A Viúva Simões/II

A Viúva Simões por Júlia Lopes de Almeida
Capítulo II

- Então você foi hoje à Santa Tereza? perguntou o Rosas a Luciano Dias.

- Fui...

- E então, que tal?

- Ainda fresca! Bonita!

- É bonitona, é.

Conversavam acerca da viúva Simões.

O Rosas acabava de jantar com o amigo regaladamente, na sua saleta do pavilhão, no Flamengo, com vista para o mar. Estavam sós; o criado levara o café e eles tinham acendido os charutos.

A tarde caía serena e bela num esmaecimento de tons delicados. Diante da porta aberta do pavilhão, a rua larga e arenosa do jardim estendiase com uma brancura pálida, sem brilho, e nos largos canteiros relvados, batidos de sombra, as palmeiras ornamentais abriam muito as folhas, como enormes mãos espalmadas. Entre o verdor enegrecido das plantas, sorriam de vez em quando rosas claras, cor de carne moça, e os arbustos das azaléias brancas destacavam-se muito, todos cobertos com as suas flores de neve.

Do outro lado, pelas janelas abertas, vinha o marulho das ondas a morrerem na praia.

- Já tenho licor... disse Luciano, respondendo a um gesto do Rosas, que tornara a encher o seu cálice e passava a garrafa ao amigo.

- É bom; isto reanima e conforta o estômago. E depois de um trago em que esgotou o cálice:

- Pois você fez mal em ir à Simões... pode comprometer-se e depois não ter remédio, senão...

- Casar?

- Casar.

- Qual!

- Veja o que aconteceu comigo!

O Rosas, homem já dos seus cinqüenta anos, gordo e calvo, cansado do seu viver de solteirão, tinha-se casado, para um ano depois separar-se da mulher, com grande escândalo.

A pobrezinha tinha sido uma cabeça tonta e bonita. Passara a mocidade a ler novelas dos jornais e a fazer crochet à janela da casa do pai, em S. Cristóvão.

Montépin lançou-lhe no espírito a semente da inveja das fidalgas loiras, de mãos de cetim e olhos de veludo turquesa. O crochet dava-lhe tempo para remoer mentalmente cenas de amor adúltero deslizadas nos parques alfombrados de castelos provincianos. Quando casou, o Rosas tinha ainda todos os gostos do negociante pacato e burguês. Como isso fosse por 1890, no período efervescente do jogo da bolsa, em que os luxos se assanharam até o desmando, não custou muito transformá-lo. Foi ela, portanto, quem o acostumou àqueles jantares no pavilhão, quem o obrigou a comprar carro, a freqüentar o lírico, até que um belo dia - zás! Lá se foi mar em fora com um primo dele, levando todas as jóias e deixando por despedida algumas linhas mal escritas.

Entretanto, aquele golpe não o desesperou; tinha mesmo facilidade extrema em aludir a ele. Chegava a ponto de constranger os amigos. Um deles notou-lhe um dia:

- Homem! há certas infelicidades que se escondem...

- Ao contrário, respondeu-lhe o Rosas, há certas infelicidades que devem ser espalhadas para servirem de exemplo!

Lá tinha o seu modo de ver.

- Há muitos meses que não vejo a Simões, prosseguiu o dono da casa, fincando o cotovelo na mesa e erguendo até a altura da calva a mão gorda e curta, em que luzia um enorme brilhante.

- Eu, já agora hei de morrer solteiro, disse Luciano pausadamente. Conheci por alguns anos a vida de família, fui tão feliz quanto podia ser nas condições em que me achava, e isso bastou-me.

- Alguma ligação.

- Sim. Uma rapariga por quem me apaixonei... vivemos quatro anos juntos. Hei de ter sempre saudades desse tempo... ela era linda e era um anjo!

- Um anjo com asas para fugir depois de quatro anos de ventura, não é assim?

- Não.

- Foi você que a deixou ?

- Morreu.

- Ah!...

Houve um instante de silêncio. O Rosas prosseguiu:

- Sabe que eu estava mal com o Simões?

- Não... por quê?

- Negócios.

- Ouvi dizer que ele era um homem mau.

- Não era tal.

- Por mim não sei nada. Eu mal o conheci.

- Ele era um pouco irascível e muito extremado nas suas opiniões mas era o que se pode chamar homem de bem! Na questão que tivemos, eu mesmo confesso, hoje, bem entendido, que a razão estava do lado dele.

- Então?

- Que quer? tive maus conselheiros. Essa é que é a verdade.

- Ele era português, não era?

- Não... riograndense, filho de alemã e de um negociante que morreu doido, aqui no hospício; ainda o conheci... O Simões tinha puxado ao tipo da mãe, era vermelho e ruivo; morreu de congestão. Já se esperava isso mesmo era um touro, pescoço curto, cabeça grande...

- A filha parece-se muito com ele deve ser violenta e forte. É feia.

- Tem uma filha só?

- Só...

- Pois o Simões não era mau homem. Um poço curto de idéias... Se a menina sair ao pai não será atormentada pela inteligência...

- Agora diga-me: acerca do comportamento de Ernestina nunca se falou?

- Nunca ouvi nada! Gozou sempre de reputação. Isso a meu ver não tem valor. Há mulheres tão sonsas!

- Que diabo! nem um amante, hein?

- Nenhum, que me conste.

- O Simões deixou grande fortuna?

- Não sei... calcula-se nuns quatrocentos contos, talvez.

- Não é má soma... Pois se não fosse o demo da filha, quem sabe? Talvez que realmente eu caísse na asneira de casar...

- Você não quis quando ela era moça, e então agora...

- Quando era moça era pobre... Mas o que me metia mais medo, ainda assim, não era a pobreza, eram os olhos dela!

- Os olhos!

- Receava que viesse a suceder-me o que sucedeu a você Ernestina tinha uma beleza provocante, de espantar maridos!

- Pois foi uma boa mulher... essas coisas enganam. A minha era mansa como um cordeiro, olhos postos no chão... parecia um anjo! Caí como um patinho... e aí está o resultado! Ora! estou livre! Isto de casamento é o diabo! Evita Santa Tereza!

- Não há perigo! Preciso de alguma coisa para entreter o tempo...

- Trabalha...

- Em que! Perdi o costume. Depois o que tenho dá-me para viver...

Luciano levantou-se e foi à janela, enquanto o Rosas sacudia com o dedo a cinza do charuto.

- Sabe! disse Luciano sem se voltar, e prosseguindo logo: estou encantado com a minha terra. Que beleza!

- Homem, não é isso que costuma dizer quem vem da Europa...

- Ora! Onde viu você nunca uma cidade com vistas destas?! e apontou com um gesto largo a baía em frente.

O Rosas levantou-se e foi encostar-se ao peitoril ao lado do outro. Ficaram silenciosos vendo os últimos raios do sol iluminarem com uma luz policroma parte do mar. De um lado tremulava uma rede malhada de ouro cintilante, mais além uma nuvem vermelha refletia nas águas um tapete de rosas, e em outros pontos apareciam manchas violáceas e sombrias que iam crescendo e movendo-se na onda. Na areia clara destacavam-se velhas pedras escuras, em que as algas se apegavam, como aranhas secas.

- Vamos dar um giro, interrompeu o Rosas, pouco afeito às contemplações da natureza.

E saíram os dois.