A Moça Mais Bonita do Rio de Janeiro/XII

A Moça Mais Bonita do Rio de Janeiro por Artur de Azevedo
Capítulo XII


Não se enganava o dr. Souto: era a varíola.

Fadinha passou aquele dia angustiada, queixando-se de muitas dores, com o rosto enrubescido, tendo freqüentes náuseas e vômitos, e na manhã seguinte o seu belo corpo estava inteiramente salpicado de pequeninos pontos vermelhos, que se desenvolveram durante quatro dias, transformando-se em horríveis pústulas, cheias de um fluido amarelo, rodeadas por um círculo negro. A peregrina beleza da moça desapareceu sob uma crosta repugnante e fétida.

Quando começou o período supurativo, a doente já estava abandonada por todos, menos por d. Firmina, que se sacrificou, digamo-lo, não por piedade materna, mas para guardar as conveniências, fingindo sentimentos que não tinha.

Os irmãos fugiram; durante a moléstia de Fadinha não houve notícia deles no Engenho Novo.

O barão de Moreira, logo que soube, pelo dr. Souto, da gravidade do caso, pois que se tratava, efetivamente, da pior espécie de varíola - a varíola negra - nunca mais lá foi.

O Alexandre sentiu, pela maneira seca por que o patrão começou de então em diante a tratá-lo, que o casamento estava desfeito, e com ele toda a fortuna sonhada pela família. Vencendo a tibieza de caráter, teve o caixeiro uma explicação com o ex-futuro cunhado, e este em termos que não admitiam réplica alegou brutalmente a visível paixão de Fadinha por outro homem. Vieram à bulha aquelas palavras fatais: "Remígio!... Meu Remígio!..." pronunciadas no delírio da febre.

A posição esquerda em que o desventurado ficou em casa do barão onde perdera todas as simpatias e era apenas sustentado pela influência indireta da irmã, os sarcasmos, os risinhos mal disfarçados do pessoal do armazém e do escritório deram com ele na rua, não obstante os generosos esforços que fez, para evitá-lo, o outro patrão, o sr. Motta, alma compassiva e boa, cuja bandeira de misericórdia debalde tentou cobrir o ambicioso rapaz. O próprio Pimenta desviou o rosto à primeira vez que encontrou o Alexandre, depois que este saiu da casa do barão, e nunca mais lhe falou.

D. Firmina ficou à cabeceira da enferma, sem outra pessoa senão uma viúva da vizinhança, amiga dedicada de Fadinha, muito boa senhora, a mesma que recebia e transmitia misteriosamente a correspondência de Remígio, e punha, epistolarmente, o amanuense ao fato de tudo quanto se passava no Engenho Novo.

Quando essa amiga lhe mandou dizer que Fadinha estava com bexigas, e o caso era grave, Remígio ficou aflito, sobressaltado, desesperado; quando ele soube que o barão de Moreira não visitava a noiva, que os rapazes não apareciam em casa da mãe, e esta, constrangida a não abandonar o seu posto, chegava a ponto de maldizer a filha, não pensou em mais nada, e, aconselhado unicamente pelo seu amor, correu para junto da variolosa.