A Viúva Simões/XII

A Viúva Simões por Júlia Lopes de Almeida
Capítulo XII

Chegou a noite do baile masqué. Fazia calor e luar; o céu tinha poucas estrelas, mas muita luz.

Ernestina trajava um dominó à fantasia, muito unido ao corpo, da seda e rendas pretas, com longa cauda e capuchão seguro ao cabelo por brilhantes esplêndidos.

Ia elegante na sua seriedade. O seu desejo era ter ido decotada, com um traje farfalhante e claro, mas teve medo da crítica e absteve-se preocupada sempre com a opinião dos outros. Às dez horas entraram no baile.

O Nunes abria os seus ricos salões burgueses num esplendor de luzes e de flores. Não tivera espírito para reviver na sua festa uma época histórica qualquer, em que tudo, convidados e casa, fosse submetido rigorosamente ao estilo e ao figurino do tempo reproduzido. Negociante rico e feliz, pouco afeito aos requintes literários, satisfazia condescendente e bondosamente ao capricho da esposa, proporcionando-lhe o ensejo de mostrar a sua casa e os seus jardins formosíssimos.

Luciano esperava as Simões na saleta da entrada. Ele riu-se vendo Sara com um vestuário diverso do que haviam combinado. Tinha-lhe aconselhado o romântico costume de Margarida, que lhe fazia valer a beleza das tranças, e ela aparecia-lhe numa toilette extravagante, sem origem bem determinada e onde o ouro e o vermelho se embaralhavam indiscretamente.

Era uma verdadeira boemia de opereta com pandeiro, cabelo solto, braços nus, saia redonda tilintante de moedas. Sara zangou-se ao deparar com Luciano encasacado, foi logo direita a ele, dizendo que, se todos fizessem o mesmo, não teria graça nenhuma o tal baile masqué! Depois de um muxoxo, acrescentou:

- Estou bem?

- Está linda!

- Se eu não lhe falasse, agora o senhor não me reconheceria. Mamãe acha a minha toilette vulgar. Eu estava morta por saber a sua opinião... ainda bem que me acha bonita!

Ernestina ouviu tudo imóvel, sentindo um calafrio percorrer-lhe a espinha. Luciano não desviava a vista da cabeça loura da filha, onde flutuava a ponta de um lenço de seda vermelha.

Nessa noite ela não lhe pediu como costumava: dance com minha filha, sim? Ao contrário, desejava afastá-lo de Sara. Entretanto eles dançavam juntos.

A gentil boemia fazia tilintar as moedas da saia; em uma alegria barulhenta.

Estava feliz nessa noite; tinha ditos de espírito e havia sempre um grupo de rapazes a cortejá-la muito.

O Eugênio Ribas não a perdia de vista, procurando todas as ocasiões de estar a seu lado. A coisa chegava a dar na vista; algumas pessoas diziam mesmo que o Eugênio era já noivo da Sara Simões. O Nunes, velho amigo de Ernestina, julgou prudente advertir o moço, e ele lealmente confessou adorar a filha da viúva e esperar só um momento oportuno para fazer-lhe a sua declaração. Ernestina soube depressa da resolução de Eugênio e sentiu um alívio inexplicável. Entretanto Luciano, num zelo de pai, começava a achar embirrativa a assiduidade do outro.

Sara ia-o levando também, inconscientemente, atrás de si, de sala em sala, risonha e descuidada, sempre a preferência, distinguindo-o entre todos os outros.

Ele seguia-a sem saber porque, obedecendo a um sentimento de proteção que julgava dever dispensar-lhe.

À uma hora estavam no jardim. Como a noite estivesse quente, seguiram até ao fundo, ao paredão que dava sobre o mar. Pelos relvados circundavam linhas multicores de copinhos luminosos e um foco de luz elétrica, partindo do centro do jardim, derramava a sua luz diáfana sobre a verdura reluzente dos arbustos e a brancura marmórea das Vênus e das bachantes nuas.

A vegetação abundante e incomparável do Rio exibia ali os seus mais encantadores exemplares. Palmeiras variadíssimas, fetos enormes misturavam os seus leques e as suas rendas às carnudas begônias, às avencas sutis, às parasitas de formas artisticamente rebeldes e fantásticas, às rosas, aos cactos, aos jasmins, às flores ardentes e rudes e às flores idealmente brandas e leves como flocos de espuma. A folhagem vermelha e cor de ouro velho do croton tinha a seus pés os tapetes rose-dourados dos jasmins-manga, caídos como um chuveiro de perfume e de luz dos galhos claros da árvore.

Luciano continuava ao lado de Sara, sem saber mesmo porque considerava-se agora o seu protetor e o seu guarda, num zelo mais do que paterno. A moça fugira um pouco à assiduidade importuna do Eugênio Ribas, confessara isso mesmo a Luciano, numa confidência amiga e sincera. A intimidade a que Ernestina os obrigara autorizara aquilo.

Sara encostou-se ao paredão, olhando para o mar. Uma expressão de indefinível doçura espalhou-se-lhe pela fisionomia, até aí radiante de alegria. Sobre a sua cabeça estendia os braços um formidável magnólia escura, em que as flores pálidas vazavam dos seus copos marfíneos o aroma da paixão, violento e entontecedor. Ao longe, do pavilhão das ipoméias, vinham os sons da banda com os seus clarins sonoros, e lá em cima, no azul tranqüilo do céu, a lua ia rolando, lentamente!

Luciano contemplava extático a órfã do seu velho rival. Ela tinha os braços nus, brancos e estendidos para a frente, as mãos sobre as pedras esverdeadas do muro, os olhos entrecerrados acompanhando as ondas, que iam e vinham brandamente, queixosas.

Luciano contemplava-a assim, achando-a bizarra naquele traje quente que envolvia, como uma injúria, o seu corpo delicado e virginal, sentindo-a ao mesmo tempo mais cândida, mais ideal, mais doce do que nunca! Aquela cisma e súbita melancolia da moça tornavam-na como que uma imagem de santa milagrosa, que ele tivesse visto surgir por encanto daquelas flores ou daquele mar. Ora desejava vê-la sempre assim, imóvel e serena, ora sentia ímpetos de a beijar, de a morder, de lhe dizer que a amava!

Sara prendera a meia mascara de veludo ao cinto e no seu rosto largo, onde sempre a expressão de lealdade tinha suprido a falta de delicadeza, iam agora rolando duas lágrimas.

- Em que pensa? perguntou-lhe Luciano comovido, segurando-lhe na mão.

- Em meu pai! Sinto remorsos desta alegria que tenho tido hoje...

- Que criancice!

- Será! Mas que quer? Ele era tão bom! Amava-me tanto! e depois... bem sabe; é a primeira festa a que eu assisto aqui, nesta casa, onde tantas vezes vim em sua companhia! Ele era íntimo desta família... Papai e o Nunes eram como se fossem irmãos!...

Sara, excitada pelo excesso da dança e pelo aroma das flores, pôs-se a falar do comendador, relembrando os seus carinhos, o extremoso cuidado que lhe dedicava, a maneira por que se fazia criança para brincar com ela; a sua solicitude e bondade, o modo piegas com que a tratava, chamando-a: - Jojóia, meu bem!

Citava fatos, descrevendo a sua caridade modesta, a sua honradez sem mácula e a retidão do seu espírito. Dava ao pai uma auréola de santidade, sem esconder contudo a rigidez austera do seu caráter.

Luciano ouvia-a com uma atenção silenciosa simpatizando a pouco e pouco com esse homem, que ainda havia alguns dias odiara e que parecia agora outro através das saudades e das palavras de Sara!

Não analisava os seus sentimentos; esquecia todo o passado ao influxo daquela ternura filial; daquela voz argentina, molhada de lágrimas, que vibrava no ar perfumado da noite com uma doçura de sonho. Compreendia agora bem o coração extremoso e leal da moça; sentia-a forte, fiel, sincera e justiceira, alma feita para esposa e para mãe, capaz de todas as lutas, digna de todas as glórias!

Caía por terra o seu ciúme raivoso e ele desejaria agora ver o Simões reassumir milagrosamente o seu antigo posto ao lado de Sara e ao lado de Ernestina!

Quantas vezes a viúva lhe tinta respondido, quando ele maldizia o marido:

- Ele morreu! E ter ciúmes de um morto é uma insensatez!

- Não! redargüia-lhe Luciano; eu preferiria ter ciúmes de um vivo, com quem pudesse lutar e a quem pudesse vencer!

- Mas se ele não tivesse morrido, eu ainda seria casada...

Era sempre esta frase e tapava a boca de Luciano, até que ele, entre risonho e agastado, concluía:

- Sim... ele teve ao menos o juízo de morrer a tempo!

Entretanto, Luciano via agora com respeito e comoção o nome daquele homem há pouco detestado! O coração abria-se-lhe a um sentimento novo de simpatia e de piedade.

Sentindo-se compreendida, Sara desabafou as suas mágoas. Referiu-se à historia do retrato do pai, à mudança inexplicável do gênio de Ernestina, à maneira por que tirara o luto antes do tempo, o seu nervosismo, o modo por que evitava falar no marido, cujo nome deixara de soar em casa. Aquela ingratidão é que lhe doía muito!

Agitada pelas danças, pela música, pelo brilho da noite e o aroma voluptuoso das magnólias, Sara expandia-se, na embriaguez da dor, falando sempre, revendo-se no olhar de Luciano.

Ele deixou-se envolver de tal sorte que se indignava contra Ernestina, esquecido de que tudo o que ela fizera tinha sido a pedido e a conselho seu! E olhava para a Sara amorosamente, embevecidamente!

Atrás deles, suspensos das árvores e de festões de folhas, pendiam as lanternas multicores, como fitas luminosas apanhadas aqui e além pela mão invisível da noite. A música do jardim tocava uma fanfarra, os sons dos clarins vibravam trêmulos e límpidos, espalhando pelo espaço uma grande sonoridade!

Ernestina aproximou-se de braço dado com o Nunes e chamou a filha com voz irritada e áspera. Sara baixou humildemente o rosto, iluminado por uma comoção feliz. Seguiram ambas para a toilette à procura das capas.