Dona Guidinha do Poço/II/IV

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Segundo, Capítulo I


Dois dias depois, o Major Quim teve de ir ao Padre João Franco, chefe do partido. A Guida fizera ver a necessidade de escrever-se aos correligionários de Mossoró no sentido de embaraçarem a expedição de mandado de prisão contra o Secundino. Bem sabia que, mesmo em vindo, o mandado não se cumpria porque eles não queriam; mas em todo caso não se devia tentar a Deus, que diz: Faze, que eu te ajudarei.

— O Padre já sabe de alguma coisa? - perguntou o marido.

Ela supunha que não. Ele que o pusesse a par; não havia nisso nenhuma inconveniência. E, depois, mais dia, menos dia, tudo havia de andar de boca em boca, e ninguém podia arrolhar os outros, porque abelhudos não faltavam.

O Quim largou-se com a exposição na ponta da língua. Na verdade a Guidinha tinha razão. E, pronto o cavalo, montou e foi para a vila.

A Guida manifestava, naqueles dias, um semblante radioso. Não pegava numa agulha. O seu gosto era andar pelo quintal e pelo cercado. E, logo em maio! O império do aroma e da cor, das formas delicadas e dos segredos do pólen, a idade núbil daquele infinito de flores, que marejavam, que fervilhavam, que titilavam, palpitava por toda a parte, nos matagais, na relva, no pasto, onde quer que houvesse uma folha.

Olhava para o Norte, onde, ao longe, bóia vermelha em mar de verdura, um telhado indicava o caminho da vila. Ali ficava o Arão com a sua vendinha de beira de estrada. Aquele Arão era um tagarela.

Para além, para além, verde e verde; e, por cima, o anil do firmamento, ainda toldado uma vez por outra.

Já não era aquele abril que fora o mês de chuvas mil, tudo só verdura, sem flores, sem o buço da puberdade, mês da despreocupação e imperícia da meninice nos garrotes e nos rebentos. Era maio agora, despejando a cornucópia dos germes.

A Guida agora por qualquer coisa mandava à vila. Fossem dizer ao Secundino isto assim e assim, que comprasse isto e aquilo, que arranjasse aquilo outro...

O Seu Antônio já andava dizendo que o Silveira tava virando lançadeira, de tanto ir e vir:

— Bem ele o diz qui ninguém firme a vista pra sapo, mode magnitismo! - rosnava o vaqueiro. Artes do Cão! Apois o diabo não diz que um dia um sapo magnitizou a muié no açude e qui a muié caiu pra trás? Ah! cabra, tu é mesmo mais é um cururu dos infernos! Ainda bem qui tu diz qui quem matá sapo mate bem morto, porque senão o sapo vai secando e a gente também... Haverá de te dá o bicho da itiriça! Diabo que te mate, língua de briba! Mais quem fô neném que s'ingane cuntigo: pelos picos se vê a altura do monte. Este diabo come a pobe da Seá Dona Guidinha por um pé!

Assim murmurava constantemente o vaqueiro.

Um dia por outro o Silveira entrava em sua palhoça com embrulhos debaixo do braço, ou caixas, que trazia da loja do Secundino, onde tinha ordem franca:

— Seá Dona Guidinha tá acabando ca loja do moço! - dizia ele para a Carolina. Por aqui não hai mais ninguém nu e nem com fome. Assim é qui é vê-se uma Senhora de benção. Deus Nosso Sinhô é de concedê tudo qu'ela deseja!

— Mas entonce eu não dizia? Meu véio, a pinta do ôio dela non m'imganava!

E a Carolina, de cócoras cercada da filharada, desatava os embrulhos. E olha lá que exclamações de alegria, umas sobre as outras!

— Home! Chega vem de um tudo!

E o que o Silveira contava do Secundino à Guida, quando, enfiado num mulambudo palitozão preto, de terceira mão, que usava por amor dos bolsos, com a camisa por de fora da ceroula de algodãozinho, chegava de surrão às costas! Que engendrações magníficas! A ama o escutava esqueixelada, a olhar como providencial a presença do cabra, que exclamava, largando no fundo do chapéu de couro a masca de fumo e soltando uma cusparada na parede:

— Seá Dona, essas gentes do seu Major Quim, qui nós lá chamava Damião, é toda naquela toada. Vosmicê vê? Aquele moço nom é de teoregas nem de intifas. Grande pessoa delicada! Bondade acuou ali. Quem vê ele assim sacudido, há de pensá que ele é terronantes... Non vê! Non conheço moço mais moderno, de respeito e capacidade, im tão boa hora diga...

A confidência atrai como o enredo afasta.

O cabra havia tomado conta da vaqueirice das bestas, como lhe tinha prometido a matrona, não sem protesto do Seu Antônio, que, em todo caso, não consentia de modo nenhum que ele cuidasse dos cavalos da fábrica.

De quando em vez apareciam poldrinhos com bicheira:

— M'pai, observava o Néu, aquele home non dá conta dos animais, Inhor, não. Só qué curá no rasto...

— Deixa isso de mão, home! Todo tempo não é um.

Em um daqueles dias estavam uns urubus peneirando muito para os lados do Serrote:

— Que é aquilo, Seu Antônio? - perguntou a Guida.

— Aquilo? Não é nada, Inhora, não. É ũa besta morta.

— É da fazenda?

— Saberá Vosmicê que eu não sei. O Seu Silveira é quem deve sabê...

— Pois, Seu Antônio, o senhor está dizendo que aquela carniça é uma besta morta e não sabe o ferro que tem, nem o pêlo, nem nada?

— Eu, cumade? Primita qui lhe diga qui non meto a mão na seara alheia. Quando fô gado ou criação, ou animais da fábrica, é cumigo, mais porém...

— A que vem isto?

— A que vem isto? É que Seu Silveira quase se pegou co Néu mó de a bichera de um puldrinho, e dixe qui deixasse morrê tudo qui ele é que dava conta, e eu cá não tive mais porém pra dizê.

— Naturalmente o Néu fez-lhe algum desaforo...

O velho retraiu-se, engolindo a resposta que devia dar. Depois, com respeitosa amargura:

— Minha cumade, o tempo vinga o tempo. Meu pai foi vaqueiro do pais de Vossa Mercê, e viverum sempre de bom acordo, in roda de muitos anos. Eu ainda servi cum o pai de Vossa Mercê. Gente de Antônio Moreira da Silva nunca faltou com respeito nem a nego véio cativo.

— Uma vez é a primeira.

— Vossa Mercê me perdoe, mais eu sou mais véio que Vossa Mercê, lhe carreguei nestes braços e ajudei a conduzi a rede que levou à sepultura o corpo da defunta sua mãe, que Deus tenha em bom lugá. O Seu Silveira é um mau achado que Vancê fez, licença pra lhi dizê. No dia in que ele amanhece ca veia de nego d'Angola atravessada na garganta é capais de precipitá um cristão... O home non se ocupa im nada, infalive há de dá pra algua coisa!

— Quem é que não se ocupa em nada?

— Quem faz tudo são os cunhado dele. Ele faz às veis algum servicinho, por galantaria.

— Está bom, Compadre, quer saber de uma coisa curta e certa? Cada macaco em seu galho! - e entrou, com a mostarda no nariz.

— Sim, Senhora! finalizou o vaqueiro, alteando a voz - mas foi a Senhora quem puxou, que este cá sempre teve insino pra conhecê o seu lugá.