Dona Guidinha do Poço/I/VIII

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Primeiro, Capítulo VII


Dar hospedagem era um prazer para aquela gente no isolamento rural em que vivia, como ao fino cavaleiro a prática de uma finezaou o regalo de um bom cavalo. Emprestavam até uma certa superioridade a quem vinha de fora, numa simpleza de costumes antiqüíssimos. As secas e o progresso têm, porém, apagado já algum tanto semelhantes singelezas de gente forte. A seca faz o retirante, esse ilhota.

O próprio bonacheirão do Quinquim uma vez mandou chegar um ao moirão porque o vira pular de uma roça com um saco de mandiocas. A Guida, mãos rotas, que fazia derramar ancoretas de vinho nas suas festas, senhora de suas ventas, essa era extremada no proteger ou no perseguir. Pelo dito Silveira, um dia fez também cortar a facão os cachos de um cabra de Lavras de Mangabeira, mais aventureiro que retirante, que bulira com uma escravinha de estimação. No seu temperamento e educação via com bons olhos a chegada de Secundino, cuja má qualidade de parente do marido se perdia na de hóspede.

Verdade seja que por ocasião do assassinato do seu cunhado Belmiro, de Mossoró, o Quim falou-lhe num sobrinho, enteado da vítima. A mãe de Secundino fora casada com dois irmãos, e do moço dizia, segundo o que as cartas rezavam, ter tido parte no crime na qualidade de cúmplice.

E parecia-lhe dever ser aquele, visto como o tratavam pelo nome de Dino em as referidas cartas. Mas que tinha isso? Em todo caso seria um perseguido da justiça, um fraco. E sendo assim, ela até estava disposta a exigir do marido coração à larga e homizio para o criminoso. Belmiro era seu irmão. O rapaz quis que o matassem? Na verdade era duro de roer. Mas enfim, ficava tudo no mesmo sangue... E, além disso, que haviam de dizer de Dona Guida quando soubessem que negara patrocínio a um réu que lhe viera bater à porta?

Qual a causa da rixa de Dino com seu tio e padrasto Belmiro? Sobre este ponto o Quim não lhe dissera nada, as cartas guardavam silêncio. Então? Podia ter sido até algum ponto de honra. Nestas cogitações recebia ela o marido, que voltava do povoado. Ali à boquinha da noite.

Secundino passara o dia satisfeito. Ao recolher-se do banho, tossira, e sem demora a negra Luísa, com a sua carapinha bem entrufada e vistosas pulseiras, apareceu-lhe com um copo de leite fervido. Mais tarde, quando o moço acabava de barbear-se, vinha o Anselmo chamar para o almoço. Antes de ir, Secundino passou uma vista em si e consertou o cabelo ao espelho.

A sala de visitas era mobiliada com rigor. Canapé, cadeiras, mesas com pés de talha. Nas paredes, caiadas, nenhum retrato. Um registro de Santo Antônio e outro de Santa Margarida de Cortona.

Na orientação em que era construída a vivenda, o sol não se derramava por ela com franquia; mas vinha do interior, com o cheiro de leite azedo, peculiar das fazendas em tempo de inverno, um aroma de bálsamos agrestes, que o vento trazia, e o bafo confortante da boa carne assada na brasa. O corredor, onde, para cada lado, cerravam-se duas portas, desiguais e sem simetria, era algo escuro. A sala de jantar seguia-se logo.

Quem foi o Secundino encontrar para lhe fazer companhia? O vaqueiro, o Seu Antônio.

— Para aqui, Seu Moço, desta banda é mais fresco.

— Oh, meu caro Senhor! exclamou o rapaz, puxando a cadeira que lhe oferecia. Se não me engano é o mesmo cavaleiro que me fez as honras da chegada, não?

— Inhor, sim. Antônio Moreira e Silva, um criado de Vossa Mercê.

E como, na sua perspicácia de cearense, conhecesse um ligeiro desdém por parte do mancebo em sentar-se à mesa com um vaqueiro, acrescentou:

— Sou dos Moreiras do Quizelô, não sei se Vosmicê já ouviu falar...

O Secundino porém estava encantado com o sabor da carne e da farofa de nata. E semelhantemente foi o jantar. Quando o Major Quim chegou, estava ele numa rede do alpendre, com os olhos para o descampado, onde se iam esbatindo as primeiras sombras da noite.