Angélica e Firmino/II

Sala com trastes ricos dando ingresso a um salão nobre, que deixa ver pela abertura das janelas o morro do Castelo.

Angélica sentada à direita, a bordar uns suspensórios, e Gustavo do lado oposto, defronte de um espelho, a escovar suas botas.

Uma mucamba sentada no chão, a coser.

Cena IEditar

ANGÉLICA e GUSTAVO

ANGÉLICA – Uma silva de amores-perfeitos, rematada por uma saudade em cada ponta, fará um lindo efeito. O outro par, hei de bordá-lo com rosas; o aroma desta flor exprime tudo o que há de mais suave e de mais grato em nossa alma. Estes explicam-se pelo seu próprio nome. (Suspira) Parece-me um sonho o acontecimento de ontem à noite!... Todos... todos inocentes, e eu só criminosa, e criminosa para comigo mesma! O coração das mulheres ainda não foi aprofundado pelos homens; esta mistura de fraqueza e de força, esta tendência que nós temos todas a felicitar os entes que nos rodeiam... este heroísmo que se assenta entre a brandura e a constância... que...

GUSTAVO (Defronte do espelho) – Digam lá o que quiserem os senhores jarretas; um homem de barbas naturais é sempre mais nobre e mais grave. Que mania, querer meu pai que eu ande fora da moda, como se eu fosse algum traste de belchior! Hei de mandar fazer umas barbas postiças, para ver como me assentam. Este diabo de primo que, por mais que procure, não acho um pé para ficar mal com ele, é a causa de tudo isto. Foi à França para entrar em casa de livreiros e cortar defuntos, e voltou para nos entulhar a casa de alfarrábios... É o maior protetor da traça e do bicho que eu conheço. Tais sujeitos morriam de fome no meu quarto...

ANGÉLICA – No que se ocupa aquela alma de manhã até a noite! Se ao menos ele conciliasse com uma hora de estudo todas as suas parvoíces...

GUSTAVO – Estes estrangeiros têm lembranças admiráveis! Pintarem um gato brigando com uma bota, ou um homem a fazer a barba diante de um botim! Eu acho nisto uma graça, um não-sei quê... Enfim, o doutor Sandelico é que diz bem: em tudo há poesia nos estrangeiros. A transparência no sabão, a ponta virada das es­covinhas, as pinturas das pomadas, o arredondado das casacas modernas, o nome das cores... ventre de bicha, cor de meteoro, azul Carolina, verde Zoé e amarelo tebetino. O pai dele, ao menos, deixa-lhe criar, cortar, mudar as barbas e os cabelos como quer. Aqui nesta casa nem um homem é senhor de suas barbas.

ANGÉLICA (Para a mucamba) – Vai buscar os diários, que meu tio não tarda a chegar. ([Para Gustavo]) O vosso amigo Sandelico parece-me que está isento de produzir uma Eneida ou uma Ilíada. Creio mesmo que não inventará o telescópio.

GUSTAVO – É porque não quer, é porque não precisa trabalhar, e faz ele muito bem. Isso é bom para quem é pobre. Angélica, vai lá dentro do meu quarto buscar-me um pouco de kirsch, que não posso acabar bem estas botas. Está em cima de minha psichê, ao pé daqueles dois potes de óleo de urso dos Pirineus.

ANGÉLICA – Será isso alguma nova composição para lustrar?

GUSTAVO – Nada! É um licor novo, chegado agora da Alemanha, que, tomado em jejum, depois de fumado um charuto de Havana, deixa um gostinho mui particular na boca. É coisa delirante.

ANGÉLICA – Ora, mano, para que corromper a saúde com bebi­das espirituosas e cigarrar tanto? A vossa roupa, todo o vosso quarto, parecem de sarro de fumo. Parece que habitais dentro de um cachimbo de cozinheira. Toda esta mocidade que vos cerca toma hoje uns ares que certamente não prometem um futuro lisonjeiro para o país.

GUSTAVO – Estás muito retórica, estás uma doutora... Serão isso lições do meu belo doutor, que se devia chamar frei Firmino. É moléstia que pega com facilidade, esta de sermões de lágrimas. Podiam ambos ir para a catequese dos botocudos. Pregas num deserto, minha amiga; já estou petrificado para ti e para os mais. Vai buscar o kirsch... e tomaras tu um fumista: havias de te lamber como macaco por banana.

ANGÉLICA – Não vou. Se a sorte me der um esposo fumista, fica certo que ele possui alguma qualidade nobre e que é um homem superior a ti, cuja glória se funda no ócio e no charuto.

GUSTAVO (Com raiva) – Tomara já ver-me livre desta casa, onde ninguém me obedece, sendo eu o filho mais velho.. Depois me vin­garei.

ANGÉLICA – O que estás dizendo, mano? Perdoa-me se te ofendi.

GUSTAVO (Com raiva) – O dia em que eu deixar esta terra não me verá uma lágrima. Tudo me persegue. Até não tenho quem sai­ba lustrar umas botas!! Assim como mando vir o meu fato de Inglaterra, também hei de mandar vir um criado inglês para me servir. Tenho duas irmãs que não sabem dobrar uma gravata... E querem casar! Com quem? Só se for com algum carne-seca. Se algum dia fizer essa asneira, não quero mulher retórica, que saiba línguas estrangeiras, leia livros e garganteie como um castrado da capela.

ANGÉLICA – Está bom, meu irmão... Para que tanta algazarra?

GUSTAVO – Vocês ainda me hão de perder. (Atira com as botas e vai-se. Angélica as vai apanhar).

Cena IIEditar

ANGÉLICA, DONA CLARA, FIRMINO e ADOLFO

DONA CLARA – Não precisa muito para se saber se Gustavo está em casa. É como o mar, nunca está calado.

ANGÉLICA – A menor observação o põe como um rojão: sobe às estrelas e estoura uma descarga de destampatórios.

DONA CLARA – Parece que há instintos no homem que o fazem pender para as más inclinações, e que a educação se esforça em vão para modificar. Este rapaz tem-me feito criar cabelos brancos. Teu tio já não pode com ele. Mandou-o para a Índia, e nada obteve.

FIRMINO – Decerto que nada. A culpa não é dele, nem sua, minha tia. A culpa existe na organização social que até hoje tem olha­do levemente para a educação da mocidade. Façam-se leis para um povo, e não se espere um povo para essas leis. Se alguns pais quisessem lançar mão de um meio enérgico para corrigir seus filhos, não faltariam filantropos de encomenda que tomassem a defesa da oprimida mocidade e levantassem uma barreira de palavrões campanudos para protegerem essa diminuta parcela que rodeia Gustavo e que se intitula hoje a esperança da pátria, como se os destinos do futuro fossem dirigidos pelos alfaiates e cabeleireiros. Talvez ele queira seguir a carreira das armas, e que a disciplina militar o corrija de todo. É uma carreira tão nobre e tão prezada em todos os tempos!

DONA CLARA – Qual, meu sobrinho! O seu amor por pistolas, espadas e bacamartes é uma mania de moda. Gustavo seria ruim militar; não tem coragem e padece muito dos nervos. A luta dele com teu tio para trazer bigodes é porque é moda.

ADOLFO – Esta terra está muito mudada. Estes quatro anos têm sido de grande progresso; creio que arribou uma colônia de oran­gotangos, porque nunca vi tanto bicho de casaca como hoje. Cada pedaço de barbadinho que encontrei, que metia medo. Outros com cabeleiras de madalenas, outros de casacas arredondadas como cauda de ponche; umas bengalas de castão de vice-rei e um charuto maior que um tubo de barca a vapor. Esta moda é de cá da terra?

DONA CLARA – Nada, meu irmão, esta praga veio-nos não sei donde, e Gustavo vive muito apaixonado por lhe não consentirmos cauda no queixo, gravata encarnada e gadelha de Madalena.

FIRMINO – A mocidade da Europa anda quase toda assim, principalmente nas universidades da Alemanha e França. As barbas representam a seita romântica e marcam a separação do mundo clássico. São dois exércitos que representam dois séculos: um, acampado nas ruínas da antiga Grécia e adorando os seus deuses, o outro perlustrando os campos da natureza. Ainda tenho saudades da luta. Grandes revelações, grandes idéias, dois partidos combatendo nobremente e produzindo monumentos de glória. Quem dera que as barbas aqui representassem o mesmo papel! Amanhã deixava crescer as minhas.

DONA CLARA – Se assim fosse, declarava-me perfume das barbas idealistas e tesoura das materiais.

ANGÉLICA – Eu acho um não-sei-que de grave, uma nobreza natural, acho uma perfeita harmonia na divisão que a natureza fez do homem e da mulher. Há um caráter nobre e que faz reviver esses tempos heróicos do cavalheirismo, em que os homens preferiam a morte à fuga, a sepultura ao desdouro... Mas esses tempos só se acham hoje nas velhas crônicas, nos pincéis do Ariosto, do Tasso e de Walter Scott.

ADOLFO – Bravo! como se esquenta a menina, como se exalta, como ficou com os olhos que pareciam dois sóis! Ora vamos a entrar nos tempos de Palmeirim e vermos Tancredo, Orlando, Roldão e Oliveiros, de loja ou a plantar café... Aonde está o Jornal do Commercio?

ANGÉLICA – Aqui estão todos. (Oferece-lhe um grande maço de jornais).

ADOLFO – Guarde para lá tudo isso, que não quero ficar doido, e nem andar suspeitoso com os meus velhos amigos, que sempre conheci por homens honrados.

FIRMINO – Pois a mim essa leitura me rouba bastante tempo. Todos eles têm mais ou menos razão, e alguns escrevem, além de [com] decência, com muita arte e sagacidade. Artigos tenho lido que invejariam os mais acreditados jornais da Europa.

ADOLFO – Pois eu, meu sobrinho, vivo mais tranqüilo depois que deixei de os ler, porque nunca soube quem ateava o incêndio e quem tocava a bomba para o apagar. Que há briga por amor da escada, isso é certo, porque vejo todos quererem subir. Ora vamos a ler o Palmeirim do café e do açúcar.

FIRMINO – E eu vou preparar-me para uma operação e tomar algumas notas.

DONA CLARA – Fique lendo em paz o seu Palmeirim. Vamos.

Cena IIIEditar

ADOLFO

[ADOLFO] – Ora vamos a isto. Tenho achado os homens muito corteses aqui dentro; figurões dando já o braço a certa gente... e gente que eu nunca vi nem conheci cumprimentar-me com uma urbanidade e submissão extraordinárias. Se são pretendentes, estão bem aviados. (Senta-se) Câmbios... vai mal. Parte oficial... Ministério... Interior, Rio de Janeiro... Câmara dos senhores deputados... Meu Deus, que longos discursos, que torrente de declamações! Seria melhor que este senhor que aqui faz a sua biografia a mandasse publicar em algum jornal literário. Este nega pão e água ao governo e ainda não nos fez a descoberta de se administrar um país sem governo e sem meios. Cá estão dois oradores de mão-cheia, concisos, nervosos e este até eloqüente. São dos meus, preferem os interesses de seis milhões de homens ao interesse individual. Isto é para saborear depois da leitura geral. Meu Deus quantas chapas! Tudo gente nova, exceto este marreco que há três meses vem sempre em todas. Cheira-me isto a especulação de finório. Reina agora uma urbanidade que encanta deveras. As classes estão confundi­das: vejo figurões feito plebeus, plebeus feito figurões, influências com nulidades, nulidades com influência, turbulentos com pacatos e um nevoeiro de morcegos furta-cores esvoaçando pelas ruas, contradançando às cortesias pelas tendas e tabernas. Sociedades instaladas e até ateus de patente com uma religião e carolismo iguais aos de um trapista. Vamos a ler. Praça... o mercado está muito frouxo... (Batem palmas) Quem é que está aí?

[MIRABEAU] (Dentro) – Um criado de Vossa Senhoria. Dá licença, meu senhor?

ADOLFO – Pode entrar, esta casa é sua.

Cena IVEditar

ADOLFO e MIRABEAU

MIRABEAU – Vossa Senhoria é o ilustríssimo senhor Adolfo José da Silva? Vossa Senhoria há de perdoar-me este incômodo, mas a pátria requer um grande sacrifício... O país está à borda de um precipício, e Vossa Senhoria o pode salvar com o seu acrisolado patrio­tismo, influindo para que se coloquem no timão do Estado homens cujos talentos e virtudes são conhecidos e cuja pureza de senti­mentos auguram o mais brilhante futuro para esta pátria, esta nossa pátria que eu adoro mais que à própria vida.

ADOLFO (À parte) – Apre com o recado estudado. E como me sabe o nome?! Tem faro!

MIRABEAU – Salve, senhor Adolfo, salve o nosso país...

ADOLFO – Meu caro senhor, agradeço-lhe muito a opinião que faz de mim, mas eu nada posso fazer mais do que faço. Trabalho de manhã até a noite, não devo nada a ninguém, não brigo com ninguém e só aspiro a aumentar os meus bens por meio de um trabalho honesto. (À parte) Como diabo adivinharia ele que cheguei esta noite?! E eu que o não conheço...

MIRABEAU – Assim deve obrar o cidadão honesto, mas está chegada a hora de Vossa Senhoria, com o seu voto, vir engrossar a opinião do país, que é toda do meu lado, e pretende fazer uma oposição imparcial e justa... Aqui tem esta lista... Digne-se a ler esses nomes, veja quantas ilustrações, quanto futuro encerram estes heróis... estes firmes baluartes... Escreva, senhor Adolfo, empenhe-se com aquela gente de fora, e vamos salvar o país. Aqui estão estas cartas de um seu velho amigo e de seu mano.

ADOLFO – Pois Vossa Senhoria é conhecido de meu irmão?

MIRABEAU – Não, senhor, mas uma pessoa do meu lado, que se dá com outra pessoa mui digna e de grande influência, pediu a outra pessoa de sua amizade para que esta me obtivesse por interposta pessoa uma carta de seu honrado irmão, o senhor Antônio José da Silva.

ADOLFO (À parte) – Que labirinto cabalatório, que jogo de caramboladas! (Lendo as cartas) Meu senhor, esta de meu irmão é válida, mas esta, já não me lembra do sujeito que me escreve.

MIRABEAU – Um seu antigo amigo, que negociou muito noutro tempo com Vossa Senhoria, e depois foi síndico de certa ordem, morou no Beco dos Cachorros e agora está no dos Aflitos.

ADOLFO – Ah, sim!... O Elesbão!... Pois ele também anda metido nesta bolandeira?! Devia passar para os veteranos e cuidar de emendar o passado.

MIRABEAU – É um dos mais firmes atletas do nosso lado. À sua atividade se deve quase a certeza do triunfo... É um homem de raros talentos e digno de não ser atirado para um canto.

ADOLFO – Pois meu senhor... fique já certo [de] que farei tudo quanto estiver ao meu alcance, prevenindo-o, contudo, [de] que hei de tirar dois nomes desta lista, porque estou empenhado...

MIRABEAU – Pelo amor de Deus, meu rico senhor, nem meio. Não destrua a unidade de pensamento nesta obra, que é o monumento político mais perfeito que tem que executar-se. Quantas re­formas!... Que reformas!... Há de ser uma limpa geral.

ADOLFO (Em tom sério) – Homem... já estou cansado de reformas, e vejo que elas dão quase todas em droga.

MIRABEAU – São reformas pessoais, meu amigo e senhor. Havemos de fazer uma limpa, isto é, algumas demissões, e Vossa Senhoria disponha do seu escravo... porque a gratidão...

ADOLFO (À parte) – Apre com o tal planista. Meu rico senhor Mirabeau, é este bem o seu nome...

MIRABEAU – Um seu humilde criado...

ADOLFO – O senhor é estrangeiro, ou de origem estrangeira?

MIRABEAU – Nem uma nem outra coisa, mas chamo-me Mirabeau.

ADOLFO – Não tem nome de batismo?

MIRABEAU – Não, senhor. A mesma impressão que Vossa Senhoria tem é geral, de maneira que me acho quase sempre obrigado a expli­car-me, no que tenho particular satisfação, pois que falo em meu pai.

ADOLFO – E o padre que o batizou não fez objeção?

MIRABEAU – Nenhuma; era um sacerdote raro e amicíssimo de meu pai, ambos entusiastas de toda aquela gente, daqueles astros da liberdade. Meu pai, vendo em mim copiosas disposições para a oratória, deu-me o nome desse célebre orador quando me batizei, raspando a longa perlenga de sobrenomes de família, palhaçadas antigas e restos do caruncho da velha Europa. Dizia ele que um grande homem deve ter um nome só, por exemplo: Demóstenes, Bruto, Graco, Cícero, Catão...

ADOLFO – Alexandre, Napoleão... E não esperar pela posteridade?

MIRABEAU – Isso foram déspotas...

ADOLFO – Então, pelo que vejo, Vossa Senhoria foi batizado já um pouco taludinho?

MIRABEAU – Já sabia latim.

ADOLFO – E como era então conhecido?

MIRABEAU – Em casa por sinhozinho, e fora pelo nome de meu pai, que era um espírito forte, ermo de preconceitos, o protótipo dos pais. Se nos mandou batizar foi por condescendência com minha santa mãe e seus parentes, porque lá para si aquele grande homem repetia muitas vezes que era o maior dos despotismos forçar um filho a seguir uma religião que talvez não lhe conviesse, e podendo escolhê-la assim como escolhe uma profissão e terra para viver.

ADOLFO – E o senhor é casado?

MIRABEAU (Espantado) – Eu, senhor?!

ADOLFO (À parte) – Espera pelo maometismo, ou é sansimoniano. (Para ele) O senhor seu pai devia ser eterno, era um homem singular.

MIRABEAU – Em 1822 desprezaram os seus conselhos. Não teria hoje o país dado tantas cabeçadas, e havia de representar um papel único no mundo.

ADOLFO – Decerto que cheiraria hoje bastante a rosas. (Com ironia) Pois simpatizei com o senhor! No começo estava assim, as­sim... mas agora estou decidido. Vamos a salvar a pátria, porque a vejo à borda do abismo.

MIRABEAU – Dê-me um abraço. Achei um homem que me compreendesse, um verdadeiro herói... Mas, caríssimo irmão, não abandonemos a presa, nem mudemos de linguagem... o país ainda está com muito caruncho, ainda se arrepia...

ADOLFO – Vamos dourando a pílula...

MIRABEAU – Outro abraço... Adeus, que já vou ver o Elesbão e, transportado de júbilo, contar-lhe tudo...

ADOLFO – Não lhe fale por ora em mim, porque sou seu credor e não de pequena soma; isso o vexará.

MIRABEAU – Conte-se o milagre sem se nomear o santo. (Vai-se)

Cena VEditar

ADOLFO

[ADOLFO] – Apre, que este é de papo encarnado! O Elesbão! O Elesbão, que depois de uma bancarrota fraudulenta e escandalosa, foi-se meter carola de irmandades... e agora é uma influência política... Bem me disse o tal senhor Mirabeau que o país está à borda de um precipício. Ora, vamos a ler. Consulado... Preços correntes... O mercado tem estado... um pouco frouxo...

GUSTAVO (Dentro, gritando) – Minha mãe, mande buscar dez negros armados de vergalhos para esfolar esta negra, senão mato-a com este bacamarte... Isto nunca foi colarinho, é um pau-ferro, e uma serra que me corta o pescoço... olhe esta gravata! (Muito for­te) Dá-me o colete preto, que não quero esta porcaria! Dá cá a água-da-colônia. Os diabos te levem! Isso é macaçá, negra... Vai-te... vai-te, se não mato-te.

ADOLFO – Eu aqui estou mal situado... Vou para outro lugar, vou lá mais para longe... (Vai indo e batem palmas) Quem está aí?

Cena VIEditar

ADOLFO e DIONÍSIO

[DIONÍSIO] (Entrando) – O doutor Dionísio Ourique de Aljubarrota... É um criado do ilustríssimo senhor Adolfo... e estima que Sua Senhoria viesse com perfeita saúde.

ADOLFO – Muito boa, obrigadíssimo, para o seu serviço.

DIONÍSIO – O excelentíssimo senhor conde de Sapucaia me manda aos pés de Vossa Senhoria entregar-lhe esta carta. Mas antes de tudo quereria saber, se é possível, o que veio fazer este herói que acabou de sair daqui...

ADOLFO (Depois de ler a carta) – A mesma coisa que Vossa Senhoria.

DIONÍSIO – E Vossa Senhoria está disposto a servi-lo?

ADOLFO – Meu senhor, eu ainda não pensei sobre o caso. De­mais, ele me vem recomendado por pessoas tão ilustres, que... (À parte) Vamos a ver este de que cor é, e para onde pende.

DIONÍSIO – Pelo amor de Deus, senhor Adolfo... Salve o país das garras destes anarquistas. Tire-o da borda do abismo em que o tem precipitado esta gente. O seu acrisolado patriotismo pode influir para que se coloquem no timão do Estado homens cujas opiniões e cuja pureza de sentimentos auguram um futuro brilhante para a pátria. Veja todas essas ilustrações... A opinião geral do país aí se acha representada; ela é toda do meu lado, senhor Adolfo, porque queremos a paz, e nada de reformas. O país fica sossegado e contentíssimo dando-se ainda algumas demissões somente, e a minha gente, a nossa gente, é toda deste lote. (Dá-lhe um maço de chapas) Isto é só mandá-las... mas recomende-as a essa gente de fora... e diga-lhe que estas listas encerram a sua prosperidade futura, a segurança de suas propriedades, a estabilidade do país.

ADOLFO – O senhor conde de Sapucaia me honra agora mui­to... e...

DIONÍSIO – Sim, senhor. Ele me disse tudo e confessou-me que, iludido, em outro tempo... que intrigas o fizeram afastar de Vossa Senhoria, mas que logo que se realize a eleição, ele mesmo, em pessoa, assim como nós todos, havemos de vir graciosa­mente a seus pés agradecer-lhe o ter salvado a pátria, porque é por ela que nós trabalhamos, por esta pátria que eu idolatro mais que a própria vida...

ADOLFO – Senhor doutor, pode ir descansado que, pela minha parte, farei o que puder. Conheço todos esses manejos... e há pouco saiu daqui um sujeito que...

DIONÍSIO – Que é um herói... Mas como eu me acho debaixo do seu império, não quero preveni-lo contra ninguém... nem dizer mal desses malandrins, que só pretendem pescar em águas turvas e empoleirar-se à custa dos homens de bem. Se eu fosse um homem maldizente, dir-lhe-ia que muitos destes heróis são dignos de inscrever o seu nome no livro áureo do Aljube.

ADOLFO – Já não tenho ilusões, senhor doutor, discursos não me enganam. Eu conheço a gente boa do país, e por ela sempre estarei.

DIONÍSIO – Beijo-lhe as mãos pelo seu patriotismo...

ADOLFO – São mãos puras, trabalham de manhã até a noite. Vá descansado, que o bom lado há de triunfar. (Batem palmas) Entre, quem é...

Cena VIIEditar

Pompeu entra e encontra com Dionísio; fazem-se grandes barretadas, apertam as mãos e despedem-se com grandes cortesias, dizendo:

DIONÍSIO – Adeus, amorzinho. Como estás bem disposto!

POMPEU – Não mangues, ingrato... já não fazes caso da gente.

DIONÍSIO – Tu é que foges. Não te queres desenganar.

POMPEU – E tu para que andas pairando?

DIONÍSIO – Adeus, adeus; estás muito enganado.

POMPEU – Adeus, amorzinho. (Vai-se) POMPEU e ADOLFO [e um criado]


POMPEU – Vossa Senhoria dá licença a este seu criado? Pompeu Caio do Equador.

ADOLFO (Atirando com o jornal e fechando os óculos) – Pode entrar, meu senhor... (À parte) Estou com o correio em asa!

POMPEU – Não é um procedimento insólito que me guia à sua amável presença, pois que sendo Vossa Senhoria conhecido de todo o mundo como um modelo de virtude, também é conhecido meu, e por isso, sem constrangimento, aqui venho pedir-lhe cinco minutos de conferência para trabalharmos, não de coisas peculiares a este seu criado, mas sim da causa comum, de um fato que tende somente à questão de vida e de morte da pátria. Esta carta do senhor capitão Manuel Jequitibá Dendé Anhanguara, pessoa muito ilustre e muito da sua amizade...

ADOLFO (Como recordando-se) – Ah, sim! Conheço-o de vista... se é a pessoa que me parece ser. Pois muito bem, eu mandarei a resposta. Sou um seu criado...

POMPEU – Veio aberta, e o particular é breve...

ADOLFO (Põe os óculos com raiva) – “Ami amásio deferenças banais xofram soticapa. Vejo-me neste alfoufe como um triário sin­grando e refrangendo contra os cachões do refoucinhado destino. Premado de afãs, vanguejo esta nebulosa ilusão gregotil das vascas extremas: sempre pela pátria.” (Respira fortemente) Graças a Deus que já entendi uma frase. “Ignóbeis mandis alrotam heráldicos vanilóquios e vapulam-me como anafil de seu gasnete, a reio, reguçados dilemas, manipulados garabulhosamente por socarrões movéis, que coacervam nefelinas triscas, que anaçam a solércia do alborque eleitoral!” Faz ponto de admiração! (Durante esta leitura, Pompeu calcula votos) “Esses que esbarram” – vai melhor agora – “no sáfio alquicé de antecucos,” – pior vai ela – “que aljamia mo­dularam em suas priscas tribos, anadéis, e que ostentam na anacefaleose de seu protomartírio gualdripados repostes e verberam a vilificante lauréola de inspissado renome...” Senhor Pompeu, este senhor capitão está bom, e de saúde perfeita?

POMPEU (Calculando baixo) – Irajá, vinte e dois; Ilha Grande, seis; Macaé, quatorze; e... meu senhor? Ah, sim! Muito bem disposto. Escreve noite e dia, e bem cedo honrará a pátria com uma torrente de produções que causarão inveja à carunchosa Europa.

ADOLFO – Tomara eu cá o caruncho, esse maldito caruncho... Inda que mal pergunto, o senhor é amigo íntimo deste senhor que daqui saiu há pouco?

POMPEU – Senhor Adolfo, eu sou homem franco. O ouro não se liga com o zinco.

ADOLFO – Como os vi cordialmente cumprimentarem-se, apertarem a mão e, sobretudo, tratarem-se por tu... chacotearem... pensei...

POMPEU – Já trabalhamos juntos, já fomos amigos íntimos, porém ele mudou; e embora mudasse mas não me perseguisse, e mais aos seus antigos colegas... tem sido feliz... tem sabido aproveitar-se...

ADOLFO – Pois meu rico senhor... (Toca a campainha, vem um criado à porta). A sege está pronta?

CRIADO – Sim senhor.

ADOLFO – Pois meu rico senhor, vou sair. Venha outro dia por cá, porque então terei tido tempo de traduzir este sarambeque obsoleto do nosso... amigo, que o diabo custa a entender.

POMPEU – Escreve divinamente, tem um estilo único, é mestre. Agora está ele acabando um poema, e todo nesta mesma lingua­gem. Tem versos que... que a gente fica no ar... suspensa... e não sabe verdadeiramente como sair do meio de tanta pompa!

ADOLFO – Concebo, no ar, suspensa!... E sem mais saída!...

POMPEU – É um poema de estrondo! É preciso pôr livros abaixo, folhear noite e dia para apreciá-lo, não é destes d’água doce.

ADOLFO (Pegando no chapéu) – Pois meu senhor, até outro dia.

POMPEU – Posso contar com o patriotismo de Vossa Senhoria.

ADOLFO – Eu lhe juro, por tudo o que há de mais sagrado, que pode contar com ele, e que nunca hei de abandonar o país.

POMPEU – Exulta, pátria... que ainda tens heróis!...

Cena VIIIEditar

Adolfo vai saindo e vêm-lhe ao encontro, batendo palmas, Tibério, Barão de Jenipapo, Catão e Gustavo

GUSTAVO – Meu tio, para onde vai? Se é para o lado do Catete, leve-me em sua companhia.

ADOLFO – Justamente. Meus senhores, eu sou um seu muito humilde criado e sinto muito não poder cumprir com o meu dever agora, porque devo sair já e tenho apenas tempo para chegar ao prazo dado.

BARÃO – Adolfo... é só um momento, um minuto, meu rico amigo. Dá-me uma palavra em particular, porque já te deixo livre. Tu sabes que eu não sou macista e que tenho um laconismo nos meus discursos e negócios, uma conhecida brevidade nas minhas palavras e na exposição de todas as minhas idéias, enfim, que aquilo que os outros dizem em duas horas, ou mais tempo, eu emprego sempre dois segundos unicamente, pouco mais ou menos, e algumas vezes muito menos tempo, porque certamente não há neste mundo coisa mais insuportável do que um macista, um roubador de tempo, como aquele que encontrei na sexta-feira passada, e cuja história contarei com a minha costumada brevidade.

CATÃO – O meu nome é Catão Goiaba de Urucu Sapé; sou também lacônico como o antigo herói e em meio segundo avio o maior dos meus particulares. Espero da delicadeza de Vossa Senhoria que me escutará. (Vai-lhe pegando no braço)

TIBÉRIO – Eu e o meu amigo barão de Jenipapo viemos primei­ro, e o que um disser, diz o outro. Demais, somos pessoas ocupadas e não temos tempo que perder nestes dias.

BARÃO – O meu amigo tem muitíssima razão, tem razão às carradas, e certamente isto é assim. (Pega-lhe no braço) Vem, que eu acabo o meu particular... tu já adivinhas... mas antes de o dizer, quero contar-te uma história muito interessante que me aconteceu antes de ontem.

ADOLFO – Venham em outra ocasião... estou com muita pressa, tenho agora muito que fazer.

TIBÉRIO – Vamos, barão, que o senhor quer vender-se caro. (Pega no braço do barão)

ADOLFO – Meus senhores, estão à minha espera e o negócio é meu, e importa muito ser agora mesmo. Vamos, Gustavo...

BARÃO – Também é meu. (Pega-lhe no braço) Tu bem sabes que não sou macista.

TIBÉRIO – Se nos é contrário, diga... (Pega-lhe no outro braço)

CATÃO – Basta de importunar. Os senhores são dois, ficam de­pois de mim. (Vai para Adolfo, e Gustavo segura-o)

GUSTAVO – Os senhores querem devorar meu tio?

(Batem palma na escada, sobem mais outros pretendentes perguntando pelo senhor Adolfo. Ouve-se na rua passar tropa com música. D. Clara, Cândida e Angélica atravessam a sala. Os cabalistas largam Adolfo e vão, com muita cortesia, cumprimentar as senhoras, e enquanto elas fazem mesuras e recebem, Adolfo e Gustavo safam-se. Os cabalistas ficam olhando uns para os outros, e muito embaraça­dos, depois que as senhoras se ausentam. Angélica volta a sentar-se, depois que se não ouve mais a música do batalhão, e o barão ainda lhe faz mil barretadas, como querendo pregar-lhe uma maçada. Ela nada diz; o barão vai saindo muito calado com os outros, que olham para os lados da casa como para verem se Adolfo escondeu-se. Ouve-se rodar a sege de Adolfo e eles sacodem os ombros)

Cena IXEditar

ANGÉLICA

[ANGÉLICA] – Se os homens pensassem na morte a todas as horas, não haviam de representar estas cenas tão burlescas e ridículas. Todos estes ambiciosos são como os limonadeiros: espremem o fruto enquanto há sumo, depois lançam-no na estrada e são os primeiros a pisá-lo. Se meu tio não fosse tão rico, se não tivesse tantas relações, vivia mais sossegado. (Borda)

Cena XEditar

ANGÉLICA e FIRMINO

(Angélica sente um grande sobressalto vendo Firmino, mas abaixa os olhos e trabalha)

FIRMINO – Bravíssimo! Que linda obra! Está bem debuxada: graça, harmonia, e uma perfeita execução! Para quem é esse mimo tão gracioso?

ANGÉLICA – Para uma pessoa, que o saberá quando lho ofertar.

FIRMINO – Quando um mistério se envolve em amores perfeitos, é digno de toda a veneração... Vamos a ver o pulso. (Pega-lhe no pulso) Está agitado, vá passear no jardim. Por que não foi ouvir a música? Largue o trabalho.

ANGÉLICA (Fixando-o por algum tempo) – Primo, em que mundo vive essa cabeça?

FIRMINO – No passado e no futuro.

ANGÉLICA – E o presente?

FIRMINO – Nesse vivo alguns instantes, porque é o ponto médio que separa o passado do futuro. O presente é pouca coisa.

ANGÉLICA – Entre o túmulo e a esperança paira vossa alma. Os vivos, conforme a vossa opinião, não são mais que autômatos que se movem segundo o seu instinto horário.

FIRMINO – Prima, as ilusões acabaram-se na minha idade. A minha profissão é um livro que encerra as páginas do desengano. À roda da vossa fronte giram mil sonhos, cadenciam-se mil silfos, que entoam uma melodia suave e linsonjeira; o mundo para vós é ainda uma estátua onde o belo ideal embutiu suas divinas formas. Mas, para mim, é um moribundo que se debate entre a vida e a morte.

ANGÉLICA – Se eu fosse homem... se eu tivesse liberdade de águia! Mas nós somos um espelho que se embaça com o hálito de um suspiro, e se o dedo da maledicência o toca, ei-lo despedaçado para sempre. Ditosa França, aonde as mulheres podem largar a redoma de vidro em que as colocaram os homens... ditosas aquelas cuja sociedade não lhe[s] oferece a prevenção antes do juízo, o sarcasmo antes do apreço e o esquecimento antes do prêmio. Se eu pudesse escrever...

FIRMINO – E por que não?

ANGÉLICA – Para que lançar uma folha ao vento, onde depositei o sacrário de minha alma? Seria o outono da vida moral. Estas abóbadas invertem os sons da mais pura melodia. Um olho que vê de través, um tímpano caduco, são barreiras inflexíveis contra uma alma contemplativa e sentimental.

FIRMINO – Os romances, minha prima, eu os considero como uma flor do gênio da poesia, como criações de uma fantasia que oscila em toda[s] as escalas. Colho deles o que é belo, justo e honesto, mas nunca o extravagante. Lembrai-vos somente que uma vida perfumada de ilusões sentimentais é um suplício, um sonho tormentoso que nunca se realiza.

ANGÉLICA (Levantando-se) – Primo, você nunca olhou para o sol?

FIRMINO – Mil vezes. Por quê?

ANGÉLICA – E o que é que lhe fica na vista?

FIRMINO – A impressão forte da luz, muitas manchas que mudam de cor e que se antepõe[m] aos objetos.

ANGÉLICA – Essas manchas são a imagem do remorso. Sua variedade e cor representam a metamorfose de uma mente atribulada. No meio de um riso, nas mais doces efusões de nossa alegria, elas nos perseguem; na folha a mais pura de um lírio elas se mostram tintas de sangue e de luto... até mesmo na cor preta... e ainda mesmo com os olhos fechados não se evitam... sempre nos perse­guem! Manchas d’alma... ah, nem mesmo o sono as evita!

FIRMINO – O que é isso, minha amiga! Acaso algum remorso, talvez...

ANGÉLICA – Calai-vos, não é o que pensais. Longe de mim o crime que vos enegrece agora a mente!... Meu coração está puríssimo, mas meus lábios me condenaram ao suplício. A minha resolução está tomada: transforme-se numa coroa de martírio a gri­nalda do himeneu. Co’a fronte ensangüentada, arrastada por uma mão de ferro, converterei o tálamo numa fogueira e minhas cinzas, trituradas com o furor dos ventos, irão ululando pelos ares e amedrontando as virgens e matronas! Aquele astro que no albor da vida me fascinou com seus raios lisonjeiros, que magnetizou minha existência com a magia de sua luz, quanto mais me aproximo dele... tanto mais se escurece... uma invencível cadeia tecida pelos anéis do inferno... uma serpente invisível me comprime o coração... Oh, que cilício horrível me estrangula! (Baixo) Uma palavra proferiu minha sentença... outra me despenha o cutelo...

FIRMINO – O médico e o confessor são os depositários do que pode haver de mais sagrado no ádito d’alma... Uma palavra somente... A nossa memória recebe a página do infeliz, e o nosso dever passa-lhe a esponja do esquecimento depois do remédio. Confiai num homem de bem, num médico.

ANGÉLICA – Senhor, se o vosso santuário não é profanado pela indiscrição, peca por efêmero. Infeliz da humanidade se a esponja da indiferença limpasse a ardósia das consternações humanas. Que lições teriam os vindouros?

FIRMINO – A imaginação é o algoz da vossa existência. Vós cuidais que eu olho para as mulheres como ecos de uma quimera, como entes desprovidos de heroísmo e de sentimento? Não lhes confiou Deus a maternidade?... (Firmino olha fixamente para ela, como querendo ler no fundo de sua alma)

ANGÉLICA (Com ironia) – As mulheres são inconstantes e caprichosas...

FIRMINO – Não sejais injusta. Eu nunca confundirei um desejo efêmero com uma paixão, nem um pirilampo com um astro... Angélica, vós estais arrependida do sim que destes a Arnaud. (Angélica abaixa os olhos. Grande silêncio) Todo o envoltório que encobria a história desse rapaz, eu o descobri. É de uma família ilustre: o pai ganhou seus títulos no campo de batalha. Napoleão, o próprio Napoleão, com a sua augusta mão, condecorou os ombros e o peito do guerreiro. Foi-lhe fiel. A restauração matou-o... não é ele uma nobre vítima de sua constância e de sua gratidão? Não é também nobre o filho que na terra estranha amassa com as lágrimas do exílio o pão que o nutre? Uma educação completa adorna todos estes predicados. Quantos conheço eu que, em idênticas circunstâncias, se honrariam mais de serem...

ANGÉLICA – Tudo isso é verdade, e tudo isso nele reconheço.

FIRMINO – Será o que diz o leviano Gustavo? É estrangeiro?!...

ANGÉLICA – Eu não sou dessas mulheres que se nutrem de mi­galhas. A honra, o gênio, pertencem ao universo. Ambos têm seu prêmio no código da moral eterna. Mas essa educação brilhante, é ela sancionada pela efusão do coração, pelo êxtase do gênio?

FIRMINO – O gênio é um mimo que a Providência distribui com avareza a certos homens. É um cometa luminoso que passa e desaparece, brilhando em relação àqueles que o contemplam. O homem de gênio possui na verdade essa efusão de amor ao ponto de delírio, mas depois do delírio os órgãos se enfraquecem e a convalescença é longa. O dia em que um sorriso não aparece em seus lábios é um dia de luto para sua esposa. Ele vive numa contínua oscilação do movimento à apatia, e isto desagrada as esposas, porque...

ANGÉLICA – Porque muitas não compreendem essa sublime pêndula, que se candencia da terra aos céus.

FIRMINO – Vós sois capaz de o apreciar. Mas, minha prima, todos esses meteoros são como os sonhos da esperança; todas essas belezas, toda essa sublime poesia, todos esses simulacros se transfiguram em descanados esqueletos dentro das quatro paredes de uma casa.

ANGÉLICA – Vós considerais a mulher como uma árvore destina­da a produzir frutos, e sem participar da natureza do fruto... Doutor, vós não sois coerente neste momento com as vossas opiniões.

Cena XIEditar

FIRMINO, ANGÉLICA e CÂNDIDA

CÂNDIDA (Correndo com uns livros) – Aqui estão... aqui estão estas músicas, e a última edição de Byron, ilustrada com lindas gravuras. Estás contente?

ANGÉLICA – Byron, o cisne de Albion, a glória última de Inglaterra! Que dias felizes vou passar!

FIRMINO – Gênio, fúria e extravagância... Entre Werther e Byron não vejo unidade de sentimentos...

ANGÉLICA – Foi infeliz... (Baixo) Amou sem ser amado...

FIRMINO (Baixo para consigo mesmo) – Amou sem ser amado!! (Fica pensativo)

Cena XIIEditar

FIRMINO, ANGÉLICA, CÂNDIDA e ADOLFO

ADOLFO (Entrando) – Meus senhores, vou despir-me, esperem um pouco. (Para os de casa) Aquele Gustavo é um maluco, sai comigo e na porta desaparece; olho para o relógio e era passada uma hora do prazo dado. Fiquei mal com o meu homem, só por aturar os importunos, e foi-me preciso voltar.

CÂNDIDA – No momento de descer a escada, esqueceu-se do que ajustou e seguiu para outro rumo imediatamente. Anda agora muito distraído. Creio que a moléstia pega, porque aqui o doutor também está na mesma...

ADOLFO – As reflexões deste são mais sérias. Olha, Firmino... já estão aí quatro cabalistas novos. Existem mais de nove chapas di­versas, e passando pelas ruas não se vêem senão ajuntamentos falando em chapas, cabalas, votos, colégios... A estatística eleitoral está na última perfeição.

FIRMINO – E o correio quadruplica as suas rendas nesta época...

ADOLFO – E eu vou-me transformar em Assuero: vou já fazer nova viagem, porque apenas me demorarei o tempo necessário para meus negócios. Adeus, vou à praça ver o mercado.

Cena XIIIEditar

ANTÔNIO, FIRMINO, ADOLFO e ANGÉLICA

ANTÔNIO – Grande novidade! Está tudo em movimento! Houve uma revolução na França: o povo combateu três dias e três noites e Carlos X fugiu. Desordens na Itália, na Polônia e na Bélgica.

ADOLFO – Seria essa a causa principal dos grupos que vi na rua! E quem vos deu essa nova?

ANTÔNIO – Foi Arnaud. Está o rapaz num delírio de prazer e já me pediu licença para amanhã ir jantar com muitos dos seus patrícios. O pior é que vejo um não-sei-quê que me desagrada.

ADOLFO – A febre imitativa é uma peste invisível que se propa­ga com a velocidade do raio.

FIRMINO – Pois então chegou o momento de propor-me para candidato; ajudem-me, meus tios, que eu sou um homem necessário.

ADOLFO – Para ti estou pronto.

ANTÔNIO – Embarco-me contigo, sigo os teus pressentimentos.

FIRMINO – A tempestade vai engrossar; o vulcão vai despejar a lava e cobrir a terra de um flagelo que o homem só conhece depois de duras provas: tudo vai estremecer. Sinto abalados os alicerces do futuro. Ah, se eu tivesse um braço de gigante para amparar o dique horrível que se vai romper sobre nossas cabeças, ou desviá-lo! Se eu fosse uma águia para arrebatar o cordeiro e guardá-lo nas nu­vens, abrigado da tempestade mundana; se eu fosse um anjo para salvar a arca da aliança, o paládio de nossas esperanças, de nossa grandeza!... Vamos, meus tios, vamos a segurar o baluarte e sus­pender na borda do abismo as relíquias sagradas que o anjo das trevas intenta rojar em sua fúria satânica. Quero ser candidato, quero ser deputado. A pátria reclama o meu braço.

ANTÔNIO – Faremos o que pudermos. Não há mais tempo que perder. Empregue-se tudo: amizades, favores, dinheiro, tudo, tudo.

ADOLFO – Este rapaz me faz virar de bordo inteiramente. Ora vá, desta vez vou-me enterrar até o pescoço.

ANGÉLICA (À parte) – Meu Deus, meu Deus, todas as minhas esperanças se desvanecem... O demônio da ambição veio de assalto apoderar-se de sua alma, devastar-lhe toda a poesia do coração e torná-lo insensível como um ambicioso. Eu tremo! Não vá ele sacrificar uma vida tão cheia de virtudes a uma hora de elevação. Ai de mim, infeliz, que não tenho mais luz! (Vai-se)

Cena XIVEditar

ANTÔNIO, ADOLFO, FIRMINO, BARÃO, POMPEU e MIRABEAU

BARÃO – Amigo Adolfo, ainda estás muito ocupado e disposto a mangar comigo? Aquela tua fugida ao som da música me faz lembrar uma história muito engraçada e que faz rir as pedras. Mas sentemo-nos primeiro, porque a quero contar com todos os ff e rr.

ADOLFO – Fica para logo. Meus senhores, vamos a trabalhar.

POMPEU – Prontíssimo. Aqui está a chapa da nossa gente.

MIRABEAU – Guardem lá isso; agora estamos nós de cima, e o senhor Adolfo me entende.

ADOLFO (Chama Mirabeau de parte, fala-lhe ao ouvido, e este vem muito seguro de si para a cena) – Percebe, senhor Mirabeau, eu cá sou assim.

MIRABEAU – A sua vontade é uma lei para mim.

ANTÔNIO – Se for preciso dinheiro, estou pronto.

MIRABEAU – Não há de ser preciso grande coisa; falaremos logo nisso.

ADOLFO (Chama o Barão e Pompeu de parte e fala-lhe [s] ao ouvido) – Eu só proponho uma transação. Tenho um candidato e dou por ele vinte e dois colégios.

BARÃO – Vinte e dois colégios! E quem é ele, como se chama esse filho da vitória?

ADOLFO – É o senhor doutor Firmino.

MIRABEAU – E quem é o senhor doutor Firmino? Que títulos apre­senta a nossa simpatia?

BARÃO – Quem é o senhor doutor Firmino?

FIRMINO – O autor de todas as obras de Brasílio Elísio.

BARÃO – Homem, a descoberta desta incógnita me faz agora lembrar um caso que não posso deixar de contar. Na cidade de Antuérpia, em Flandres...

ANTÔNIO – Não há tempo que perder. Vamos, senhores, para o meu escritório.

MIRABEAU – O senhor doutor é que é o autor daquele opúsculo sobre a harmonia das leis?

FIRMINO – Sim, senhor.

POMPEU – E aquela obra sobre a Colônia, Reino e Império de Santa Cruz, também é de sua pena?

FIRMINO – Sim, senhor.

BARÃO – E esta última, que me disseram, sobre a necessidade das colônias, e qual o futuro da nossa agricultura?

FIRMINO – Também é minha.

ADOLFO – Pois tu é que escreveste as obras de Brasílio Elísio?

FIRMINO – Sim, senhor.

ADOLFO – Não precisas de mais títulos, nem de outros serviços.

TODOS – Viva o nobre deputado!

BARÃO – Viva, viva! Mas escutem uma nova historiazinha que agora me caiu entre os dentes: no incomparável parlamento das Ilhas...

FIRMINO – Aceito e prometo cumprir com os deveres de um verdadeiro representante da nação brasileira. Tudo pelo Brasil e para o Brasil!

TODOS – Viva o nosso deputado!


Fim do segundo ato