Dona Guidinha do Poço/I/V

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Primeiro, Capítulo IV


A Guida foi para um quarto de depósito, onde havia trastes velhos, malas, baús e, dependurados, vários cilhões finos e selins de montaria de senhora. Entrou a revistar um destes, que no dia anterior voltara de um empréstimo. Ouvia mais ou menos bem o que se passava lá fora entre o vaqueiro e o viajante. Este pedia que lhe arranjasse um bocadinho de leite, que estava seco de vontade; por assim dizer, não tocara nisso naquele ano.

— Vossa Mercê não se ofenda, mas primita que lhe diga, meu amigo, que leite se vende é do Batrité pra baixo, respondeu o vaqueiro. Néu, vai vê ũa cuia de leite pra este moço... Vosmecê se apeie: o patrão está na vila, mais a Dona me aturizou a ofrecê rancho a Vossa Mercê.

— Muito obrigado! disse o moço, pondo o pé no barro. E virando-se para o cargueiro:

— Seu Joaquim, vá seguindo, que eu já lhe pego. Antes de você alcançar a vila, estou-lhe nos mocotós.

— Ainda faltam as outras cargas.

— Olhe que é três léguas grandes, obtemperou o vaqueiro. Seus burros a onça está come não come.

O cargueiro, com prosápia:

— Não tenha medo disso, amigo. Estes mesmos não cansam já não, mas é o mesmo. Joaquim Moreno não é esta a premera vez que anda de viagem com esta nação de bicho, graças a Deus.

— Vá caçoando, vá fazendo pouco em burro, pacholou o vaqueiro.

— Vêm bem milhados, concluiu o Secundino.

— E as outras cargas? perguntou o arrieiro.

— Vá seguindo, eu fico esperando por elas.

O comboieiro, estalando o chiqueirador, falou aos animais, e palmilhou pelo caminho abaixo.

— Té outra vista, senhor.

— Seja feliz, correspondeu o vaqueiro.

Vinha o Néu com o leite; e o pai, entregando a cuia ao moço, reparando bem no seu todo e maneiras:

— Que mal prigunto, mó de que Vosmicê é negociante vendedor de fazenda e miudeza?

— Pergunta bem, ando mascateando por estes mundos. Desembarquei no Aracati...

Depois de uma pausa, pasmando, continuou o campônio:

— Corage munta! É corage, meu sinhozinho!

— Como assim?

— E apois? S'interrá por estes mundo de seca com cargas de negoço, não era eu, não... Como é a graça de Vossa Mercê?...

— Luís Secundino de Sousa Barros, um seu criado.

— Criado seja de Deus. Mas... como é o derradeiro nome?

— Barros, um seu criado.

— De Pernambuco?

— Da Mata.

— Gentes! Será parente de Seu Major? A mó de que inté nas feição dá uns ares! Quem sabe se não será?

— Como se chama ele?

— Joaquim Damião de Barros.

— Bateu! É meu tio. Pode pedir alvíssaras que atrás dele é que eu andava. Os parentes por lá há muito que não recebem cartas dele, e eu ia à vila, supondo que lá é que ele morasse.

— Abasta. Se arranche logo, que ali ó pôr-do-sol ele risca aqui no terrero!

O Secundino tomou o fôlego de satisfação. Que felicidade! Deus o protegia decerto.

Para ir perdendo a cerimônia, sem que o convidassem, foi sentar-se numa rede que ali estava armado, no alpendre. E entrou a bater com o chicote no cano da bota enlameada.

Entrementes, uma voz fanhosa e compassada, mastigada por gengivas sem dentes, pronunciou lá de dentro das camarinhas:

— Seu Antônio? Não deixe o moço ir-s'imbora! Faça ele se arranchar.

— Está ouvindo, seu moço? Eu vou fazer voltar as cargas pra trás. Foi Deus eu priguntá pelo seu nome! E fale da crisidade de muié... Néu, vai, manda voltar aquelas cargas. Vão subindo o tombador... Anda, home!

— Mas eu queria era ir logo ter à vila. O meu tio não está lá? - paleou o mercador.

— Tenha paciência. Ó dispois, primita que lhe diga, que é asneira vosmicê ir assim, batendo c'a cabeça pelas pedra, como lá diz... - Anda com isso, home! interrompeu-se, gritando para o filho. Vai, manda logo voltar essas cargas! - E de novo para o moço: Vosmicê fica, Seu Majó vem logo, é milhor, e mesmo assim mandam lá de dentro.

— E quem é aquela que falou?

— É Seá Dona Anginha, tia-avó da sua tia Dona Guida.

— Minha tia? A senhora de meu tio? Aquela que encontrei no curral?

— Inhor, sim, é Seá Dona Guidinha...

Como para recompensar a boa vontade com que o velho vaqueiro , que viu logo ser o mor da casa, lhe respondia, o Secundino fazia-se verboso, inquiria, comentava, dizia graças, tomava liberdades:

— Pois tenho uma tia de se lhe tirar o chapéu, meu amigo. Olha que o velho teve bom gosto!

E, como este, eram galanteios e otimismo para toda parte, a achar tudo muito bom e muito belo.

— Onde dormiu Vossa Mercê esta noite, seu... como é?

— Secundino, um seu criado.

— Criado seja de Maria Santíssima. Dormiu no Timbó?

— Não. Aqui cerca de meia légua. Onde tem uma cega...

— Ah, então foi na Goiabeira. Por lá é tudo gente agregada desta casa. Mais não lhe disseram que aqui era a fazenda do meu compadre?

— Eles por lá me falaram em Seá Guidinha... Eu não podia adivinhar, já mais quando supunha que as terras de um tio ficassem para o rio Quixeramobim.

— Istá bom, perfeitamente, ele tem também terra na rebera do Quixeramobim, mas só pra solta. De vacas, tem lá ũas vaquinha numa fazendola.

O rapaz corria o olho pela fazenda, na qual já lhe ia parecendo ter parte. Muito gado, em vista da falada crise. Os matos, é verdade, ainda ressentidos da sequidão. Devia fazer ali um calorão de rachar. Um cercado imenso a perder de vista, com uma verdadeira mata de pau-branco e sabiá, naturalmente para boiadas. Rio perto. Um numeroso lote de bestas atravessando uma vargem distante. Atmosfera agradabilíssima, um vago encantamento naquela natureza silenciosa e iluminada.

E, dando corda ao pessimismo conformado do matuto cearense escaramentado, ele, pernambucano, sentia-se confuso pisando em aquelas regiões sertanejas, que pareciam palpitar d um sentimento e de uma alma.

O matuto respondia-lhe que, ele visse, tudo ainda estava uma lástima. Estava vendo naquela baixa aquele tijuco preto? Pois era uma lagoa que em 25 não secou.

— Mas podia ter sido, daí, aterrada a pouco e pouco, no correr do tempo, objetava o outro.

— Qual, meu branco honrado! Quando Deus Nosso Sinhô não qué... Isso é como a morte, que sempre tem uma desculpa prá roubá um pobre pai de famia.

Secundino olhava pela janela para o interior da casa, tendo ouvido a fala da senhora que encontrara na porteira do curral.

Com pouco a escrava Luísa, atravessando a sala, conduzia em uma bandeja um serviço de café para uma pessoa, desceu para o alpendre e parou diante dele.

— Senhora disse que não reparasse.

Que ele não reparasse? Ora esta! Dissesse à sua tia que ela é que não devia reparar na gula com que ele ia meter-se naquela opíparo café com pão-de-ló.

Pegava na xícara de porcelana, e no bule de prata. Vinha leite fervido em um boião. Não eram peças de um aparelho, e sim desencontradas, cada qual mais valiosa e rara, desses objetos que são como certas quadras de pé de viola, pequeninas preciosidades, que no sertão passam de avós a netos, ficando fora do uso mundano.

O Secundino serviu-se à farta como quem vinha negro por um decomerzinho delicado, com o paladar cansado dos fervidos de comboieiro.

Lambeu os beiços. Depositou a xícara na bandeja com uma pilhéria para a escrava, que via logo ser de estimação; e, puxando por charutos, oferecia ao vaqueiro. Este, aceitando, esmagou o seu na palma da mão e embuchou no cachimbo.

— Traga um foguinho, comade Luísa. Mais porém, senhô moço, eu cuma nunca me meti nestas função de negociá, não juro pelo que digo, mais eu acho que o tempo tá munto ruim pra esse mister no sertão. Lá vem o Néu cas carga, felizmente. Agora Vossa Mercê daqui a pouco vai para o seu quarto... É aquele ali. Ali é que se arrancham aqui essas gentes cuma Vossa Mercê que passam por aqui...

O Secundino, sem escutar ao outro, lançava um olhar para aquelas cercanias silentes, acordadas apenas pelo grito de uma ave, pelo berro de uma rês. Pousado o corpo, alegrado o espírito pela descoberta do tio ricaço, respirava agora todo o pitoresco daqueles sertões, na sua muda solenidade.

Passava no ar a alacridade de um bando de periquitos.

O tropel dos burros galgava o pátio.

Ao mesmo tempo, chegavam os que tinham ficado atrás, tangidos por dois escravos.

Postas as cargas abaixo, a Luísa apareceu lá numa porta aberta sobre o alpendre, e veio dizer que naquele quarto ali stava rede, água, e o mais para descansar.

O vaqueiro acompanhou-o e lhe puxou as botas; e, despedindo-se para ir para o campo, lhe fez ver que não se pusesse com cerimônias, que o que quisesse pedisse, que podia estar certo de que estava em sua casa, que a Seá Dona Guidinha não era de meias medidas.