Cinco de Maio/D. Pedro de Alcantara

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CINCO DE MAIO
(DE D. PEDRO DE ALCANTARA)
(IMPERADOR DO BRAZIL)
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ORREU, e, qual marmoreo,

Sôlto o postremo alento,
O corpo jaz exanime
Orpham d'um tal portento ;
Assim surpresa, attonita
A terra co'a nova está,

Muda pensando na última
Hora do homem fatal,
Nem sabe se tão célebre
Planta de pé mortal
Seu pó de sangue avido
Inda pisar virá.

Fulgido sobre o solio
Meu genio o viu ; calou-se.
Quando, por vezes várias,
Cahiu, surgiu, prostrou-se,
A minha voz d'innumeras
Ouvido não terá.

Virgem de vil encómio
E de covarde insulto
Surge abalado ao subito
Finar do ingente vulto,
E sólta á urna um cantico
Immorredor quissá.

Dos Alpes ás Pyramides[1]
Do Manzanar ao Rheno
Elle fuzila ; e rapido
Raio é o seu aceno.
Troou de Scilla ao Tanais,
D'um até outro mar.

Foi véra gloria ? Aos posteros
A ardua sentença : a nós
Curvar a fronte ao Maximo
Factor, que d'elle apoz
Quiz de Seu Almo Espirito
Rasto maior deixar.

O procelloso e trépido
Prazer d'um grande plano,
A ância de quem indomito
Serve p'ra ser sob'rano,
E o é; e ganha um prémio,
Que era mania esp'rar;

Tudo provou : a glória
Maior depois dos trances ;
A fuga, e a victória ;
Do paço e exilio os lances;
Duas vezes no pó infimo
Duas vezes sôbre o altar.

Seu nome diz; dous seculos
Um contra o outro armado,
Humildes vão render-se-lhe,
Como aguardando o fado.
Impôz silencio, e árbitro
Entre elles se sentou.

E foi-se. E os dias no ocio
Em praia exigua finda;
Alvo de inveja livida,
E de piedade infinda;
D'inextinguivel ódio,
E amor, que não mudou.

Como a cabeça ao náufrago
A onda vérga e envolve;
Onda na qual o misero
De cima a vista volve
E a divisar esforça-se
Praia remota em vão ;

Tal da memória o cúmulo
Sôbre aquella alma cai.
Que vezes elle aos posteros
A si narrar-se vai,
E sôbre a eterna página
Tomba a cansada mão !

Que vezes elle, ao tacito
Morrer d'ignavo dia,
Baixo o olhar fulmineo,
Braços cruzados, via
Os dias, que já foram-se,
A mente lh' assaltar !

As móveis tendas lembram-lhe,
Dos muros os abalos,
Dos sabres os relampagos,
A onda dos cavallos ;
O concitado imperio,
O prompto obedecer.

Talvez ao cru martyrio
Cedeu o forte seio ;
Desesperou; mas válido
Braço celeste veio,
E para um ar mais limpido
Piedoso o transportou.

E guia-o pelos flóridos
Trilhos da esperança,
Ao campo eterno, ao prémio
Que alem do almejo avança,
Önde é noite, é silencio
A glória, que passou.

Bella, immortal, benefica
Fé a vencer affeita;
Inda isto escreve : alegra- te ;
Que alteza mais eleita
Ao deshonor do Golgotha
Jamais se prosternou.

Tu d'estas cinzas frigidas
O ímpio fallar isola.
Deus, que te abate e eleva-te,
Que afflige-te e consola,
Sobre o deserto thalamo
Ao lado seu pousou.


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  1. Escripto perto das pyramides de Ghizel, a 5 de Novembro de 1871.

    Nota do Traductor.