A Moça Mais Bonita do Rio de Janeiro/XIII

A Moça Mais Bonita do Rio de Janeiro por Artur de Azevedo
Capítulo XIII


O moço foi bem recebido por d. Firmina, não porque despertasse no coração desta senhora nenhuma nuga de gratidão, mas porque ia auxiliá-la no penoso trabalho de assistir à enferma.

Realmente, nunca houve enfermeiro tão dedicado nem tão vigilante.

A moléstia conservou durante muitos dias - dias angustiosos e terríveis - um caráter de excessiva gravidade; durante longo tempo, Fadinha, que estava com todo o corpo cruelmente invadido pela medonha erupção, teve a existência por um fio.

O dr. Souto desanimara completamente, e era por hábito, só por hábito, que repetia o fatigado estribilho: "Não há de ser nada."

Entretanto, os cuidados da ciência e a ciência dos cuidados triunfaram do mal, e Fadinha ficou boa, completamente boa, depois de ter estado suspensa entre a vida e a morte.

Ficou boa, mas desfigurada: a moça mais bonita do Rio de Janeiro transformara-se num monstro. Aquele rosto intumescido e esburacado não conservara nada, absolutamente nada da beleza célebre de outrora. Ela, porém, consolou-se, vendo que o amor de Remígio, longe de enfraquecer, crescera, fortificado pelo espetáculo do seu martírio.

A mãe conquanto insensível às boas ações, não pôde disfarçar a admiração e o prazer que o moço lhe causou no dia em que lhe pediu a filha em casamento, dizendo:

— Só havia um obstáculo à minha felicidade: era a formosura de Fadinha. Agora que esse obstáculo desapareceu, espero que a senhora não se oponha a um enlace que era o desejo de seu marido.

Realizou-se o casamento. D. Firmina, desprovida sempre de todo o senso moral, entendeu que devia ser aproveitado o rico enxoval oferecido pelo primeiro noivo; Remígio, porém, teve o cuidado de fazer com que o restituíssem ao barão. A cerimônia efetuou-se com toda a simplicidade, na matriz do Engenho Novo.

Um ano depois do casamento, Fadinha estava outra vez bonita, não da boniteza irradiante e espetaculosa de outrora, mas, enfim, com um semblante agradável, o quanto bastava para regalo dos olhos enamorados do esposo. Remígio dizia, sinceramente, quem sabe? que a achava assim mais simpática, e os sinais das bexigas lhe davam até um "não sei quê", que lhe faltava dantes.

— Não é bela que me inquiete, nem feia que me repugne. E o que fosse, quem o feio ama, bonito lhe parece. Era assim que eu a desejava.

O caso é que ambos foram muito felizes. Ainda vivem. Remígio é atualmente um alto funcionário, pai de cinco filhos perfeitamente educados.

O Alexandre, que teve sempre a proteção do cunhado, foi ao Amazonas procurar fortuna e lá ficou. O "talento da família" formou-se, e arrasta melancolicamente por essas ruas a sua mediocridade e o seu pergaminho.

D. Firmina faleceu há quinze anos, sem deixar saudades a ninguém, e se os leitores têm curiosidade em saber que fim levaram os demais figurantes desta verídica história, saibam que o barão de Moreira também morreu, solteirão, sem aproveitar o enxoval que mandou vir e que o Pimenta, depois de ter adquirido, no famoso Encilhamento, uma riqueza que os amigos calculavam em milhares de contos de réis, perdeu tudo e fez-se outra vez boêmio, vivendo, como dantes, de expedientes. Está velho e deu para beber.