A Viúva Simões/VI

A Viúva Simões por Júlia Lopes de Almeida
Capítulo VI

No dia seguinte Luciano foi jantar a Santa Tereza; encontrou as duas senhoras na saleta do piano; a viúva fazia um bordado de tapeçaria, a filha renovava as flores de um jarrão.

Ele sentou-se entre ambas, votando toda a sua atenção para a dona da casa, a quem ofereceu um pacote de marrons-glacés, enfeitado de fitinhas azuis. A viúva desamarrou o embrulho com toda a delicadeza, mostrando as unhas, que brilhvam como coral polido. Entretanto Sara, com o pescoço esticado, ia dizendo:

- Eu gosto muito de doces... saí a papai! Como ele apreciava marrons-glacés! Lembra-se, mamãe, aquela vez que fomos todos ao Jardim Botânico? só nós dois acabamos com um pacote de marrons do tamanho desse? Mamãe só dizia: "Sara! Que é isso?! Basta!" e papai então, santo que ele era! respondia-lhe "Ora, meu amor deixa a pequena! se ela come, é porque tem vontade!"

- Papai muitas vezes chamava mamãe assim: Meu amor!

Luciano mordeu o bigode, enquanto a viúva, muito corada, disfarçava, perguntando-lhe se não achava de bom gosto o seu bordado.

E erguia a talagarça, já meio encoberta pelas sedas e as lãs.

Querendo desviar da memória da filha a lembrança do pai, ela começou a falar com volubilidade em coisas diferentes, saltando de assunto, como a escolher terreno.

Como por fim a conversa recaísse sobre coisas de arte, Luciano pediu-lhes que marcassem um dia para irem ver o seu pequeno museu.

Ele trouxera da Europa algumas coisas valiosas e citava entre elas um busto de garoto que figurara no Salon.

- Está dito! exclamou Sara alegremente, iremos amanhã!

- Amanhã; não... objetou Luciano quase sem olhar para a moça. Tenho ainda alguns preparativos a fazer. Ainda não achei um tapete a meu gosto para a biblioteca.

- Ah! O senhor tem uma biblioteca? tornou Sara.

E depois de uma pequena pausa:

- Aí está uma coisa que eu ainda não vi em casas particulares... Se papai fosse vivo eu também teria uma biblioteca! Ele dizia sempre que havia de me dar ma bonita educação. Não é verdade, mamãe?

- É sim... é...

Luciano rufava com os dedos na mesa, sem ocultar o seu enfado.

- Ah! se o senhor conhecesse papai, havia de gostar muito dele!

Luciano sorriu; Sara continuou:

- Todos o estimavam! Só uma pessoa lhe tinha raiva... Inveja! Também eu odeio-a!

Sem pronunciar o nome, compreenderam todos que aludia ao Rosas.

- Papai era tão meigo! Tão condescendente! Dava-me sempre um beijo em cada face e outro na boca. E à mamãe também.

Luciano levantou-se e Ernestina, muito corada, disse, precipitando as palavras:

- Então, Sara! que termos são esses? Vai espairecer as saudades de teu pai com a Gina, anda! É melhor isso do que estar constantemente a relembrar coisas passadas!

Os olhos de Sara encheram-se de lágrimas; mas para que Luciano não a visse chorar, saiu precipitadamente da sala.

Ernestina ficou silenciosa, com as mãos trêmulas, a vista pasmada nas cores vistosas do bordado.

- Decididamente, eu não posso tolerar a presença desta menina! exclamou Luciano num desabafo.

- Oh!...

- Sou brutal? Desculpe, mas sou sincero.

- Ela é uma criança... ignora que...

- Uma criança!

- Então?

- Mas diga-me: que significação tem aquilo de estar sempre, mas sempre, referindo-se ao pai?!

- Amava-o muito.

- Embora, mas isso parece ou não parece proposital?

- Não!...

- Não?! As mães são cegas!

- Coitadinha, é tão inocente, a minha Sara...

- Não sei; mas confesso-lhe que só a sua vista me mortifica!

Ernestina levantou-se pálida e trêmula de indignação.

- Não lhe posso impor simpatia por minha filha, mas julgo estar no direito de ordenar que a respeite... ou...

- Ou que me retire?

Ernestina calou-se, sufocando na garganta os soluços.

- Pois não vê, Ernestina, que se eu odeio a filha, é porque adoro a mãe?! Perdoe as minhas palavras, são filhas do ciúme violento, tenaz, que se apoderou de mim desde que vi Sara! Ela é a continuação do pai, o beijo vivo, ardente, trocado pelas vossas bocas! E é essa idéia que me martiriza e que me perde!

- É uma... insensatez...

- Chame como quiser.

Nessa tarde Ernestina lembrou à filha que fosse passar parte da noite em casa da Gina.

- Mamãe vai?

- Eu não.

A filha admirou-se; até então a mãe não a deixara nunca sair só!

O luar inundava a terra coro a sua luz veludosa. Pelas portas de vidro, fechadas ao frio, via-se lá embaixo a cidade, com umas luzes frouxas.

Sara tinha saído; Ernestina e Luciano, sentados junto a uma janela da sala, conservaram-se por instantes silenciosos, pensando talvez nos primeiros elas do seu amor, desabotoado e esquecido em plena mocidade.

- Dizem os psicólogos que duas criaturas que se amaram e que se esqueceram mutuamente não se tornam a amar nunca mais!

- Bravo! Não a imaginava tão letrada!... mas fique certa de que a psicologia é uma palavra tão enganadora como outra qualquer... E depois, nós nunca nos esquecemos, não e assim?

- Eu por mim... - Ernestina não teve coragem de concluir A mentira não lhe saiu da garganta. Luciano aproximou para bem perto da dela a sua cadeira, tomou a mão da viúva e beijou-a demoradamente na palma, nos dedos, nas unhas.

- Que mãos bonitas!... - Como eu adoro estas mãozinhas!... Ernestina sorriu; ele continuou a falar amorosamente, e pediu-lhe que tirasse o luto. Queria vê-la de branco, como uma noiva, e de cores claras e cantantes.

- É preciso esperar...

- Dê-me esta prova de amor, tire o luto!...

- É cedo... tenho medo...

- Medo de quê? De que os outros reparem?!

- Medo de...

- De quem?!

- De minha filha...

- Oh!

Ernestina corou, arrependida de ter dito aquilo. Ficaram alguns segundos calados e imóveis; de repente a moça, resvalando o olhar pelas paredes, pareceu-lhe distinguir o corpo da Simplícia, mal oculto por um reposteiro; levantou-se de chofre e atravessou a sala. Luciano seguia-lhe os movimentos com estranheza.

- Que tem? Que é isso?!

Mas a viúva chamava para dentro, afastando rapidamente o reposteiro; já não havia nem a sombra da mulata. O Augusto apareceu e ela mandou iluminar a sala.

- Para quê? indagou Luciano, o luar está tão bonito...

Entretanto, Ernestina não cedeu e exigiu de Augusto que acendesse todos os bicos do lustre e das arandelas...

Quando voltou para o lado de Luciano, encontrou-o com a fisionomia áspera e pensativa. Ela falou lhe em casamento. Não queria prolongar aquela situação. Logo que expirasse o prazo do luto, poderiam unir-se para sempre.

Ele ouvia-a calado; depois de um curto espaço de silêncio, perguntou se não haveria algum pretendente a mão de Sara...

- Não... por quê?!

- Seria melhor que ela casasse primeiro... viveríamos sós, sem ouvir referências a outro que me viessem estragar a felicidade!...

- Separar-me de minha filha?!

- Não será a primeira mãe a quem isso aconteça!

- Nunca!

- Não falemos mais nisso, replicou Luciano com tristeza.

- Conservaram-se por algum tempo afastados, mas as mãos uniram-se outra vez, os olhos procuraram-se e ele beijou-a na fronte, na face, na boca.

Ernestina, meio oculta pela cortina de renda preta, deixava-se abraçar amolecida, tonta, sem forças para resistir; o busto vergado para Luciano, os braços pendentes, o corpo trêmulo.

Nas paredes cinzentas da sala, os arabescos de ouro cintilavam, como se os milhares de gafanhotos que estampavam no papel suas asas agudas e as suas pernas finíssimas, se embaralhassem numa dança endiabrada!

O gás a toda força chamejava no cristal do espelho, amornando a atmosfera e fazendo uma bulha de sopro surdo, como riso abafado!

Toda a energia da viúva tinha fugido. A luz? Que lhe importava a luz?! Ela não via, não pensava, resvalava sem pena nem cuidado, sentindo-se feliz, mais nada!

Subitamente ouviram a voz de Sara, que se aproximava de casa, cantando alto.

- Vá-se embora, Luciano!

- Mais um momento...

- Minha filha aí vem!...

- Está ainda em casa da Gina... a voz vem de lá...

- Não, vem do jardim...

- Mais um beijo... Afirmo-lhe que ela está em casa da Gina!

- E que esteja... é tarde.

- É cedo...

Ele quis abraçá-la; ela resistiu: reassumira toda a sua energia.

Luciano saiu, cruzando-se com Sara já perto do terraço. A moça sorriu-se interrompendo o canto, deu-lhe as boas-noites; ele resmungou umas palavras incompreensíveis e mal tocou o chapéu.

- Então não me diz adeus?! perguntou Sara atônita, voltando-se para trás, para o vulto de Luciano, que fugia na sombra.

Ele não respondeu.

- Bruto! murmurou a moça ofendida. Por que não falaria comigo?! Ora por qualquer coisa! Que me importa!

Ernestina tinha ficado só. A filha calara-se; a casa parecia adormecida. Batia-lhe o coração e o sangue abrasava-lhe as faces. Precisava de ar; abriu a janela e encostou-se; respirou com força, sentindo-se feliz por ter vencido. Ser amante de Luciano? Nunca. Esposa, sim. À proporção que os seus sentidos se acalmavam, ela pensava na implacável exigência de Luciano, de a separar da filha...

Encostada ao umbral, deixou que a sua alma fraca de mulher interrogasse as coisas mudas! Que lhe destinaria o futuro? Nada lhe respondia. Foi em vão que meditou, cravando o olhar interrogativo na grande esfinge que desenhava além, na noite enluarada, o seu enorme corpo vigilante e altivo!

Voltou para dentro muito nervosa e agitada. Ao atravessar a sala, teve medo.

Da sua grande tela sombria, o marido parecia acompanhá-la com a vista.

Ernestina sentiu vergarem-se-lhe os joelhos e tateou com mão trêmula o fecho da porta por onde saiu.

Nessa noite não pôde conciliar o sono. No quarto tudo lhe falava do marido.

A cama parecia-lhe guardar o calor do seu corpo; os lençóis o as fronhas eram marcados com o seu nome, e o cabide em que ele costumava pendurar a roupa estendia para ela os braços nus...

Ernestina revolvia-se no leito, sem descanso. Sem perceber como, com a convivência adquirira certos hábitos do esposo; procurava agora um meio de os corrigir. Só agora notava que era como o dele o jeito porque cerrava o cortinado, sempre de um lado só; que fora com ele que se viciara em não adormecer sem tomar uns goles de água açucarada, e que até os seus gestos, as suas palavras e o seu modo de pensar refletiam particularidades dele.

Sem poder dormir e muito impressionada, passou ao quarto da filha. Sara dormia profundamente, respirando alto, com os braços sumidos embaixo da roupa e a sua cabeça redonda e grande enterrada no travesseiro.

Ernestina, a tremer de frio, deitou-se aos pés da cama, muito devagarinho, encolhendo-se para diminuir de volume.

Adormeceu e acordou várias vezes, mas o seu sono era leve, como que assustado.

Ao amanhecer, levantou-se antes que Sara a surpreendesse e saiu. Tornou para o seu quarto, estendeu-se num divã, muito cansada, com o corpo cheio de dores, a cabeça fraca, e pôs-se a cismar em futilidades: concertos de jóias, vestidos a fazer, e visitas...

Nesse dia aliviou o luto.

Sara mostrou-se admirada e ofendida.

- Ainda não há um ano e mamã já usa branco?!

- O luto é uma tolice... creio que já dei uma satisfação à sociedade...

- De rigor é um ano.

- Não é na roupa que está o sentimento, é no coração.

- Eu sei... mas... gostava que mamã fizesse como as outras...

- As outras! Quem te ouvir falar assim há de pensar que não lamentei a morte de teu pai?

- Não, minha mamãzinha. Deus me livre! Eu bem sei que mamã tem muitas saudades... pudera! se não fosse assim, a senhora seria ingrata!

Ernestina corou, mas Sara, muito ingênua, não deu por tal.

Principiou então uma vida toda diferente.

Era a lufa-lufa dos vestidos novos, sedas caras, luxo sem método. Assinatura no Lírico, concertos, dias inteiros fora de casa, em passeios onde se encontrasse Luciano. Ele vinha sempre muito atencioso, numa amabilidade discreta e delicada, conversar com Ernestina, que tinha assim a sua recompensa. Sara recebia com prazer e sem observação essas coisas, que a mãe explicava assim aos amigos:

- Sara tem dezoito anos... está no tempo de gozar, não lhe faltarão desgostos no futuro!

O seu amor por Luciano crescia como uma febre. Não pensava, não via outra coisa. Era sempre ele a povoar-lhe o espírito de sonhos. Nos bailes, como não dançava ainda, incitava-o a dançar com a filha, e no outro dia, indagava dela o que lhe tinham dito os pares, fazendo-a repetir as palavras de Luciano.

Sara ia contando, sem reparo, e confessava que fora ele o mais espirituoso entre todos os pares com quem tinha conversado.

Ernestina, lisonjeada, beijava a filha, muito alegre.

Todas as pessoas que elogiassem Luciano tornavam-se logo para ela muito simpáticas. Sabendo que o Rosas, velho e encarniçado inimigo do seu defunto marido, era o melhor e mais íntimo amigo de Luciano Dias, entrou a consagrar-lhe tal amizade que o convidou repetidas vezes, com insistência, para ir a sua casa. E isso aconteceu.

O Rosas cedeu à vontade da viúva e do amigo, procurando mesmo intervir para que se realizasse o casamento. Um dia Ernestina conversava com ele muito satisfeita na sua sala, esperando ouvi-lo falar de Luciano, quando Sara, ainda desprevenida, abriu a porta e entrou.

A moça estacou no umbral, fixando atenta e admirada os olhos na visita. O seu rosto, habitualmente rosado, tornou-se lívido; os abas tremeram-lhe, não encontrando palavras para a indignação que lhe fervia no peito.

A mãe, embaraçadíssima, ergueu-se e foi ter com ela, automaticamente, sem atinar com o que dissesse; mas Sara repeliu-a com um gesto.

Ernestina compreendeu então, num relance, a sua imprudência e empurrando a filha para fora, fechou com raiva o reposteiro.

Sara saiu para o jardim, tonta e trêmula. Não via nada; andava de um lado para outro como um pássaro ferido a lutar com a morte. A pouco e pouco a dor ia se abrindo, mostrando-se toda, como uma flor ao sol. A moça esmagava com os pés, maldosamente, os miosótis rasteiros de florinhas azuis como olhos de anjos e as folhas tenras da malva-maçã cheirosa. Rangiam sob as suas botinas a grama fresca, as hastes dos junquilhos, os amores-perfeitos de cores veludosas, os botões de ouro, as violetas, os cravos, as anêmonas e as flores lácteas do nardo.

Destruir, arrasar tudo, era a sua vontade.

O Rosas, o grande inimigo de seu pai, ali, dentro daquela casa, em doce tête-a-tête com sua mãe! O comendador Simões não o pudera ver nunca sem desgosto e sem raiva, e o vil aproveitava-se agora que ele já não vivia, para ir recostar-se nos seus estofos e pisar as suas alcatifas!

Sara sentia-se forte; tinha ímpetos de esperar ali o Rosas e de lhe bater na cara com as suas mãos nervosas. Desesperada, fustigava as plantas, em movimentos furiosos. Voavam dispersas as flores aromáticas do belo manacá, o heliotropo lânguido pendia para o chão. Um dilúvio de flores inundava os gramados. Choviam pétalas de rosas e de hibiscos, de dálias, lírios, margaridas, jasmins, cidrilha, jurujubas, murta, petúnias, fúcsias, resedá, esponjas, ixora e açucenas. Flores de arbustos, flores de trepadeiras, flores tuberosas ou flores de orquídeas, obedeciam todas à vontade de Sara, que as derrubava, subindo e descendo as ruas do jardim e do pomar, repetindo baixinho: Papai... papai!... como a pedir-lhe socorro, por sentir iminente um perigo.

O dia estava formoso, de um azul violeta muito intenso, onde a luz dourada do sol rolava em ondas largas. As romãzeiras enfeitavam-se com as suas flores de um escarlate régio; pendiam das jaqueiras, como úberes enormes, grandes jacas maduras; e a parreira abria numa cruz, cor da esperança, os seus braços cobertos de folhas largas e macias. Sara corria no meio de tudo aquilo, nervosa, resfolegante como um animal de raça, mostrando as pernas finas, galgando os degraus dos socalcos, esmagando com as solas as flores claras dos morangueiros, abrindo para todas as coisas os seus olhos muito brilhantes e movendo os lábios secos na repetida suplica da sua alma: "Papai... papai..." Mas o pai não lhe respondia e ela, de vez em quando, desesperada, arrancava com repelões as frutas que a mão alcançava e atirava-as ao chão, bruta, violentamente, só pelo delírio de estragar.

As laranjas, de um verde que a maturação começava a tingir, rolavam de socalco em socalco. Grupos de jambos brancos, caíam, separando as suas campânulas de cristal rosado de mistura com araçás ainda verdes e pitangas cor de rubi. Um tapete de frutas ia-se alastrando pelo pomar, e Sara pisava, esmigalhava, mordia, rangendo os dentes nas frutas acres, ainda verdes, ou sacudia as árvores, abraçando-se aos troncos cetinosos dos pés de cambucá, ou aos galhos ásperos das goiabeiras.

Tudo a mortificava, a exacerbava. Revivia a lembrança do pai, o ódio antigo, entranhado, feroz, por ele consagrado ao Rosas, a surpresa de o ter sentado perto da mãe e ao mesmo tempo a vergonha, a dor ter sido repelida!

O sol parecia queimá-la, abrasando-lhe a cabeça nua, refulgindo no seu formoso cabelo cor de ouro, solto pelas costas, numa trança lassa. Ela ia, ora batida de sombra, ora toda vestida de sol, sem saber para onde, parando aqui, ali, voltando para trás, desfolhando sem piedade as grandes flores roxas do maracujá ou as flores perfumosas dos limoeiros, batendo com os pés nos cajás soltos, nas carambolas e nas ameixas de Madagascar, espalhadas no chão. O seu desejo era que aquele bom sol, enorme e fecundante, incendiasse num momento todas aquelas limeiras e cidreiras, os pés de sapoti, de pinhas, de genipapo a dos abius, as figueiras, as ameixeiras, o laranjal, os bambus, as jabuticabeiras, os pés da grumixama e de abricó, todas as velhas árvores amadas e o roseiral, e a casa, e ela e tudo!

De repente estacou; os joelhos vergaram-se-lhe - e rebentou em soluços. Em frente dela erguia-se o vulto enorme e sombrio de uma mangueira que tinha sido sempre ali a árvore predileta do pai.

Sara deixou cair na terra dura o seu corpo branco e cansado. A mangueira era no alto, no extremo da chácara; estendia para todos os lados os seus poderosos braços tranqüilos, de onde pendia a erva - barba de velho, caindo em fios longos, que lhe davam um aspecto de vetusta e doce austeridade.

Sara quedou-se imóvel, sobre as raízes da mangueira, que se salientavam na terra escura, como uma vigorosa ramificação de nervos. Lá embaixo, ao longe, a cidade atirava ao ar rolos de fumaça, e como que a evaporação do suor do trabalho, que parecia subir em camadas contínuas, densas, distintas na atmosfera. No mar, que a muita luz empalidecia, distinguiam-se os cascos negros dos navios mercantes e as chaminés bojudas dos paquetes. A febre dos dias de semana rumorejava num delírio rouco, cortado de vez em quando por um ou outro silvo agudíssimo, das máquinas de alguma fabrica...

O Rio de Janeiro arfava. De todos os telhados parecia elevar-se, ignota e grande, a dor da luta pela vida.

A felicidade, o luxo, a miséria, o dinheiro, o gozo, a raiva, o esplendor, a fé, a mentira, a paz e a desordem, tudo ela via dali, na suprema glorificação da luz de ouro que tombava a jorros do céu violáceo.

O teatro, o hospício, as igrejas, as fábricas, os cães, os jardins, os palácios, os casebres, o mar, o arvoredo, o cemitério, tudo se unia e se confundia na fogueira do sol, na vida da grande e poderosa cidade.

Sara chorava baixinho.

Aquela mangueira muda, serena, com a sua velha casca rugosa, as suas nodosidades cobertas de cambaxilras, as suas folhas sombrias e abertas; e as suas parasitas, quebrava-lhe a excitação raivosa numa onda de ternura. Era ali que o comendador Simões gostava de sentar-se, nas tardes de domingo, recomendando sempre ao hortelão que não lhe bulisse nessa árvore; que a deixasse livre de enxertos e de podas; queria-a assim: agreste, inculta e sossegada.

Sara recordava isso, olhando para as toalhas ondeadas de verdura que se iam desenrolando pelo pomar até lá em baixo, à casa, de que só distinguia o telhado. Os tamarindeiros, salpicados com florinhas amarelas, e os pessegueiros, de um verde cinzento; mais as figueiras, as ameixeiras, os cajueiros, as árvores de abricó, das carambolas, da fruta do conde, do abacate, as amendoeiras enormes e as bananeiras airosas, confundiam-se, unindo as ramas, variando os matizes do verde mais claro até o verde mais negro, com manchas: aqui louras, ali esbranquiçadas, ou róseas, ou cor de ferrugem. A meio do pomar, à direita, destacavam-se entre todas pela forma bizarramente recortada das suas folhas elegantíssimas, a árvore da fruta-pão, e lá embaixo, sobre o telhado vermelho do chalet, ela via a última estrela, pequenina e escura, da grande araucária do jardim.

Sara continuava chorando, enraivecida contra a mãe. Por que consentira ela em receber o Rosas?! Por que mudava de dia para dia o seu caráter? Porque se ocupava agora tanto consigo, passando horas no seu quarto, sozinha, fugindo da companhia dos outros e aparecendo depois toda cheirosa, fresca como a flor apenas desabrochada? Que mistério seria esse que ia afastando dela, evidentemente, todo o carinhoso e doce amor de Ernestina? Que falta teria ela cometido? Por que se adivinhava tão só?

Sem achar explicação para os seus tristes pressentimentos, Sara escondeu o rosto, a invocar a memória do pai.

Estava assim, quando ouviu passos perto. Era a mãe que a procurava, entre zangada e aflita.

- Sara!? Que loucura é essa?

- Mamãe...

- Levanta-te!

A moça ergueu-se, comovida pelo tom severo da viúva.

Ernestina continuou áspera e decisivamente:

- É preciso compreender bem isto: exijo que sejas cortês para toda a pessoa; seja ela quem for, que eu quiser receber em minha casa!

- Mamãe, eu...

- Se não deseja sujeitar-se à minha vontade, case-se!

- Ah!...

- Que vergonha!

- Mas mamãe! Aquele homem?

- Com aquele ou com qualquer outro tens de ser delicada.

- Não! Isso não! Aquele é um infame; foi o maior inimigo de meu pai eu não o esqueço! e se ela voltar cá eu bato-lhe na cara, bato-lhe!

- Cala-te! Quem manda aqui sou eu! Se o recebi, é porque entendi que o devia fazer!

- Oh! Mamãe!

- Vamos! E Ernestina com o olhar seco apontou o caminho de casa.

Sara seguiu silenciosa, trêmula, ainda embaixo da raiva e do despeito que tão intensamente tinham vibrado nela. Pisava com força, fitando a sombra da mãe, que se projetava muito esguia a seu lado.

À porta da sala de jantar encontraram o jardineiro, que subira da cidade com um garrafão de vinho ao ombro.

Ele quis dizer qualquer coisa; a viúva fez-lhe um gesto, que se calasse. Durante o jantar a mãe e a filha não se falaram. Sara não comia, sentia um novelo na garganta e receava chorar ali mesmo, diante dos criados. À noite entrou cedo para o quarto, deixando a mãe sozinha no terraço.

Ernestina não sofria menos. A indignação da filha exasperara-a, mas a sua submissão depois tinha-a comovido. Afinal reconhecia razão na moça e chegava a envergonhar-se do seu procedimento. O Rosas tinha sido um inimigo acérrimo do marido. A questão entre ambos tomara um rumo tão perigoso, que fora preciso intervenção de terceiro. O Nunes, como amigo mais íntimo do comendador, tinha-se posto de permeio e evitado um desenlace terrível à negregada questão. Por muito tempo o nome do Rosas tinha sido envolto no mais asqueroso desprezo e Sara, que adorava o pai, e compartilhava do seu temperamento, começou a ter pelo Rosas a mesma raiva, talvez ainda mais violenta que a dele. Depois da morte do Simões, esse sentimento de rancor havia-se acentuado. A lembrança do pai enchia-a de caridade para todos, menos para os que em vida o tivessem insultado ou feito sofrer!

Por isso a viúva Simões entrava a ter remorsos e a preocupar-se muito com a opinião de Sara. Que diria ela quando soubesse de tudo?

Pensava nisso quando sentiu ranger o portão de ferro do jardim; voltando o rosto percebeu, através da meia escuridade da noite, o vulto de Luciano Dias, em que se destacava num fato escuro uma nesga de colete branco.

Ernestina levantou-se e disse-lhe, mal o viu aproximar-se:

- Sei porque vem. O seu amigo Rosas contou-lhe tudo!

- É verdade: e já que abordou a questão tão abruptamente, deixe-me dizer-lhe que venho indignado!...

- Não sei porque!...

- Não sabe porque!?

- A culpada fui eu... Sara não tinha sido prevenida, e...

- Não a desculpe, pelo amor de Deus!

- O Rosas não devia ter vindo... eu estava louca quando o convidei!...

- Veio porque eu lhe pedi também que viesse. É tempo de se acabar com inimizades insensatas. Ele é um bom homem.

- Será, mas...

- Mas?

- Sara teve razão.

- Não diga isso! Uma menina de educação não faz o que ela fez. Foi insolente!

Ernestina levantou-se, muito ofendida; mas Luciano não lhe deu tempo de falar; continuava, muito nervoso:

- O Rosas descreveu-me bem nitidamente a cena... saiu envergonhadíssimo e furioso! Quando eu digo que precisamos arranjar um casamento para sua filha!

Ernestina mastigou, colérica:

- Um casamento...

- Sim é indispensável para a nossa felicidade. Isto assim não pode continuar, bem vê...

- Pode. Eu não quero que minha filha se case. É minha, amo-a; acabou-se! Pensando friamente, Sara fez bem. O Rosas foi um inimigo acérrimo do pai; não devia ter vindo.

- Perfeitamente; mas o pai está morto, o Rosas esqueceu ofensas, veio exatamente para uma reconciliação e não e a ela, menina sentimental e mal educada, a quem compete receber ou despedir este ou aquele indivíduo que entre em casa de sua mãe...

- Luciano!

- Não senhora! Sara foi brutal. Além de tudo, o Rosas é um velho e ela abusou da sua posição de senhora...

- Basta! Isso desgosta-me.

- E a mim ainda mais. Imagine: caso-me. Bem. E então? hei de deixar de receber o meu melhor amigo, em minha casa, só por um capricho piegas da menina.? Precisamos meditar bem em tudo! O que passou, passou!

- O Rosas era inimigo do pai? Que tenho eu com isso? É meu amigo, e portanto da minha família!

- Lembre-se de que nós ainda não somos a sua família... Amamo-nos, queremos casar, e desde que isso suceda, as vontades dela ficarão em segundo plano, terá de submeter-se à nossa. O que determinarmos é o que se há de fazer. É melhor explicar-lhe isso já.

- Falar-lhe no casamento? É cedo deixemos passar o ano de luto... respondeu Luciano...

- Do luto? Mas onde está ele?

- Nela...

- É verdade que Sara persiste em andar de luto...

- A sua tolerância, Ernestina, é que a tem perdido! Sua filha é autoritária e caprichosa. Decida-se a fazer o que lhe tenho dito: e aconselhe-a de longe...

- Ela vai sofrer muito!... Não...

- Embora; tudo redundará em seu proveito.

- Não sei por que aborrece assim a minha pobre filha: se convivesse com ela, havia de adorá-la! É um anjo.

- O que vejo é que tem medo de magoá-la com uma simples palavra, e entretanto a mim não poupa desgostos...

- Eu?!

- Sim.

- Meu Deus! Mas como!

- Referindo-se constantemente ao seu finado marido, não reprimindo o modo desabrido da senhora sua filha, conservando na sala, bem em frente ao seu, o retrato do Simões como senhor legítimo de sua casa e ao seu coração... Por que não retira dali aquele quadro? Não calcula o ciúme, o ódio que lhe tenho e o mal que ele me faz!

- Desculpo as suas palavras, porque elas são filhas do ciúme.

Ernestina estava surpreendida e desgostosa com Luciano. A cólera tornava-o grosseiro, áspero. O seu gênio rompia todos os preceitos da educação e do cavalheirismo para se mostrar rude e indomável.

Sara foi todo o assunto da noite. A mãe defendia-a, punha-a acima de tudo e de todos, como se fosse um símbolo da perfeição na terra. Fazia isso exatamente por vê-la acusada. O seu amor maternal reagia contra todas as censuras num grande exagero.

Luciano saiu cedo, impressionado e nervoso.

A verdade era que os olhos de Ernestina inquietavam-no mais do que ele desejava.

Como dissera ao Rosas, furtava-se ao casamento, procurando no amor da viúva uma dessas páginas de paixão, freqüentes na vida dos homens. Ernestina, porém, sabia defender-se, era muito mais forte do que ele poderia supor, os planos de amor fácil iam-se desmoronando e ele revolvia-se desesperado entre o desejo de possuir a mulher e a má vontade de a chamar - esposa!

Não era positivamente como marido que ele queria beijar a boca pequena e rubra da viúva Simões! O corpo esbelto e ondeante da moça, o negro azulado do seu cabelo farto, a doçura dos seus olhos rasgados e úmidos o moreno quente da sua pele rosada, acendiam-lhe no coração, não o amor puro e casto que o homem deve dedicar a companheira eterna, mas o fogo sensual de uma paixão violenta e transitória. Ele amava-a, amava-a, sim; tinha ciúmes do passado, era sincero na sua cólera, odiava o Simões e a filha do Simões, porém à sua imaginação o vulto de Ernestina aparecia, teimosamente, engrinaldado de pâmpanos e de taça em punho, como umabachante!