Dona Guidinha do Poço/I/IX

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Primeiro, Capítulo VIII


As vacas tinham recolhido ao curral com o bucho a impar. Os garrotes, do lado de fora, davam-se a exercício, experimentando forças como se estivessem brigando deveras, naquela satisfação de rapazio nédio. Dois novilhotes acabaram em briga séria, levantando poeira no tropel da luta. Ouvia-se o grito estrídulo dos capotes, para detrás da vivenda, áspero como lixa, selvagem como o maracá.

Lembrava a agrura dos penedos torrados do sol, que rasgavam o verde manto da terra farta de inverno.

O Néu correra o último paui da porteira. No vaquejador, para a banda da Serra do Papagaio, apontaram dois homens, um encourado e um empanado, e uma carga.

— M'pai, diz o Néu, aí vem Seu Majó.

A esta voz, Secundino, que ouvira do alpendre, olhou. Ainda vinham distante. Começaram a desaparecer por um momento na passagem do rio.

— Deixa vir, fez o Seu Antônio, que atentava para os bandos de criação que subiam a tomar para o lado do chiqueiro.

Um novilho gaiteava na catinga, aproximando-se.

— Agora é que tu vem, diabo véio! gritou o Néu.

E depois:

— M'pai, fale a Seu Majó pra se beneficiá o Muniz. Lá vem ele. Aquilo não presta senão mais pra chamurro.

E entrou a aboiar, trepado na porteira. Ao som prolongado e contínuo, o gado punha-se à escuta. O jovem ergueu-se da rede. Produzia-lhe aquilo um efeito vivo, verdadeiro gozo poético. A voz do vaqueiro serpeava como o rio, e tinha como este marulhos e frescura. Sussurrava como as árvores, e lembrava o cheiro acre e a salutar monotonia do verde. Ia indefinidamente, cálida e aguda como um raio de sol, e retraía-se como o sol quando passa uma nuvem. Parou. Depois recomeçou.

No jovem civilizado vinha à tona, com aquela toada rústica a nostalgia do bárbaro e do selvagem. O homem primitivo lhe emergia de dentro, lá se ia o cérebro ruminando fantasias imensas como o tempo, em mundo de deleite, num torpor de sonho.

O cavaleiro empanado riscou enfim no terceiro, e mais atrás o outro puxando pelo cabresto um burro de carga. Apeou lesto o segundo, e se foi para o Senhor a segurar-lhe no estribo, pegando ao mesmo tempo nas cambas do freio. O Quim, pesado, se desmontou, fazendo ranger muito a sela. E ao dar com a estatura do hóspede de pé na varanda:

— Ó Naiú, quem é aquele?

— Não sei, Nhor, não.

O Quim avançou lento, encarando para o estranho.

— Gentes! Que vejo? Será mesmo o Dino? - exclamou, abrindo uma cara de pasmo.

— É ele mesmo, tio Joaquim, todo inteiro! - respondeu o moço, caminhando para o fazendeiro.

— Oh! meu filho, você por estes mundos?

E abraçaram-se com comoção.

Quando chegou? Quantos dias gastou na viagem? Como ficou tudo aquilo por lá? - e mais quanta inquirição e interjeição de semelhantes momentos. O Quim, notando certo embaraço no sobrinho, atribuía-o ainda ao fato longínquo da morte do irmão, procurava no zelo da hospitalidade mostrar-se todo generoso. À porta da sala, a Guida esperava-os na soleira, com ar de quem quer falar; e por trás dela, a velha Dona Anginha, com os óculos de ouro abaixo das cangalhas, quase já na ponta do nariz, com aspecto de cão que fareja.

O Seu Antônio interrompeu a cena, vindo perguntar se o amo consentia em beneficiar-se o Muniz.

— Vá, Seu Antônio! - determinou-lhe a Guida com certo enfado. Beneficie o bicho e faça o que quiser mais.

Nessa noite, nada se conversou do objeto daquela viagem. O tio, pelo carteamento que tivera com os irmãos, pegara a coisa por alto, e não queria arriscar palavra sem primeiro conchavar com a Guida. Era um parente seu, e queria evitar que pelo tempo adiante ela pusesse mais alguma em rosto. Havia tanto que estava afastado dos seus e da sua terra, que as horas se passavam presto em perguntas, histórias, e o mais.