Dona Guidinha do Poço/I/XII

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Primeiro, Capítulo XI


Março findara com três dias de aguaceiro.

Sábado, 8 de abril, meteriam o pé no estribo para a vila. A casa ficou pronta na terça-feira. O Secundino não tinha mais do que chegar, arrumar as mercadorias na prateleira - e toca a vender.

A 3 de abril, porém, a chuva roncava de novo.

A lama no curral engolia já até ao meio da canela. Por mó disso, os bezerros começavam a repugnar quando lhes chegava a vez, a eles, tão ávidos em correr para as mães. Como se o atoleiro mordesse, as vacas sacudiam o pé freqüentemente, com o que os tiradores de leite se danavam, desandando murros nas pobres. Também, ao menor descuido, lá os diabos faziam virar a cuia, às vezes já cheinha de leite!

O gado buscava o limpo, e não perdia uma abertazinha de sol. No dia 7 a chuva batia já pela manhã, e a 8 vinha à hora do almoço. Uma tolice fazer viagem com um tempo daqueles, sem maior precisão. Ficaria para domingo, para segunda, para terça-feira, quando Deus quisesse, que o Secundino estava em casa - dizia a Guida. Ir-se com semelhante lamaçal era tentar a Deus. E uma pessoa que não estava acostumada com o sertão!

O marido concordava, e Dona Anginha abodegava para o moço que não se avexasse, que a chuva era um bom sinal para os seus negócios... O rapaz mostrava-se um tanto contrariado. Quando tinha de fazer uma coisa queria fazer logo, senão passava o gosto.

Com o tempo fechado, a vida do interior tornava-se mais íntima e animada. Ficavam mais tempo à mesa, achando prazer na convivência, e tinham mais vontade de comer. Lá fora, ou o ruído da água e do vento, ou a claridade pondo um encanto no relevo da paisagem vicejante e lavada.

Era o dia de São Secundino, e enfim ele se resignava. Ao almoço, paçoca. O dono da casa, à cabeceira, de frente para a janela aberta sobre o sertão. A paçoca estava demasiado gorda.

— Bote farinha, Secundino. Você não tem estômago de sertanejo para agüentar semelhante gordurame.

— Na verdade, por favor passe-me a coité, Dona Anginha... Mas me admira como é que se come tanta gordura assim!

Era saboroso, mas enjoava. Ora a paçoca chegava a estar ensopadinha daquele modo!

— Eu só estou a ver como a Dona Anginha... - admirava ainda o hóspede.

— Esta mãe Ângela come o tutano de um boi!

— Credo! Não digas isso, menina. Só porque eu não sou biqueira como ela...

— Eu, biqueira, Mãe Ângela? - replicou a Guida, a despejar vinho nos copos. Isso é ali com o Quinquim.

— Declino da honra, transfiro-a aqui ao meu sobrinho, que os filhos do Cesário a ele puxaram, invariavelmente. Aquilo era um dengo...

— Não nego, meu tio, a herança paterna. Mas garanto-lhe que hei de ir abrindo aqui neste monte de paçoca uma brecha formidável. Desde que principiei a respirar estes ares que estou vendo que rôo os guardanapos de Santa Apolônia.

Entrava na sala um vento úmido e aborrecido. O Quim, com cuidados no sobrinho, vira-se para a cozinha:

— O vento está do Sudoeste... Fecha aquela janela, Anselmo, que está salpicando.

Todos olharam para fora. A chuva esmorecia. Para a varanda, sobre a vista do quintal, fios d'água caíam iluminados num banho de luz solar.

— Chuva com sol!

— É que as nuvens estão passando do Norte para o Sul.

— O que é que quer dizer chuva com sol?

— Casamento da raposa com o rouxinol.

Riram.

— Deveras...

Veio a fritada. Depois, lingüiça de vaca, jerimum com leite, coalhada escorrida e requeijão.

— Um vidão, minha gente! Bote bucho aqui, Dona Anginha! Só esta coalhada escorrida, este café com leite...

— Faça o favor de não reparar - fez a Guida - se não lhe tratamos melhor. Aqui pelos matos não se encontram os recursos de lá...

— Pelo amor de Deus, minha tia! Os recursos de lá por lá se fiquem. Neste caso voto pelos de cá.

— A falar a verdade, no sertão o passadio pelo inverno é muito superior - acrescentou o Major. Pela seca é que são elas. Guidinha, manda vir fogo para o cachimbo.

O Quinquim fumava logo em cima da comida; por sua parte o sobrinho acendeu o seu charuto, e a Guida, que não queria pitar diante do praciano, retirou-se para o seu quarto. Dona Anginha usava mecha na venta; naquelas circunstâncias, porém, fungava antes o seu simonte, da bocetinha de tartaruga. Entrara um pouco pelo vinho, no que o hóspede lhe fizera boa companhia. Uma digestão alegre. Dona Anginha a dar trela. O calado do Quim também não estava de língua pegada.

Dona Anginha a insistir que aquele tempo chuvoso era bom sinal para o comércio do parente. Ela já o chamava meu parente Secundino. Deitou a informar acerca do povo da vila, no que teve de sustentar contestações com o Major, que também queria entender da vida alheia. E remontaram aos princípios do lugar. Um, que a vila fora criada no tempo de D. José, e o outro, que no tempo de Dona Maria I. Para desempatar a questão, a velha ergueu-se e, com a sua corcunda, foi buscar uns papéis do mano padre. Era um in-fólio com capa de couro mal colada, atado por uma fitinha. Para o moço:

— Veja o que diz aí, menino, que o mano padre, que Deus tenha na sua Santa Glória, aí escrevia de um tudo. Veja lá. Deve dizer pelo claro.

— Ca maçada! - pensou o rapaz consigo. E alto:

— Deixe-me ver lá isso.

— Que belezas não há de ter deixado por essas bandas o Reverendo Costinha! Veja se fala da Constantina... É dos republicanos de 1824. Quando fores para a vila, não te esqueças de ver no arquivo da Câmara o auto do levantamento das bandeiras imperiais. Uma vergonha para estes cearás. Pernambucano mesmo não fazia aquilo não... Não vê!

— E o que diz lá isso?

— Eu já não me lembro bem... É melhor veres lá, quando fores - concluiu o Quinquim, meio zonzo.

O Secundino continuou a virar folhas. Por fim parou:

— Oiçam lá, disse. Eu vou desempatar:

"Da representação que Vossa Mercê me dirigiu em dez de janeiro próximo pretérito a respeito de quanto seria útil ao sossego público, administração da Justiça, e ao Real Serviço, que s'erigisse em vila a povoação de Cajazeiras para nela se recolherem os vadios que como feras vivem espalhados pelos sertões, separados da sociedade civil, cometendo desordens, e toda a qualidade de delitos, que as Justiças não podem coibir por lhes não chegar a notícia ou chegar a tempo tal que as averiguações são frutíferas; quando pelo contrário com a criação da dita vila se obrigarão a recolher nela os vadios para trabalharem, promover-se-ia o castigo aos delinqüentes, adiantar-se ia a agricultura, e se aumentaria o comércio; nesta certeza e pela faculdade que sua Majestade me permite na Real Ordem de 22 de julho de 1666..."

— Não será 1766?

— Isso não sei, menino. Isso é carta do Governador da Capitania...

— Lá do meu Pernambuco. Era... D. Tomás José de Melo... 20 de fevereiro de 1789, carta ao Ouvidor da Comarca do Seará, Dr. Manuel de Magalhães Pinto e Avelar de Barbedo... Homem! a coisa no outro tempo era mesmo um terror. Por isso é que se davam aquelas lutas de Feitosas e Moirões, e o diabo a quatro! Ora, veja o que diz o Rei D. José I, na tal de Ordem Régia ao Conde de Vila Flor, Governador e Capitão-General da Capitania de Pernambuco e Paraíba. É bem frisante na verdade.

— Ainda hoje há tantos que vivem debaixo do cangaço! Dos Cariris, dos Inhamus, de Pajeú de Flores, e até por aqui mesmo.

O Secundino leu:

"Sendo presentes em muito repetidas queixas os cruéis e atrozes insultos, que nos sertões dessa Capitania têm cometido os vadios e os facínoras, que neles vivem como feras, separadas da sociedade civil, e comércio humano; sou servido ordenar que todos os homens, que nos ditos sertões se acharem vagabundos, ou em sítios volantes, sejam logo obrigados a escolherem lugares acomodados para viverem juntos em Povoações civis, que pelo menos tenham cinqüenta fogos para cima, com Juiz ordinário, Veriadores e Procurador do Conselho; repartindo-se entre eles em justa proporção as terras adjacentes: E isto debaixo da pena de que aqueles que no termo competente, que se lhes assinar nos Editais, que se afixarem para este efeito, não aparecerem para se congregarem e reduzirem a sociedade civil nas Povoações declaradas serão tratados como salteadores de caminhos, e inimigos comuns, e como tais punidos com a severidade das Leis: Excetuando-se contudo: Primeiramente..."

Aqui chegava a Guida:

— Muito bem. Não lhe gabo o gosto, meu sobrinho. Lendo livros velhos e agüentando as maçadas de Mãe Ângela! Continue. Também quero ouvir esses sermões do tio padre.

— Não são sermões. É o nosso passado, quero dizer, o do povo destes lugares, que bem sei que havia de haver homens abastados, de sangue limpo, boa moral e benquistos. É um traço de história da ralé, de que tenho a honra de vir em linha mais ou menos reta...

— Menino, lê lá, e deixa-te de lábias de labaral.

— Você não tem medo do Tinhoso com isso? Quem lhe disse que seu sangue não é limpo? Não será o mesmo do meu marido?

— Limpo sou porque me lavo. Eu sei lá! Isso de sangue é dinheiro.

— Dinheiro é sangue! disse o Quim.

— No fim dá certo. Tanto faz dar na cabeça como na cabeça dar...

"Primeiramente, os Roceiros, que com seus criados, escravos e fábrica de lavoura vivem nas suas fazendas sujeitos a serem infestados daqueles infames e perniciosos vadios..."

— Cujos dignos descendentes constituem hoje em dia o grosso dos votantes.

— Não interrompa, vá de fio a pavio.

"Em segundo lugar os Rancheiros, que nas Estradas públicas se acham estabelecidos com os seus ranchos para a hospitalidade, e comodidade dos viajantes, em benefício do comércio e da comunicação das gentes..."

— E assim devia ser.

— Muito bem.

"Em terceiro lugar as Bandeiras ou Tropas, que em corpo e em sociedade civil e louvável vão aos sertões congregados em boa união, para neles fazerem novos descobrimentos..."

— Eu quero ver é onde fala em D. Maria I - disse a velha. Eu sei que era ela, ora se era! Ouvi muitas vezes com estes ouvidos a meu pai, que até assistiu ao levantamento do pelorinho.

O papel estava bastante encardido. Os caracteres muito rabiscados, cor de ferrugem, nas páginas seguintes desapareciam quase.

— Não se pode ler o resto - fez o moço, com olhar míope. Xi!... Impossível. Aqui ele mudou de tinta, é péssima. Vamos ver adiante.

— Veja bem! reclamou o Quim.

" - Autuação do edital de convocação... da carta do Governador... da Ordem Régia. Em seguida o Ouvidor fez uma fala ao povo... Termo de levantamento do Pelourinho... com as pessoas já ditas e a maior parte do Povo convocado a toque de sino, e comigo escrivão de seu cargo..."

— Está difícil.

— Veja, Senhor, que a coisa está aí - teimava a velha.

"O Meirinho Geral da Correição, José Januário da Silva, em voz alta e inteligível gritou três vezes Real Real Real viva a Rainha Fidelíssima de Portugal Dona Maria Primeira, Nossa Senhora, as quais palavras..."

Um frêmito de satisfação subiu do nariz da velha:

— Eu não disse?! Eu não disse?! Dê a ele para ler. Leia com os seus olhos, Quinquim. Era ou não era Dona Maria Primeira?

— Pois era, Senhora. E que interesse tenho eu lá nisso? Era, pois era. Está acabado.

E com um ar sonolento retirou-se o Major para a sala, onde se espreguiçou no canapé.