Dona Guidinha do Poço/I/XIII

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Primeiro, Capítulo XII


À tarde, estiou de todo.

No dia seguinte apenas chuviscou pelo meio-dia.

De manhãzinha, fazendo frio, Guida já dava ordens no alpendre, com o seu cabeção de rendas, cabelos soltos, apesar do pente marchetado de ouro enfiado ao pé da touceira abundante. A porta do quarto do Secundino ainda estava fechada.

As cabras berravam muito no chiqueiro, e a matrona ordenava que as despachassem logo. E acrescentou:

— Hoje mesmo quero que tirem o esterco daquele chiqueiro. Já está fazendo quezília aos pobres dos bichos. Ouviu, Naiú?

— Inhora, sim.

— Não deixem leite de cabra para o almoço, não. Diga à Margarida: botem todo o leite de cabra para fazer-se queijo. Hoje o dia é seco, o tempo está levantando, podem fazer queijo do melhor. Façam requeijão para Seu Saturnino levar, ouviu?

O gado ganhava o pasto, mais senhor de si. Para todos os lados, nas depressões, viam-se aquelas natas de bruma, que ao lento do sol se distendiam, imperceptivelmente; ali um pedaço de rocha, acolá uma árvore, ainda emergiam da superfície delicada e sutil daqueles frios vapores, que iam subindo, subindo. A casinha do Silveira mergulhava num lago de névoas. Bandos de maracanãs passavam com um alarido, e assim os periquitos.

— Vão, diabos! gritava-lhes o Néu. Vão acabá co mio dos roçados, peste!

O Quim, friorento, aparecia à porta com a sua xícara de café:

— Secundino já acordou?

— Não - respondeu a Guida. Quim, você precisa mandar vir madeira para endireitar aquele curral. Aquilo não tem jeito: no dia em que meter lá uma boiada, a cerca vai ao chão.

— Já disse ao Seu Antônio que mandasse vir a madeira que está na Lagoinha, e acho que o Martins foi... Escuta, estou ouvindo o carro.

— Então deve ser ele... É ele mesmo.

Realmente, rio abaixo, esmorecia de mais a mais o chiar de um carro de bois.

Quando o velho pêndulo da sala disparou as suas nove horas, no tímpano fanhoso, fazia um sol quente e devastador.

Decididamente, à tarde o Secundino partia. Não quis deixar para o dia seguinte, apesar dos protestos da dona da casa. Efetivamente, partiu. Foi no Marreca. Saíram esquipando, que era um gosto, ele e o tio, as cargas tendo seguido uma hora antes.

Guida passou o resto da tarde no alpendre, parolando com a Carolina, que por seu lado estaria com saudades do seu marido, àquela hora talvez já arranchado em Mossoró. Quando ele chegasse, dizia, já havia de achar as duas casinhas dos cunhados levantadas, que os irmãos estavam trabalhando nelas com vontade. Uma casa só não era possível para tanta gente. Familião, que eles tinham! Guida noticiara-lhe que logo que o Silveira estivesse de volta mandava-o tomar conta das bestas e outros animais. E de pé, segurando na corda de laçar, feita de relho, que se esticava por debaixo do beiral, balançando com o corpo, como se em cuidados estivera, atirava para a paisagem um olhar, que se podia materializar em um lanço de tarrafa; e abaixando-o, puxando-o para si, como despencava estas palavras palpitantes que se debatiam asfixiadas:

— E, mulher, você quer bem a seu marido?

— Quem? Eu, Dona Guidinha? E a quem hei de querer senão a ele, que recebi no pé do altar?

O rebanho das cabras subia para o pátio, berrando, cabriolando, com um pelizito fino e lustroso, e as ovelhas, caladinhas, ao balar dos cordeiros, cerravam-se contra as outras por entre as ervas e pedregulhos da baixa.

— Olhe as ovelhas como estão poucas, Seá Dona Guidinha.

— Desnortearam com as trovoadas de anteontem: devem estar no Riacho do Meio.

E como o Seu Antônio se aproximava, vindo do campo:

— A onça ainda apareceu, compadre? - inquiriu, falando alto.

— Inhora, não, disse o vaqueiro, apoiando-se à portinha de sua casa, que era vizinha à vivenda, para o nascente. A onça que tem dado na criação é a onça de dois pés. Não sei que lhe diga sobre esses senhores arretirantes. Deus me perdoe qui também ainda um dia também posso mi vê nas mesmas circunstâncias, mais só si fô castigo de Lá de Riba.

Carolina doeu-se da indireta:

— Apois, meu Senhozinho, lá por casa ainda, graças a Deus, não entrou bode furtado...

— Quem lhe disse isso, mulher? Com efeito! - ralhou a Guida, sentando-se na rede armada ali no alpendre.

— Não, Seá Dona Guidinha, vão levantá farso ao Cão! A gente, porque somos de fora, não hai de pagá calúnia assim, não, mais Deus é grande.

O vaqueiro entrara para sua casa, depois de tirar a sela do cavalo, que soltou.

Carolina agora dizia:

— Seá Dona Guidinha sabe a história dos cinco muitos?

— Como?

— Dos cinco muitos?

— Não sei, não. Conte lá, se sabe.

A narradora, como o geral dos roceiros, falava sempre muito alto, num entono impossível de representar com os sinais da nossa escrita. Contou ela:

— Uma vez um capitão de navio, muito rico, andava correndo terras in procura de uma moça para com ela se casar, porém queria que a moça tivesse cinco muitos: que fosse muito pobre, muito bonita, muito alva, que soubesse muito ler e muito coser. Um dia, saltando num povoado, achou uma donzela como ele queria, e foi ter na casa da mãe dela. A famia da moça arrecebeu ele muito bem, ofereceu café, e ele foi logo pedindo e obtendo a mão da donzela, que era uma criatura formosa como Nossa Senhora da Conceição.

Mais a moça possuía um namorado, que ficou desesperado com ela por mó disso. Este sujeito pegou fez-se muito amigo do estrangeiro, beberam muito, e lá num ponto cochichou no ouvido do homem que aquela moça, que ele ia arrecebê pelos santos sacramentos do matrimônio, fazia isto e aquilo outro, que era dele há muito tempo; enfim, alevantou tanta difamação, que o capitão não quis mais sabê de casamento e antes de amanhecê o dia embarcou, largou-se e foi-se imbora.

Passado tempo, morre a moça. O sujeito principiou a passar muito mal cos remorsos porque na hora da morte dela não tinha ido pedir perdão a ela. Ficou tão atormentado, que foi pedir ao vigário que pelo amor de Deus lhe valesse. O vigário respondeu que quando fosse de noite entrasse na igreja e ficasse lá rezando inté o rompê d'orora.

Ora, o pobre coitado foi. A igreja estava no escuro, e ele trancou-se por dentro, com um medo muito grande; mas porém fazia das fraquezas força. Já tinha rezado cinco rosários quando bateu meia-noite. Ele ficou todo arrupiado cas badaladas do relógio. Antes do relógio acabar de batê, abriu-se um relampo, debaixo do chão, cum trovão terrível. Ao depois, debaixo do altar-mor saiu uma lama toda resplandecente, e foi assentar-se no mocho adonde os padres sentam na missa cantada. Ele reconheceu o rosto da moça, não sei cumo foi que perdeu o medo. Aqui ela vai, pega na campainha e toca. Antão saiu um padre debaixo do chão, vestido como se fosse pregar, e caminhou para ela, ajoelhou-se chorando, beijou a mão dela, e desapareceu.

Cum pouco ela bateu de novo na campa. Antão saiu foi um bispo todo paramentado de prata e ouro. Na mitra só tinha briantes, e o anel era mode que uma estrela, e se ajoelhou chorando nos pés dela, e desapareceu.

Ao depois, ela tornou a batê a campainha, como se estivesse levantando a Deus. Daí a um pedaço o chão tornou a se abrir, que saiu de dentro aquele fogão que parecia uma coivara, e muita cantoria como nunca se ouviu no mundo. Aí, foi subindo um arcebispo, que parecia um santo, com uma batina vermeia como Nosso Senhor dos Passo. Ele disse umas palavras de missa, ajoelhou lavado em lágrimas, nos pés da moça, beijou a mão dela, e os anjos foram carregando ele pro céu, com uma fumaça de incenso.

Entonce o sujeito se alevantou chorando de arrependido pelo farso que havia levantado a ela, se ajoelhou aos pés da alma, e foi fazendo menção de beijar também a mão dela cumo os três sacerdotes que desapareceram. Mas uviu-se um estouro muito grande, e o caluniador caiu coa língua torada.

De menhãzinha, quando o sancristão foi abrir a igreja, achou-se então um cadáver sem língua, estirado no chão, e uma voz disse do altar pra todo mundo ver: que se aquela moça tivesse casado co capitão do navio havera de ter três filhos pra Deus Nosso Senhor: um havera de ser viário, o outro bispo e o outro arcebisbo; e que entonce o levantador do farso era ladrão, ladrão, ladrão, que só se salvava com três vezes perdão.

— É por isso que se diz: Antes com pena sentir, que sem remédio chorar.

— Acabou-se?

— Inhora, sim. Assim digo eu: ninguém me alevante farso, pruque há de pedir três vezes: Perdão! Perdão! Perdão!

— Mãe Ângela há de saber essa história com toda a certeza.

O sol desaparecia para o lado do Boqueirão. Por debaixo das umarizeiras e das opulentas oiticicas aparecia a água das poças deixadas na baixa pelas chuvas, empurpurecida pela claridade moribunda, e mais longe, para o serrote, uma enorme ribanceira de granito, do meio do verde ensombrado, acendia no cimácio uma torrente de fosforecência de malacacheta, a escorrer para o escuro de uma cavidade.

— É bonito, hem, comadre Calu, aquele vermelho cor de sangue?

— Aquilo? Amenhã chove atra vez.

— E aquele rochedo acolá? Parece de prata, hem? Sabe quem apreciaria muito este espetáculo? O Secundino.

— Era mesmo. É meio bobo, gosta de certas bobage.