Abrir menu principal
A tacha maldita por Manuel de Oliveira Paiva
Quarto


I


E Dona Marciana foi depois seguindo
Coas moças ledas, gentis, belas sorrindo.
O tordilho forceja e move o perro carro
Que rola e vai deslizando sobre o barro.
Quando a mãe disse ao filho: Meu Chiquinho a Deus!
Uma lágrima correu dos olhos seus;
E já pedaço havia o bonde, na carreira,
Dobrara a rua do herói Pedro Pereira.


II


        Muito perto da Estação
        Da Companhia dos Bondes
Morava um rapagão de nome João,
— Forte, como do oiti as verdes frondes;
Bravo, como de raça os puros galos:
Ligeiro, como os bélicos cavalos —
E a quem da sorte os rígidos abalos
Deixavam rente ao chão, simples anônimo
Conquanto merecesse ser homônimo
Em bravura, em talento, em honradez,
Daqueles que das turbas são os reis.
        Outro fosse o vaticínio
        Que seria um Patrocínio.

        Filho de raça cruzada
        De branco, negro e tupi,
        Tinha a pele bronzeada;
        Não era filho daqui.
Nascera no sertão do escravagismo
Donde surgiu o novo imperialismo,

Que, o único d'América, rege um povo.
— Como se uma rolinha desse um ovo
Que desse à terna mãe um rebentão
E ao mesmo tempo um outro que gerasse,
P'ra devorar aos seus, um gavião!
Porque, oh! Tu, consentes que se passe,
Deus! Cousas desta ordem sobre a terra?
Até quando consentes tu a guerra
Mais desigual que o homem tem travado?
— Basta, oh tolo, é melhor fiques calado!
Ruge no peito meu cólera satânica!
Do Brasil, desta nova Ilha Britânica,
Havemos de livrar do lobo as reses.
Procederemos nós como os Ingleses
Livrando o território do anglicano
Dos lobos cruelmente. O Americano,
Se traz na destra a cruz da redenção,
Também sabe fazer permutação
Da cruz do Salvador pelo punhal,
Quando matar precisa um animal...
 
Desculpa, meu Leitor, se tanto falo.
— Mas João era filho de S. Paulo!!


III


        Pois era este mesmo João
        Que, como quem faz plantão
        Na porta da Companhia,
        Conversava co'a Maria,
        Filha de gente africana,
Uma serva de Dona Marciana;
Co'um joelho cruzado sobre o outro,
Em pé, e buliçoso como um potro
Esperava chegasse a velha Dona,
Para andar, algum tanto ronceirona.
Marciana o chamara. Vinha agora
Saher o que queria a tal Senhora.


IV


Combina envernizar toda a mobília,
Mas vindo mesmo em casa da família.
Econômico assim era por certo,
Isto é tão claro como um céu aberto.


V


        Derriba o home' a floresta,
        Espera que seque o mato;
        Depois risca o fulminato
        E o fogo faz sua festa.
        Trabalha, nem dorme a sesta,
        Nem mesmo calça o sapato;
        Destoca o chão; não barato
        Viver custa a gente esta.
        Pois se da terra nascer
        O fruto é tão custoso,
        Como é fácil o morrer;
        Ficar um peito amoroso
        É tão veloz, que dizer
        Não posso nem mesmo ouso.