A Moça Mais Bonita do Rio de Janeiro/VII

A Moça Mais Bonita do Rio de Janeiro por Artur de Azevedo
Capítulo VII


Naquela manhã tinha sido o Pimenta procurado pelo Alexandre, que deu esse passo instigado por d. Firmina.

Esta, que se achava ao corrente da vida do barão de Moreira, e sabia, por intermédio do filho, quais eram os seus gostos, os seus hábitos, os seus amigos e o seu caráter, pensou em interessar o Pimenta na realização do auspicioso consórcio, e neste sentido falou ao Alexandre, a quem ele tratava com certa familiaridade desde que o vira nas boas graças do patrão.

Alexandre obedeceu. Como não possuía o fino espírito de um diplomata, foi ter de manhã cedo ao quarto que Pimenta ocupava num sobrado de alugar cômodos, à rua do Lavradio, e lhe falou com uma brutalidade que por outro qualquer seria repelida.

Encontrou-o ainda na cama, uma cama de ferro, desconjuntada, com um colchão estripado e um lençol encardido.

Disse-lhe que o barão estava apaixonado por Fadinha, e contou-lhe o que havia com respeito ao Remígio, cujos direitos adquiridos inquietavam a família.

— Mas que quer você que eu faça? - perguntou o Pimenta.

— Você, ao que parece, é o maior amigo do barão. Ninguém melhor que você poderá auxiliar a minha família na conquista de um noivo tão considerável. Assim, pois, venho pedir-lhe que trabalhe para que o casamento se faça, e, se se fizer, conte com uma boa lambugem.

O Pimenta não pestanejou e perguntou:

— De quanto?

— Depois estipularemos a quantia, que naturalmente será tirada do dote de minha irmã.

— Vá descansado.

— Mas veja lá! Não lhe fale do Remígio nem por sombras: se o barão descobre que Fadinha gosta de outro homem, lá se vai tudo por água abaixo!...

— Você é um criançola sem nenhuma experiência do mundo! Onde já viu você empresa que fosse por diante sem concorrência? A presença de um rival é até indispensável para estimular o desejo. O nosso barão é orgulhoso: será capaz de tudo para não se deixar vencer pelo tal Remígio. O que é absolutamente preciso é que sua mãe procure convencer a moça da felicidade que a espera, se consentir nesse casamento. É indispensável, entretanto, convencê-la com bons modos, com meiguice, com beijos, com lágrimas, se preciso for; empregando a rispidez e a gritaria não se consegue nada e podo-se até fazer com que ela bata a linda plumagem! Recomende, pois, à sua mãe toda a cordura; diga-lhe que não é com vinagre que se apanham moscas. Hoje mesmo falo ao barão; verei a disposição de espírito em que ele se acha depois do almoço de ontem - almoço que deveria ter sido ensaiado como se ensaia uma peça de teatro. Descanse, que me encarrego de aproximar sua irmã do nosso homem, e o casamento se realizará, e ainda bem, porque nunca me vi tão precisado de uns cobres.

E depois de percorrer com os olhos, ainda remelosos, todo aquele miserável tugúrio saudoso do espanador e da vassoura, o Pimenta acrescentou:

— Esteja no armazém quando eu sair do escritório, para saber a impressão que trarei da nossa conversa.

E dai está explicado o motivo por que o Pimenta, ao passar pelo Alexandre, lhe atirou aquelas três palavras que soaram aos ouvidos do caixeiro como um hino de vitória: - O homem casa.