os rapazes, não obstante o estado em que se achava a doente, e as recomendações do médico, dirigiram-lhe amargas invectivas:

— Filha ingrata! Destruíste a nossa felicidade!

— Escabreaste o barão!

— Deitaste tudo a perder!

— Podes limpar a mão à parede!

A doente, que parecia não ouvir tais recriminações, começou a gemer, a gemer, como se sentisse muitas dores em todo o corpo. Assim passou a noite.