A Moça Mais Bonita do Rio de Janeiro/VI

A Moça Mais Bonita do Rio de Janeiro por Artur de Azevedo
Capítulo VI


No dia seguinte, entrando no escritório do barão, o Pimenta encontrou-o de mau humor.

— Então? Foste?

— Fui. Fui a Roma e não vi o papa.

— Não entendo.

— Roma é o Engenho Novo e o papa é Fadinha; entendes agora?

— Não a viste?

— Já te disse que não. Estava doente; não me apareceu.

— Deveras?

— Imagina que estupidez almoçar com dona Firmina e os filhos, e vê-la por um óculo! Almoçar é um modo de dizer, porque não comi nada. Fiquei desesperado!

— E que te disse a velha?

— A velha estava ainda mais contrariada do que eu. Era uma coisa que entrava pelos olhos. Pediu-me muitas desculpas pela ausência da filha, e disse-me - sem nenhuma convicção, aliás - que ela estava realmente indisposta.

— Não creias.

— Está visto que não creio.

— Tens um rival.

— Já desconfiava disso.

— Um concorrente sério. Informaram-me de tudo hoje pela manhã.

E o Pimenta contou ao barão o que os leitores já sabem: os amores de Remígio e Fadinha, a última vontade do velho Raposo, os obséquios prestados à família, a oposição de d. Firmina e dos filhos, o afastamento de Remígio - e acrescentou:

— A pequena desconfiou que te queriam impor-lhe para marido, e fechou-se no quarto. Aí tens por que foste a Roma e não viste o papa.

— Que me aconselhas tu?

— Para responder a essa pergunta, preciso primeiramente saber quais são as tuas intenções.

Houve um longo silêncio.

— Gostas dela?

— Muito. Já gostava, e depois do maldito almoço fiquei gostando ainda mais!

— Estás disposto a ser seu marido?

Houve outro silêncio, ainda mais longo que o primeiro.

— Se não queres fazê-la baronesa - redargüiu o Pimenta - esquece-te da moça. Que diabo! Ela pode ser feliz com o tal Remígio, que é rapaz honesto.

— Mas quem te disse que as minhas intenções não sejam boas?

— Tu ficaste calado...

— Fiquei, porque o casamento me apavora. E tão deliciosa e tão completa a minha liberdade! Sim, confesso-te que o matrimônio jamais figurou no programa da minha vida, mas se for preciso...

— Como "se for preciso"? Pois entrou-te em cabeça que Fadinha poderia pertencer-te independentemente da intervenção do padre? Aquela família é pobre, mas tão honrada como a tua! Se queres ser seu marido, luta, e vencerás, talvez; senão, desiste de uma idéia indigna de ti!

O barão olhou muito tempo para o havano que tinha entre os dedos, deixou cair a cinza numa escarradeira, meteu o charuto na boca, ergueu-se, e disse resolutamente, numa baforada de fumo:

— Lutarei!

Quando o Pimenta saiu do escritório, encontrou no armazém o Alexandre, e disse-lhe rapidamente, a meia voz:

— O homem casa.