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Diante do Mar
por Cruz e Sousa
Poema agrupado posteriormente e publicado em O Livro DerradeiroDispersas


Para matar o letargo
Da vida, e o profundo tédio,
Fui, em busca de remédio,
Ao cais arejado e largo.

E vi o mar formidando,
Cheio de mastros e velas,
Ocultos clarins vibrando
Pela boca das procelas.

Vi tropéis e tropéis bruscos
De ondas revoltas e crespas
Com rijos ferrões de vespas
Ferreteando os ares fuscos.

Vi os límpidos navios
Jogados do mar incerto
Como seres erradios
Por inóspito deserto.

Vi tudo nublado, tudo,
Céus e mares e horizontes;
E sobre a linha dos montes
Cair o silêncio mudo.

E eu lembrei-me quando a aurora
Sobre aquelas esverdeadas
Águas jorrava sonora
A luz em puras golfadas.

Lembrei-me desses supremos
Dias acres de alegria
Na vaga loura e macia
As leves palmas dos remos.

Do resplendor das viagens
Num encanto matutino
A doçura das aragens,
Por sobre o mar cristalino.

A bicar as doces ilhas
De pedra, musgos e flores,
Cheias de ervas e frescores
E naturais maravilhas.

Que ela a tudo perfumasse
Como um rosal que floresce
Que tudo que nela houvesse
Resplandecesse e cantasse.

Ou ver na frente das casas,
Dos vales e das colinas
Os pombos batendo as asas,
Entre festões de boninas.

Ir a pesca alegre e fresca
Por suavíssimos luares,
Numa lua pitoresca,
Em cima dos salsos mares.

Quando flexível canoa
Vai deixando um vivo rastro,
Fundo, aberto, feito de astro,
Na vaga que brilha e soa.

Quando na margem campestre
De rios indefinidos
Sente-se o aroma silvestre
Dos aloendros floridos.

Lembrei-me até das regatas
Numa hora deliciosa
De manhã cheirando a rosa,
Toda de fúlgidas pratas.

D’embarcar, como um fidalgo,
Para aventuras de caça,
Em companhia do galgo
Que é das caçadas a graça.

Ir d'espingarda e d’estilo,
Por madrugadas serenas,
Sem males, sem dor, sem penas,
Peito bizarro e tranqüilo.

Bater as aves no mato
Por entre arvoredos graves,
Ou da beira de um regato
Ver saltar em bando as aves.

E da ventura nos jorros
Voltar da caça repleto
Vendo ao longe o rubro teto
Da casa e o verde dos morros.

Ou então ir como um duque
Nas praias de mais beleza
Gozar na choça de estuque
Uns olhos de camponesa.

Sentir do equóreo elemento,
Sobre as serras verdejantes,
Ruflantes e sussurrantes
As ventarolas do vento.

Deixar o espírito, avaro
De vida, saúde e força
Disparar — alada corça —
Pelo azul radioso, claro.

Assim, talvez que o Nirvana
Do tédio e letargo imenso
Não fosse uma dor humana,
Dentre um nevoeiro tão denso.