Dona Guidinha do Poço/I/VI

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Primeiro, Capítulo V


O hóspede achava-se realmente bem aboletado. Mesa, bacia de rosto com uma toalha, chinelos. O ar é que não tinha por onde arfar senão pelo telhado, visto como as paredes subiam até às telhas, e as duas portas interiores, uma para cada lado, parece que há tempos não se abriam. Como diabo se explicava aquilo de elevarem as paredes divisórias ao teto, em clima tórrido? pensava o praciano. No mais, com muitos armadores, bem caiadas, com a sua barra de cor sarapintada de verde e encarnado.

Precisou abrir uma das malas para mudar os chinelos, porque os que ali havia, de trança portuguesa, eram quentes, e também para meter-se no seu paletó e calça de brim, mudar camisa, etc. Arredou a mala preta e de pregaria para o meio da casa, meteu a chave e abriu. Não encontrava mais camisa limpa. Era preciso ir à outra mala. Feito o mesmo, foi remexendo. Ainda não havia tocado naquela. Estava tudo direitinho como lhe saíra de casa, o espaço aproveitado com usura, a roupa leve por cima, a pesada embaixo, as meias pra um canto, as gravatas, os botões, os alfinetes, os frasquinhos de cheiro, de amoníaco, os remediozinhos previdentes. Plantava ele agora ali a desordem, alterando, machucando. Quanto capricho, quanto amor subia dali! Mãos de mãe, que desprezara por causa do padrasto! De esposa, bem de que ele não gozara ainda! As que arrumaram aquela roupa, os cuidados ali acumulados uns sobre outros, as saudades, eram não menos caras, de irmã. E patética e suave surgia daquela mala a alma da família, que ele não julgava querer tanto, dentre tudo persistindo a lembrança dos amores que por lá deixara. Ah, destino! Mas não havia jeito senão ter partido de Goianinha. Vira-se forçado. Apontado como cúmplice no assassinato do padrasto, os tios, irmão deste, estavam vendo a hora em que o levavam pelo cós, visto no processo a coisa ir-se complicando. E o Silveira? O Silveira é que sabia bem que ele não fora mandante do assassinato. Verdade seja que se achava bastante intrigado com o padrasto e tio por causa de Martinha, e que não entristeceria com a morte deste, de que resultaria até uma boa herança para sua mãe; levar, porém, isso até o desejo do homicídio, não, não era para ele, Secundino. Viajara com o Silveira do Recife para Goianinha no dia em que foi cometido o crime no Mossoró. O Silveira seria uma testemunha excelente a seu favor. Sabia perfeitamente de todas as suas passadas, naquele tempo...

Dispôs-se a mudar de roupa. Entretanto, veio-lhe o apetite para o banho. O rio era perto, via-se pelo verde negro das árvores. Pôs a toalha ao ombro, tomou o chapéu e saiu. Ninguém na frente da casa onde o sol, batendo de lado, enesgava pelo alpendre uma claridade quente e aluarada. O dia doía na vista. O caminho, calcado no limpo do pátio, ia por entre o estrelar aqui e aqui das malacachetas do pedregulho penetrar no bamburral. Ao pé das primeiras árvores do longo bosque adjacente ao percurso do rio, aninhava-se uma casa de palha, com a sua cumieira aguda e o seu terreiro bem varrido. Secundino adiantava-se para lá. Um homem, que chegara à porta, parecia atentar para ele. Com pouca demora, aparecia também uma mulher, do interior, como que a chamado do homem. Depois, mais um rapaz. Notando que reparavam para ele, Secundino vai observando-os, por sua vez.

Mais perto, o homem se lhe encaminha, fazendo sombra nos olhos com a mão, e, no que reconhece o moço, exclama para a mulher:

— É ele! É o Secundino mesmo, Calu!

Secundino pára, e é cercado por toda a casta do velho camarada Silveira:

— O Silveira?! A Carolina?! Só por Deus, minha gente! Por que não me pediram as alvíssaras?

Alvíssaras deviam pedir a eles - explodia a Carolina. E o Seu Secundino mó de que estava mais magro? e como ficaram as gentes de Goianinha? Que andava fazendo por aquelas alturas?... Eles tinham batido por ali atirados pela seca. Seu Majó já sabia da vinda? Quando ele soubesse!... A Seá Dona Guida era uma fulô. Qui pessoa de bem! Qui coração aberto! Por ali, a bem dizê, ninguém era pobre tando junto dela...

Depois, o Silveira entrou a explicar ao Secundino a sua situação.

A conversa era de vez em quando mais desenvolvida pelos apartes da mulher. Sentaram-se nuns paus, debaixo de uma ingazeira, ao canto da casa. Desde que deixara em Goianinha, metera-se para o Rio Grande do Norte, adonde possuía os seus bichinhos, na Serra do Martins. Com o auxílio de Deus ia vivendo. Mais porém quem nasceu pra derréis não chega a vintém. Se o pai, que Deus tivesse no reino do céu, não tivesse vindido o sítio mode intrigas de partido, ó dispois da eleição do senador Cavalcante, entonce a coisa era outra. Mais o velho pega, e se hai de compô as coisas cos adversaro, que ele bem que lhe dixe qui cum política ninguém bota panela no fogo, que por adonde entre um sai dois, mais tarde ou mais cedo...

— Mas então o Silveira velho foi por isso que passou-se para Mossoró? Cortava o Secundino.

— E apois não foi? Mode non corrê sangue.

— Liquidou o sítio por pouco mais de um nada...

— Queimou, menino, que foi uma desgraça! Tinha enjeitado cinco contos de réis pela propriedade, e vai senão quando papocou por dois! Pagou o que devia lá, e largou-se com todo o rancho pra Mossoró, fez todo esse negoço sem dar satisfação a nenhum dos filhos...

Hoje em dia o sítio ia em bom andamento, e os filhos dos antigos senhorios trabalhando nele a jornal!

Viera a seca. No premero ano três vez se plantou três vez a lagarta comeu tudo; mas, pela graça de Deus, sempre houve uma ramazinha pros bicho. No segundo, nem quage pasto, legume nem pra meizinha. Que havia de fazê? Bateu pé pelo oco deste mundo, ca muié e os fio, e com quem quisesse mais lhe acompanhá. Ai menino! ele não lhe podia contá todo o sucedido, avexames e agonia, de que não queria se lembrar mais. Padecimento passado é logo esquecido... Chegara enfim ao Poço da Moita, adonde encontrou cristão de Deus.

— E quando o inverno segurou, depois de você estar aqui arranchado, você não teve vontade de voltar? - perguntou o outro. A gente na sua terra sempre está no que é seu.

— Vontade, munta. Quando as chuvas pegárum direito, a impreensão dos arretirante era só voltar pra trás.

Os que estavam ainda em marcha, como uns que ele ouvira ali, desejavam ter morrido antes nas suas terras do que se ter atirado assim pelos caminhos, comendo, e quando comiam! o pão que o diabo amassou. Casas como a de Seá Dona Guidinha topavam lá uma vez na vida. E acrescentava:

— Pela seca, antes ser-se bicho do campo do que cristão batizado, meu Sinhozinho! Arre! o que estes olhos viram!

O boi e o cavalo tinham quem os pensasse. Homem com homem, retirante com habitante, eram pior do que na história da cigarra que foi bater na porta da formiga. E exclamava, agitando a mão em um ímpeto nervoso:

— Ó menos se subessem lê!

Porém a esse respeito eram de uma ignorância triste. Não sabiam impor-se, nem falar cas pessoas; aquelas gentes do sertão, uma vez arredadas de seus hábitos, eram como um boi numa sala. Uns tontos!

— Nós era coma nego cativo. Pió! cuma cachorro sem dono. Bandoleiros por essas paragens de meu Deus.

No Crato, no Icó, em várias partes, os senhores da terra enxotavam a pontapés o mísero foragido, e pontos havia onde matar um retirante que se pegava furtando nas lavras era como derrubar uma daninha maracanã ou uma raposa ladra. Um grande embaraço, explicava ainda o rio-grandense, fora a filharia (que era a riqueza do pobre) tanto para o sustento como para as caminhadas. Aqui, vacilações, temores, que roubavam o tempo e confundiam o instinto. Antes de tomar para o Banabuiú - contava - quisera descer para o Aracati, e então embarcar para onde houvesse trabalho. Mas se lembrava que no barco, de que se contavam horrores, a meninada ia morrer toda. Não tinham mais fé no inverno; parece que o tempo seria aquilo mesmo para sempre. Mas haverá de ser o que Deus permitisse. Que sem a vontade do Homem lá de riba não cai uma folha de pé de pau. Se fossem os filhos grandes, ele teria navegado para o Aracati ou para a capital para aventurar a vida em outras paragens. Ao menos ia correr terra... Mas Deus Nosso Senhor permitiu - concluía - que viessem dar naquela fazenda do Senhor Quinquim Damião; e ficaram todos ali de morada. Foram ver palha na Varge das Bestas, distância de três léguas, cortaram madeira ali mesmo, e fizeram o seu ranchinho. Graças a Deus, a sua gente toda sabia lidar à satisfação do Seu Major e da mulher, que aquilo era mesmo uma Dona, senhora do que é seu.

Por derradeiro, o Secundino falou-lhe no serviço que ele podia prestar-lhe indo depor no processo, e combinaram que tudo se arranjaria da melhor maneira.