Aventuras de Hans Staden (6ª edição)/Capítulo 16

XVI

APARECE OUTRO NAVIO


JÁ ia no quinto mês a escravidão de Staden. Sua situação melhorara muito; o espantalho do seu sacrificio estava de todo afastado. Os indios, muito supersticiosos que eram, respeitavam-no cada vez mais, com medo de que o Deus de Hans os castigasse.

Por essa época surgiu em Ubatuba outro navio vindo de S. Vicente. Embora inimigos, os portugueses e tupinambás não deixavam de entrar em negocios. Esses indios produziam muita farinha de mandioca, genero de que os portugueses faziam grande consumo nas suas plantações, lavradas por escravos. Quando a farinha escasseava em S. Vicente, vinham de lá navios afim de obtê-la dos indios em troca dé machados e anzois. Esses navios ancoravam no porto e davam o tiro do costume. Os indios saiam da taba a indagar do que era.

— “Negocio de farinha !” gritavam os de bordo.

Os indios, então, ajuntavam-se na praia, de armas em punho, mandando uma canoa com dois pariamentares ao encontro do navio afim de ajustarem as condições do negocio. Depois de tudo bem combinado realizava-se a permuta das mercadorias, com as maiores precauções de lado a lado porque um não confiava no outro.

Concluida a transação, recomteçava a guerra. Os indios despediam uma nuvem de flechas contra o navio e este por sua vez despejava os seus canhões contra os indios.

— Ora que curioso ! exclamou Pedrinho. Está aí um costume que nunca imaginei possivel.

— Era como se dissessem: inimigos, inimigos, negocios á parte, acrescentou dona Benta. No fundo, a necessidade os obrigava a isso. Uns não podiam passar sem anzois, outros não podiam passar sem farinha. O armisticio resolvia o apuro de ambas as partes, como breve parentesis na luta que só teve fim quando os indios foram completamente exterminados.

O navio em questão entrou no porto e deu o tiro de aviso. Vieram os indios. Desta vez, porém, não era farinha que os peros queriam. Apenas desejavam saber noticias de Staden. Disseram mais que estava a bordo um irmão de Hans, com muitas mercadorias destinadas a ele.

Os indios parlamentares voltaram do navio com essa boa nova, e Hans pediu que o deixassem conversar com o seu irmão.

— “Quero pedir a meu irmão que conte a meu pai a minha historia e lhe peça que venha buscar-me com um navio cheio de presentes para vós”.

Os selvagens acharam justa a pretensão; impuseram-lhe, todavia, que não falasse com nenhum português. Andavam a preparar em segredo uma expedição contra a Bertioga e receavam que o prisioneiro os traisse.

— “Nada temais, disse-lhe Hans; os peros não compreendem a minha lingua, nem a do meu irmão que está a bordo”.

Os indios deixaram-se embaçar e levaram-no á distancia de uns cincoenta passos do navio. Dali Hans gritou:

— “Deus seja convosco, irmãos. Que venha um só falar comigo e não deixe perceber aos indios que não sou francês”.

— Mas os indios não estavam a ouvir essa fala? perguntou Pedrinho.

— Sim, estavam; mas esses índios não entendiam a lingua dos portugueses, porque viviam em guerra com eles e sempre que apanhavam algum, em vez de o tomarem para professor, preferiam comê-lo assado. Desse modo podia Hans falar livremente, sem receio de ser entendido.

Em resposta ás suas palavras adiantou-se o biscainho João Sanchez e disse:

— “Meu querido irmão, aqui vimos em busca de noticias vossas, visto como o primeiro navio mandado nenhuma nova pôde levar. Quem nos envia é o capitão Braz Cubas, de Santos, o qual deseja saber se estais vivo, afim de vos resgatar”.

Hans retomou a palavra ;

— “Que Deus vos recompense eternamente, pois vivo em grande aflição, sem saber o que estes selvagens querem de mim. Só sei que já me teriam devorado, se Deus não me houvesse protegido. Eles recusam-se a vender-me, pois esperam que meu pai venha de França buscar-me num navio cheio de presente. Peço-vos que não os deixeis suspeitar que não sou francês, pois que isso me seria funesto, e peço-vos ainda que me deis facas, machados e anzois com que eu possa presenteá-los".

Sanchez respondeu:

— "Sim, irmão, tudo faremos como o desejais. Mandai cá uma canoa buscar os presentes".

Neste ponto os indios deram mostras de que já se estava prolongando demais a fala. Hans, então, despediu-se de Sanchez.

— "Os indios não me deixam dizer mais. Cuidado com eles! Estão a preparar secretamente uma investida contra a Bertioga. Adeus !"

— "Adeus, irmão! disse Sanchez. Antes que eles ataquem a Bertioga, serão atacados pelos tupiniquins cujas canoas estão prontas. Não desanimeis. Deus vos ha de acudir em melhor momento, já que neste nada podemos fazer pela vossa salvação".

E separaram-se. Os indios levaram Hans dali e mandaram uma canoa a bordo em busca dos presentes, que Hans distribuiu entre eles, dizendo :

— "Tudo isto me trouxe o meu irmão francês".

— "E que foi que disseste a teu irmão?" perguntaram os indios.

— "Disse-lhe, inventou Hans, que procurasse fugir das unhas dos peros e voltasse para a nossa terra, e de lá tornasse num navio cheio de presentes para vós, visto que sois bons para comigo e não me maltratais".

Semelhante fala, como é natural, muito agradou aos selvagens, que murmuraram entre si:

— "Não resta duvida que é francês; havemos agora de tratá-lo como irmão".

Desde esse momento Hans gozou de mais folga na taba; ia á caça com os indios e ajudava-os nos trabalhos de roça.

— Os selvagens, afinal de contas, não passavam de uns coitados, disse Narizinho. Hans embaçou-os de uma vez.

— E' que possuiam um grau de inteligencia muito inferior ao dos brancos. Daí a facilidade com que os peros e os espanhois, em muito menos numero, conseguiram dominá-los. Neste caso de Hans, por exemplo, assistimos á luta da inteligencia contra a bruteza. A inteligencia, com suas manhas e artimanhas, acabou vencendo a força bronca do numero.


Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1929 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.