PROUST (escritor francês: Em busca do tempo perdido)

Todas as idéias trazem em si sua contestação.
A palavra contraria a palavra.

Marcel Proust (1871–1922) é famoso pela sua obra cíclica, Em busca do tempo perdido, composta de sete partes, publicadas separadamente, as últimas três póstumas: No caminho de Swan, Às sombra das raparigas em flor, O caminho de Guermantes, Sodoma e Gomorra, A prisioneira, A fugitiva e O tempo redescoberto. Este monumental trabalho literário representa um painel da vida social da alta burguesia francesa da época de Proust, analisada não do ponto de vista científico da moda naturalista, mas através da introspecção subjetiva do narrador, que geralmente é o personagem principal. A grande contribuição do autor para a narrativa literária é a descoberta do tempo psicológico, pelo qual ações e sentimentos não estão sujeitos ao plano da sucessividade, mas ao da simultaneidade. Pela técnica das associações em cadeia, o passado, que estava esquecido e, portanto, "perdido", é recuperado pela consciência na sua integridade. A mente pensante, no momento em que recorda o passado, o torna presente, dando-lhe nova existência. A realidade não existe em si numa forma absoluta, mas num molde relativo, enquanto refletida e deformada pelo espírito pensante. Enquanto a narrativa das várias tendências "realistas" está preocupada predominantemente com os problemas do viver social do homem, o romance do fluxo da consciência tem por intuito a exploração da alma humana, tentando desvendar os mistérios da presentificação da memória, do subconsciente e do inconsciente. Se Karl Marx, fomentando a luta de classes para a realização do sonho de uma vida comunitária, pode ser considerado o princípio inspirador do romance de temática antifeudatária e anticapitalista, Sigmund Freud e o advento das teorias psicanalíticas propiciaram a florescência de narrativas de cunho intimista, voltadas para a indagação sobre as aspirações mais recônditas do ser humano, os sonhos e os desejos loucos, as frustrações, o tempo existencial, o espaço vital. O pressuposto filosófico, que sustenta por baixo esta corrente estética, é o pensamento de Henri Bérgson (→ Intuicionismo) de que os dados da consciência não constituem uma categoria estática, mas fluem constantemente como uma correnteza. Ações, idéias, sentimentos e sensações do tempo presente misturam-se com a memória do passado e com as aspirações do futuro. Proust e Joyce foram os dois escritores que melhor exploraram a modalidade da introspecção psicológica, também chamada do "fluxo da consciência", em seus romances. Enfim, Proust é para o romance intimista do séc. XX o que Flaubert, Balzac e Zola foram para a literatura realista e naturalista do séc. XIX. Ao lado de James Joyce e de Franz Kafka, a obra de Proust abriu novos caminhos para a narrativa literária, sendo considerada a fonte de inspiração de muitos escritores contemporâneos.