A Viúva Simões/XI

A Viúva Simões por Júlia Lopes de Almeida
Capítulo XI

Sara encontrou a casa toda renovada. Ernestina comprara mobílias caras e reposteiros de luxo. Tinha aproveitado a ausência da filha para varrer pela porta fora todas as recordações do passado.

O João enchera tudo de flores, desde a porta da rua até à do quintal, muito contente com a volta da menina, que era a alegria da casa. A Benedita preparou surpresas para o jantar, uns pastéis e uns pudins especiais, feitos com prazer e capricho, muito ornamentados, A Simplícia pregou na carapinha um cravo vermelho e amarrou fitinhas no pescoço, dizendo fazer isso para ser agradável a Nhá Sara.

A Ana pôs no guarda-louça, sorrateiramente, um queijo fabricado pelo pai em Petrópolis e só o Augusto continuou indiferente no serviço.

Sara tinha voltado de Friburgo com o dr. Tavares e a Gina. Não se cansava de beijar a mãe, falando-lhe rente à cara.

- Sabe? Fui pedida em casamento!

- Sim?!

- Sim, mas eu respondi que mamãe já me tinha prometido a um príncipe estrangeiro.

- Quem foi?

- Um velhote muito rico, mas muito feio, chamado Menezes. Depois desse, quem também não desgostou de mim foi o Eugênio Ribas. Esse não chegou a falar em casamento... mas deu a entender... e confessou ao dr. Tavares que me adorava!

- O Eugênio Ribas não é um moço louro, amigo do Nunes?

- Esse mesmo! Ia aos bailes em Friburgo, de casaca e luvas brancas. Por aqui há alguma novidade?

- D. Candinha esteve cá, ontem; veio convidar-nos para um baile masqué.

- Que bom!

Começaram logo as combinações de toilettes e de idas à cidade para compras.

Nessa tarde, quando Luciano abriu o portão do jardim, deparou com Sara que ia muito risonha ao seu encontro. Estranhou-a. A moça parecialhe agora mais alta e mais elegante. Usava um vestido branco transparente, que mostrava numa sombra tênue a sua carnação de loura, alva e rosada. Aquele traje dava-lhe um ar encantador de alegria e de ingenuidade.

Até então vira-a sempre de escuro, vacilando entre o cinzento e o preto tristonho do luto; os tons claros iluminavam-lhe a fisionomia numa doce irradiação de poesia e de graça.

- Entre depressa! exclamou ela, senhor ingrato, que não me mandava nem sequer saudades por intermédio de mamãe! E fique desde já sabendo que, para seu castigo, tem de desenhar hoje mesmo uma toilette de fantasia para esta sua amiguinha!

E puxou-o, rindo, para dentro, segurando-lhe a mão.

Luciano deixava-se ir, encantado com aquele acolhimento. Estava num dos seus dias de bom humor, e o passeio a S. Paulo e a ausência de Ernestina, cujo amor o enervava, tinham-lhe temperado os pobres nervos doentios. Sentia-se saudável e tranqüilo naquela tarde.

Passaram todo o tempo da visita combinando fantasias para o baile de D. Candinha.

À despedida, Sara perguntou.

- É verdade, mamãe já foi ver a sua coleção de quadros?

- Coleção de quadros? Quem a ouvisse diria que possuo uma galeria!

- Está arrependido do convite que nos fez, ou gracejava quando nos relatou objetos artísticos e mais trapalhadas adquiridas na Europa?

- Não menti. O que desde já lhes digo é que a minha coleção é pobre; mas façam uma coisa: vão lá amanhã; por exemplo.

- Está dito! Valeu, mamãe?

Ernestina consentiu. Nessa noite ela foi dormir contentíssima: pareciam feitas as pazes entre Sara e Luciano Dias.

No dia seguinte, às 2 horas, desceram de Santa Tereza. A tarde estava quente, de um azul carregado.

A casa de Luciano Dias ficava perto, na rua do Riachuelo; era de uma aparência simples: fachada sem estilo, de um tom cinzento, com frisos dourados nas três janelas de peitoril. Entraram; dentro, uma pequena escada de mármore conduzia à saleta de onde Luciano desceu a recebê-las. Ernestina estava comovida, Sara curiosa, Momentos depois, conversavam no pequenino salão de Luciano, com ele afrancesadamente chamava à sua boa sala.

Nas paredes de verde-escuro, encaixilhadas em madeiras. finas, destacava-se uma multidão de objetos e pequenas telas: medalhões históricos, baixos relevo, adagas e punhais, recordações de touriste, insignificantes para os indiferentes; aqui um punho da mais rara merletti veneziana, ali um mosaico de Roma, um ramo da flor dos Alpes, a penugenta edelweiss, uma faca de Toledo incrustada de ouro, ou um leque de Madri.

Sara ia observando tudo com muxoxos de desilusão, até alegrar-se com a vista de uma formosa cabeça de mulher, que surgia, risonha e fresca, do fundo cor de aurora da tela.

Ernestina sentara-se num divã, procurando prender toda a atenção de Luciano; mas este respondia-lhe apenas, lisonjeado com a observação que Sara prestava a tudo, comentando os objetos, indo e vindo de um para outro lado, fazendo-lhe perguntas, apontando como feias, antiguidades que ele achava lindas, extasiando-se às vezes em frente de outras coisas que considerava medíocres! Tudo que tivesse um ar de alegria ou de saúde, era o que vibrava na moça maior entusiasmo. Um grupo de crianças, uma aldeã robusta, um pescador banhado de sol, um ramo de papoulas sangüíneas ou de frutas bem desenhadas e frescas, rebentavam-lhe dos lábios vermelhos frases de espontânea admiração.

Os assuntos diabólicos, nervosos, os quadros torturados em que, em fundos turvos, se estorcessem corpos aflitos ou relampejassem olhares de agonia, de dúvida, ou de ódio, tudo em que a dor domadora, atrocíssima e amarga, derramasse o seu travo ou fincasse o seu dente impiedoso; tudo em que a arte reproduzisse a lágrima e o sofrimento humano, arrepiava as carnes sadias de Sara, para quem a vida tinha só por dever ser risonha, ser boa, ser fértil!

Os seus olhos de menina inexperiente não compreendiam os requintes artísticos de um ou de outro autor, mas a sua alma entusiástica abria-se com alegria às impressões da arte.

Ernestina passeou o olhar através do lorgnon por tudo que a rodeava, sem demonstrar claramente as suas predileções, temendo cair em erros de observação. A filha, mal ou bem, ia apontando defeitos e belezas, manifestando sem rebuço a sua maneira de ver e de sentir. A cabeça do garoto elogiada por Luciano, fez com que a moça batesse palmas de contentamento. O busto talhado em mármore tinha energia, graça e independência, qualidades que se juntavam no caráter de Sara. A moça não pôde conter-se, e, com os olhos úmidos, beijou nas duas faces a cara rechonchuda do pequeno garoto de Paris.

Luciano estremeceu como se alguma coisa nova se tivesse revelado nele. Ernestina murmurou, repreensivamente:

- Sara! Que criancice!

- Ah! Mamãe! Se este diabinho é tão bonito! Repare para os olhos!... que malícia!... e para a cabeça!... que audácia... Não parece mesmo que esta boca está gritando: Viva a França! e que neste peito bate orgulhosamente um coração!

Estiveram algum tempo de pé em frente ao busto, depois Luciano conduziu-as para outra salinha interior, onde mandara preparar uma fineza de lunch.

Sobre o linho escarlate e preto da toalha, brilhavam pratos finos de bombons, frutas e guloseimas variadas. A viúva tirou vagarosamente as luvas, sorrindo com sossego para Luciano, que lhe dava o lugar de honra, à cabeceira. Sara, sem esperar por convite, sentou-se, dizendo alto:

- Ui! Tanta coisa!! Para mim bastam as uvas... o que peço é que não se admire se eu comer todas!

Luciano chegou para ela a cestinha das uvas e sentou-se entre as duas senhoras.

Ernestina rescendia a Scherry-blosson e as suas mãos bem tratadas moviam-se vagarosamente acima dos pratos ou do linho escuro da toalha. Por toda ela descia um ar de tranqüilidade e de ventura, fixando em Luciano um olhar calmo, como o de esposa feliz, em Sara um olhar de mãe confiante.

A moça, numa gourmandise notável, ia dando cabo das uvas brancas, falando sempre, enchendo a casa com a sua voz fresca e com os seus risos gorjeados.

Nessa tarde Luciano não saiu; sentou-se preguiçosamente a ler no seu escritório; mas a própria leitura fatigava-o e abandonava de vez em quando o livro, relembrando a graça de Sara, a onda de alegria que ela espalhara por toda a sua casa; os seus ditos, a singular mudança dos seus traços, do seu caráter e até da sua roupa! Nas duas horas em que ela estivera ali, quantas coisas notara!

Tinha-lhe feito observações justas e lembrado coisas em que ele agora nem repararia... aquela colcha de veludo preto suspensa na biblioteca fazia lembrar um pano de enterro... era uma fantasia de mau gosto. O piano deveria estar longe da janela... o busto do garoto mais voltado para a luz... a sala dos quartos não deveria ter cortinas... e faltava um tapete de fundo vermelho no escritório... tudo isso ela dissera à vol-d'oiseau , no primeiro relance; e ele percebia agora que ela tinha razão. Era como se de repente o vácuo de sua casa solitária se tivesse tornado em um corpo de mulher moça e contente, e lhe reclamasse tudo que lhe faltava... E parecia-lhe então que Sara fora momentaneamente a alma daquele ninho que ele enfeitava, amava, e que encontrava sempre mudo, frio, morto, incapaz de corresponder ao seu carinho!

E Ernestina? Parecera-lhe nesse dia um pouco avelhentada, medrosa de expressão. E teve pena daquela alma de criança, fechada em um corpo já em decadência... entretanto ela era mais formosa do que a filha, e não era a filha certamente que ele amava!

Desde desse dia Luciano não deixou de ir nem uma só tarde a Santa Tereza. E era sempre Sara quem o vinha receber, enquanto Ernestina o esperava, risonha e calma, na sua varanda entrelaçada de flores.