A Viúva Simões/XVII

A Viúva Simões por Júlia Lopes de Almeida
Capítulo XVII

As criadas tinham despertado nos gritos de Ernestina, mas quando saíram do quarto já não a encontraram. Foram todas rodear o leito de Sara, espavoridas sem atinar com o que fizessem.

A cozinheira tomou por fim o expediente de mandar o jardineiro chamar o padre Anselmo. A moça estava nas últimas, afirmava ela. Saiu para isso e encontrou o hortelão já na porta, acabando de enfiar já as mangas da jaqueta.

- Seu João? Nhá Sara tá morrendo... vá chamá o padre...

- A patroa já me disse...

A Benedita voltou chorosa para o lado da doente. O seu coração sentia uma mágoa imensa por ver assim a sua sinhá moça, que tantas vezes trouxera ao colo, quando pequenina!

O hortelão caminhava apressado sob a chuva miúda, que vinha caindo como uma nuvem ligeira, na montanha.

- Se a menina morre, dizia ele consigo mesmo, eu saio da casa!...

Sara era adora pelos servos; não tendo de ordenar coisa alguma, ela não se mostrava severa e intervinha muitas vezes nas zangas da mãe, procurando desculpá-los.

Às vezes mesmo a moça ia ajudá-lo, de manhã cedo, na cultura do jardim. Era trafega, alegre e robusta, gostava daqueles exercícios ao sol; tinha os seus instrumentos e os seus canteiros, onde não consentia que outras pessoas bulissem.

E depois que risadas, que alegres cantorias! Era extraordinária! Nem ele nunca vira moça rica e de cidade ter tanto humor! E pensava:

"Ai! as belas manhãs!..., se elas não voltam mais... pobre menina!"

Depois de ter batido à porta do medico, o jardineiro apressou-se a ir chamar o sacerdote.

O padre Anselmo morava mais longe, numa casa rodeada de cães e de roseiras bravas... Mas nem os espinhos das flores nem o latido dos cães dissuadiam os crentes de o ir chamar a desoras. Sabiam todos que o padre Anselmo não se negava a ninguém.

Rico ou pobre, que lhe importava! Era uma a salvar, e ele ia sempre! A chuva tinha apertado. Os dois homens caminhavam depressa, os seus vultos manchavam ainda de mais negro a escuridão da noite, que nenhuma bulha de vida perturbava. Somente ao longe a água do aqueduto rumoreja uns soluços surdos, que o jardineiro maldizia, trazendo-lhe à mente o estertor de um moribundo...

O seu pavor por vezes era tamanho que ele, o trabalhador da terra, forte e rude, tinha ímpetos de se agarrar à batina e ao manto negro e flutuante do padre!

- Está aí o carro, disse o criado a Luciano; e quis logo narrar a grande dificuldade que tivera para obter uma caleça, àquela hora; mas o amo sem lhe dar atenção ordenou-lhe que o ajudasse a transportar a doente.

Ernestina ia desacordada, ele sentia-a nos braços, como morta.

O cocheiro, receando talvez ser cúmplice involuntário num crime, veio, antes de subir para a boléia, examinar de perto a moça, e foi depois para o seu posto resmungando baixo. Seguiram. A chuva diminuiu pouco a pouco; poder-se-iam por fim contar as gotas que soavam como pancadas dadas compassadamente com as pontas dos dedos na coberta do carro.

Ernestina continuava insensível a tudo; ia com a cabeça deitada no peito de Luciano, os pés pousados no banco fronteiro. Ele amparava-a com desvelo, levando através da noite imaculada e só, a sua desejada amante. De vez em quando ao passarem por algum lampião de gás, a luz vinha amarelada e frouxa, iluminar a cabeça desfalecida da viúva.

Luciano contemplava atônito; parecia-lhe incrível que se envelhecesse tão depressa! Havia menos de um mês que não via Ernestina; deixara-a fresca, louçã, tentadora, vinha encontrá-la amolecida, pálida, cheia de cabelos brancos. Uma grande piedade substituía agora o seu amor tempestuoso e antigo. Um filho não teria carinho mais doce nem mais respeitoso para sua mãe!

Quando chegaram ao portão do jardim, Ernestina voltara a si. O cocheiro desceu da boléia e abriu a portinhola, sacudindo barulhentamente a água que lhe escorria do capote de borracha. A noite estava ainda trevosa; dentro, através das grades, viam-se as janelas do chalet, cujos vidros, molhados, coavam uma luz pálida e triste. Luciano ajudou Ernestina a apear-se.

O carro voltou, enterrando as rodas na lama, com uma bulha surda. A viúva Simões mal se podia arrastar, e a travessia do jardim foi vagarosa; em torno deles as flores, abafadas pela chuva, tinham um aroma discreto e vago. Uma ou outra gota de chuva, retida nas folhas e despenhada agora das árvores, caía como uma lágrima fria sobre a cabeça nua de Ernestina. Ela lá não podia mover as pernas; um grande peso paralisava-lhe as forças; a voz sumiu-se-lhe também e de tal jeito que só pôde acenar com a mão a Luciano, que fosse depressa e que a deixasse ali.

Luciano tremia, estava perplexo, apreensivo; as suas suposições haviam-se dissipado logo que ao chegar ao portão da chácara não vira Sara, como esperava, correr para a mãe doente.

O silêncio daquela casa iluminada encheu-o de pavor e sentia, instintivamente, repulsão por aquela mulher que ia conduzindo com tanta solicitude!

Sentia ainda ferir-lhe os ouvidos o seu grito terrível:

- Luciano! Luciano! Matei minha filha! Salve minha filha!

Nesse instante, manchando o corredor coma sua ampla batina negra, ele viu o padre Anselmo dirigir-se para o quarto de Sara. Ao mesmo tempo rompeu ali de dentro um soluço que ondulou dolorosamente pelo ar silencioso da noite, fincando-se-lhe no coração como uma dor atrocíssima.

- Então é verdade!? gritou Luciano sacudindo Ernestina.

- É... disse ela por entre os dentes cerrados, com m olhar de susto.

Num grande desvairamento, Luciano galgou de um pulo os poucos degraus do terraço, deixando a viúva fora sozinha. Outro soluço mais brando choroso, voou pela noite negra.

Ernestina deu alguns passos. cambaleante, até que sem forças caiu de joelhos, erguendo as mãos unidas para o céu impiedoso.

Ela também tinha reconhecido o padre; aquela batina preta passando rápida, de uma porta a outra porta, como que lhe dissera alto e de longe: acabou-se!

Dentro, havia um rumor abalado de vozes, e um crepitar de luzes, talvez das velas de cera alumiadas junto ao cadáver... E cá fora nem uma luz; tudo preto; água correndo pelos declives da montanha, nada mais.

Ernestina já não rezava, nem o seu espírito sabia formular, nem os seus lábios articular palavras. Encolhida, de joelhos na areia molhada; ela afundava o olhar pelo corredor, agarrando-se as grades do terraço, e empapando a cabeça nas trepadeiras alagadas...

Subitamente, uma voz desconhecida disse alto, lá de dentro:

- Muito depressa! - e ela viu o jardineiro vir correndo pelo corredor e sair.

- Que seria?! Teve desejo de o segurar em ambas as mãos, de lhe perguntar se a sua filha adorada era viva ou morta... mas não pôde mover-se, e ele, como a não visse... passou.

Ernestina então deixou-se cair sentada, com as mãos espalmadas no chão e o pescoço dobrado sobre a espinha. A chuva recomeçava em pingos grossos que lhe caíam nos olhos abertos, no queixo, ora um... ora outro... ora dois a um tempo.

Queria ir ver a filha, beijá-la, suplicar-lhe que vivesse, que vivesse, que vivesse! Mas eram inúteis os seus tremendos esforços para levantar-se, subir os degraus e ir ao quarto de Sara.

Sentia-se presa à terra; já não era uma mulher, mas como que uma planta, nascida para o sofrimento e por isso mesmo valentemente enraizada no chão.

Quando Luciano entrou no quarto de Sara viu o padre Anselmo de pé junto do leito, com uma das mãos estendida sobre a cabeça da moça numa atitude de benção.

A fronte do velho erguida, os olhos úmidos e levantados, os lábios movendo-se numa oração compenetrada, baixa e fervorosa, tinham uma doçura solene em que a piedade humana se misturava com a austeridade religiosa. O homem nele sofria uma revolta contra a natureza, por que morrer uma mulher tão jovem; o padre porém congratulava-se com o céu, que ia receber no seu seio límpido uma virgem pura!

Luciano ficou preso àquele leito, numa mudez gelada, olhos fixos em Sara, por quem sentia agora recrudescer o seu amor. Amava-a sim, com intensidade! As lágrimas rebentavam-lhe dos olhos celeremente. A Benedita soluçava alto, de vez em quando, e aqueles soluços revolviam-lhe n'alma toda a sua ternura. Atrás dele, o médico escrevia; mas no seu desespero Luciano nem reparava nele; todo o seu sentido estava nessa cama estreita, branca, revolta, onde, como uma estátua, pesada e rígida, Sara parecia dormir! Morta não estava! Ele via-lhe o peito abaixar-se e erguer-se numa respiração custosa, como se aquele resto de vida lhe pesasse sobre o coração.

A doente tinha as feições alteradas, o rosto lívido, manchado de escuro, os lábios entumecidos e as pálpebras roxas.

Luciano quis beijá-la na testa, o padre Anselmo desviou-o com austeridade.

A pena do médico rangia no papel, e as criadas, agrupadas aos pés da cama, esperavam as ordens, olhando com tristeza para a moça. Benedita chorava sempre alto, e o padre compadecido, disse-lhe com voz doce e triste:

- Espere! Ela talvez não morra... a misericórdia de Deus é infinita!

O médico postou-se novamente à cabeceira da doente.

Luciano, vendo-o, contou-lhe o que ouvira de Ernestina, baixo e precipitadamente. Que seria aquilo, um envenenamento?!

- Não!... houve um engano de remédio, nada mais. Percebi, logo que entrei, do que se tratava, vendo à cabeceira da doente o frasco que eu já tinha posto de parte, por terem errado a fórmula... mas não era caso de matar... mormente em dose pequena... Não foi isso que determinou o acesso!

- Mas há esperança?

- Nenhuma...

Luciano estremeceu e um suor frio inundou-lhe a testa.

- Isto é... acudiu o médico, quem sabe? não será a primeira que eu veja ressuscitar... Estas doenças de cabeça são terríveis.

- Ah... ela foi atacada...

- De uma febre cerebral.

- Meu Deus!...

- Às vezes, é melhor morrer, concluiu o medo abaixando-se para examinar o rosto de Sara.

O médico empregava a atividade de toda a gente da casa; as criadas iam e vinham, aquecendo água, transportando roupas, luzes, receitas, acudindo sem cansaço a todos os chamados, com boa vontade e ligeireza.

Entretanto o padre Anselmo perguntava por Ernestina. Até aí tanto ele como o médico tinham-na julgado recolhida, propositalmente afastada da filha, e poupavam-lhe a agonia de a ver morrer. Agora porém o caso era outro, desde que Luciano narrara a ida da viúva a sua casa.

- Mas então onde está ela? perguntava o padre.

Ninguém sabia responder, percorreram a casa inutilmente.

- Veio comigo, afirmava Luciano; entramos juntos!... Mas Luciano não se arredava do leito de Sara, não se lembrava de mais nada, repetia maquinalmente aquilo - veio comigo, entramos juntos! - sem interesse, sem preocupação, entregue à sua surpresa, com os olhos fitos em Sara, esperando a morte!

O padre estremecia; vinham-lhe à idéia os despenhadeiros do morro, onde Ernestina fosse talvez pedir o esquecimento da dor que a pungia.

Chamou então o jardineiro e saíram ambos.

As sombras da noite iam-se dissipando. A dois passos da porta o padre distinguiu alguém deitado sobre a grama; aproximou-se abaixando-se, apalpou Ernestina.

- Ajude-me a levá-la para dentro, disse ele ao jardineiro.

E ergueram a viúva que estava alagada e fria.

- Pobre mãe!... repetia o bom velho, comovido. Dentro recomendou às criadas que lhe mudassem roupa e friccionassem o corpo. Feito isso, ele entrou no quarto e sentou-se ao pé do leito.

Ernestina abriu os olhos e, de repente, espavorida com a lembrança da filha perguntou:

- Morreu?

- Não morrerá, tenha esperança!... respondeu-lhe o padre.

No entorpecimento da sua terrível dor, Ernestina não pareceu alegrar-se; deixou-se cair sobre os travesseiros e adormeceu profundamente.