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Artigo de Euclides da Cunha de 28 de setembro de 1897

Diário de uma expedição
por Euclides da Cunha
Publicado no Estado de São Paulo em 21 de outubro de 1897.


Durante a noite toda, com pequenos intervalos, continuou de parte a parte, intensa, a fuzilaria. Creio que os jagunços conseguiram agora graças a sucessivos, inesperados e impetuosos assaltos às linhas e protegidos pela noite, tirar alguns baldes de água das cacimbas do rio. Nada de novo, entretanto, na nossa sítuação geral.

Persiste a monotomia estranha do cerco. No entanto há três dias acreditei que os nossos antagonistas não poderiam resistir três horas, esmagados numa brusca apertura do cerco. Mas lá estão, indomáveis, num círculo estreitíssimo, visados constantemente por mil e tantas carabinas prestes a disparar — e não cedem.

São incompreensíveis quase tais lances de heroísmo.

Para não perder tempo continuo, com o tenente-coronel Siqueira de Menezes — um tipo interessantíssimo e notável, ao qual, mais longamente me referirei — a observar sistematicamente, hora por hora, a temperatura, a pressão e a altitude em Canudos. Faremos com todo o cuidado estas observações que são as primeiras realisadas nestas regiões e das quaes se derivará a definição mais ou menos aproximada do clima destes sertões.

Ao meio dia em ponto, por determinação do comando em chefe, cada bateria saudou a data feliz de hoje com uma salva de 21 tiros de bala. E todas as balas — uma a uma — com uma precisão facilitada pela distância reduzida, caíram na área estreita em que fervilham os jagunços, explodindo e incendiando ou despedaçando as frágeis edificações; mas sobre a pressão do bombardeio forte eles atiravam vigorosamente sobre as linhas.

Às 5 1/2 da tarde, entretanto, alvoroçou-se o acampamento todo: correra, celere, a notícia de que se haviam rendido os jagunços. Alguns soldados haviam visto agitar-se entre as casas, à retaguarda do santuário, como um apelo desesperado à salvação, uma bandeira branca.

Além disto dera-se um fato absolutamente novo — cessaram completamente os tiros dos jagunços. A zona reduzida em que se acoitam parecia abandonada. Uma curiosidade irreprimível fez com que se alevantassem nos mais perigosos pontos grupos de observadores.

E nem um leve sinal de vida, adiante; na igreja nova nem um leve ruído; um silêncio tumular pairava solenemente sobre a ruinaria de pedra do templo gigantesco.

Em frente, à sede da comissão de engenharia — ponto clássico das melhores palestras do acampamento — o grupo habitual de que faz parte o general em chefe, comentava-se vivamente o acontecimento, preestabelecendo-se, soluções a diferentes hipóteses prováveis.

Ter-se-ia entregue o Conselheiro?

Fora morto por algum estilhaço de granada?

Sacrificado pelos seus próprios sequazes desesperados ante os insucessos sucessivos dos últimos dias?

E que fazer se o trágico evangelisador se rendesse confiando na generosidade do vencedor?

Às 6 horas uma banda do 12º batalhão começou a tocar, a vinte passos do nosso grupo. Até as 7 horas as notas vibrantes e marciais das marchas dominaram o silêncio. E quando os músicos se retiraram este ultimo reinou novamente, inexplicável.

A que atribuí-lo?

Realmente alguma coisa de anormal passava-se em frente, no arraial; e os corações começavam já bater febrilmente ante a quase evidência da vitória longamente esperada, quando uma explosão formidável feita pelos disparos simultâneos das armas despedaçou o silêncio e a noite e um turbilhão de balas caiu rugindo sobre a nossa gente...

Incompreensível e bárbaro inimigo!

E a fuzilaria, como a de ontem, parece que persistirá por toda a noite. A batalha crônica que aqui se trava há três meses teve apenas uma trégua de três horas.