Dona Guidinha do Poço/II/VIII

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Segundo, Capítulo V


Do Poço da Moita passava-se, logo ali, o Banabuiú, enfiava-se pela catinga do Jiqui, e, espaço de hora e tanto, se ia bater mesmo na fazenda Goiabeirinha. Esta fora situada por um tio da Guida, que depois vendera ao irmão Capitão-Mor. O Secundino empregou em gados o dinheirinho do apuro, e, com uns cobres mais, que o Major Quim lhe emprestou, estava fazendeiro. Da terra não pagava renda. Chamava-se a isto um pão com dois pedaços. E olha lá! Mandou reforçar o açude, consertar os cercados, bater o pátio e o vaquejador. Não reedificou a vivenda: assim mesmo esconsa tinha o seu quê.

O Seu Antônio serviu-lhe de muito. Indicou-lhe para vaqueiro o Torém, mocetão pichoso e taludo; deu-lhe regras para novo local dos cercados, currais e chiqueiros; e foi mesmo em pessoa fazer aquisição de cavalos de campear. Quanto ao ferro, custaram a convir, passando muito tempo arriscando no chão. O Seu Antônio dizia:

— Vosmecê deve de usá o S c'un rabim na perna de riba e fulô na de baixo. Fica assim... É simpre e non si confunde. Ou si não, ói lá, faça de pé de galinha co S deitado em riba. Fica inté bonito...

— Mas eu queria um ferro engenhoso, assim uma coisa vistosa, pouco usada! - teimava o praieiro.

— Está qui! - voltou o outro.

E riscou vagarosamente no chão o S, com rabinho e flor.

— Ou entonce este!

E tornou a riscar pé de galinha, e balança, com o S deitado.

— Nada disso. Veja este... Um S cortado por uma seta. Não ficaria muito bem?

O vaqueiro olhou atento para a marca desenhada pelo moço, na areia, com o cabo do chicote. Pôs-se de cócoras, passou a mão no pó, desmanchando as garatujas que já tinha feito, alisou, e esboçou com vagar, apagando e traçando de novo, algumas vezes:

— É mió ficá assim... Non queima tanto.

— Mas eu quero o S como eu fiz! E as setas com as barbas e farpas!

— Ah! o S cas cabecinhas, e a frecha co rabo?... Apois está bom.

E concluiu, depois de refletir:

— O gado é de Vosmicê... Se amarra o burro onde o dono manda.

Outra pendenga para acordarem no sinal. Depois de haver o Seu Antônio cortado com a faca umas poucas de folhas de couve, fazendo de conta que eram orelhas, com canzil, mossa redonda, buraco de bala, pé de viado, ponta de lança, ponta troncha, brinco, levada, barbil, forquilha, garfo, mossa quadrada, bico de candeeiro, rabo de piranha, dente, entralhada, e não sei que mais, assentaram em ponta de lança, na orelha direita, com buraco de bala e rabo de piranha, na esquerda.

Todavia estava-se no mês de agosto, gado já solto. Podia-se ir arranjando as coisas com vagar. O que convinha era aproveitar a seca e dar maior capacidade ao açude, serviço de que fez empreitada o André Virino, que levava agora todo o santo dia fazendo carregar terra para o paredão em padiolas de couro de boi, e dando maiores proporções ao sangradouro, que devia ter dois tantos do comprimento da parede, conforme o seu dizer.

E daí nadava o Secundino num gozo. A casa freqüentada pelos moradores de em torno, gente prestativa, e ele moço, agradável. Cada um dava suas regras, a que o novo fazendeiro prestava muita atenção, conquanto nem sempre delas tirasse proveito. No seu cavalo, no seu açude, no seu cupiá, à sombra das suas árvores, ao sol que nascia para sua fazenda, imaginação para diante, ali estava o dóia, que era senhor daquilo. E que mais? Passeiozinhos ao Poço, onde, ao serviço paternal do tio Major Quim, beijava a mão da tia Dona Guidinha, figurando-se consigo mesmo um cavaleiro de novelas, arrastando esporas e grandes botas, recebendo a suprema graça de cortejar uma princesa de roqueiros castelos. Mas, costas para o solar do titio, enveredado no caminho da Goiabeirinha, estourava num riso brejeiro e perverso:

— Ca bobo! Ca santo homem!

E toca risada velha, bosque adentro.

E cantava, por lambuge, moderado o passo da alimária, ao cheiro das resinas do mato amadurecido:

Se eu fosse uma rola,

Podesse voar...

Acumulavam-se os dias. Entretanto, seu afeto pela menina Lalinha começara a esmorecer. Era esse apego muito parecido com o ar de novidade que envolve a gente quando atravessamos os dias críticos de uma aclimação; a adaptação realizada, já se estabelece a pasmaceira do hábito. Além de que já o bilontra tivera o seu primeiro amor, uma costureira do Recife, à Rua do Queimado. E, escreviam os novelistas do tempo, depois do primeiro amor, todos; mas nenhum exclusivo senão ele, caso viesse de novo a servir.

Seja dito que, com um certo gáudio para o Quim, a Guida arriara bandeira, concordando que o sobrinho dele devia realmente casar com a Lalinha, a quem agora incensava, às ventas do Major, gabando-a e dizendo que era uma moça de cheirar e agradar, que nem parecia gente de praça... Finuras de mulher, que enganou ao Diabo. Quanto à oposição do papai Juiz de Direito, cessaria com a sua intervenção áurea.

Mas o caso é que, espichado na sua rede, depois de andar feitorizando pela fazenda, o Secundino, uma perna por cima da outra, vacilava se com efeito queria bem à valiosa Guida, com quem já até sonhava repetidamente. Esforçava-se por apanhar-lhe a imagem talentuda e curta, sem o conseguir de uma feita. A coisa, porém, era para ser assim mesmo. Uma hora achava-a gorda, uma hora tinha a cara grande, agora tinha o cabelo assanhado, agora tinha isto, agora não tinha aquilo. Um jogar de impressões, certamente pelo abalo mais ou menos fundo que sofria o ser com a assimilação do novo alter ego. Terminou por constituir-se no paciente dessas variantes, um tipo ideado e perfeito. Quem ama o feio, bonito lhe parece.

Por outro lado, a Senhora do Poço da Moita apenas conseguia velar os seus sentimentos. Com efeito, para a Guida, era sua paixão verdadeiramente uma doença. Aqueles dias de agosto, com excelentes manhãs, nubladas e frescas, e o banho nos poços de Banabuiú, o sol ardente do meio-dia, um sol vermelho, e a ventania a embaçar de cinza o azul do horizonte, traduzia-se tudo em ânsias e em modorra, em constante perturbação, talvez mais do corpo que do espírito. Chegava a ter dores de cabeça, assim a modo de defluxo, sem quê nem pra quê. Desordens do estômago, falta de fôlego, e dores na carne e cãibras, com um tédio invencível por todas as coisas e pelo balofo carname do Quinquim. As indiretas da mulata velha Corumba, a confiada, que lhe adivinhava a maganagem, é que lhe davam no goto. Daí, puxar por ela. Que se dizia? Que vira ela? Era melhor que se importassem com as suas ventas. Ninguém se livra do falatório do povo, que anda sempre a cascavilhar na vidinha do próximo.

— Ninguém se livra da inoração do povo, Sinhá! - obtemperava a Corumba.

Por bem ou por mal, foi chegarem fins de setembro e caíram os liberais, com a chamada dissolução de Câmaras. Guida sentiu que os seus iriam ficar debaixo; mas eletrizou-a um raio de satisfação: o Secundino poderia brevemente ir às praias apresentar-se ao júri, porque a gente dele, que era conservadora, o punha na rua.

Escreveu-se para lá. Responderam que o Secundino aguardasse aviso. Insistiu-se. Por fim, já em fevereiro do ano seguinte, mandaram dizer que ele fosse para livrar-se na sessão judiciária de abril.

Derrubada velha, por toda parte. Voou o coletor provincial, e coletor geral, o agente do Correio. Voaram o delegado de polícia e os subdelegados com os respectivos suplentes, os inspetores de quarteirão, os escrivães das coletorias, o promotor público da Comarca, o bacharelzinho Rabelo. Foram assim postos fora, sem motivo expresso, todos os funcionários demissíveis e nomeados, em seus lugares, pessoas do outro partido, que subira com uma sede ardente de patriotismo. dizem que até mortos foram exonerados. O Juiz Municipal e seus suplentes, nos diferentes termos, haviam de pular logo que findassem o quatriênio, exceto algum que virasse casaca em favorável ocasião.

Para Câmara Municipal e os juízos de paz, aí estavam as urnas, cuja voz não podia destoar dos intuitos regeneradores do partido que subira. O Juiz de Direito, se inchasse, tomaria remoção ou processo perante a Assembléia Provincial. Os oficiais superiores da Guarda Nacional, reforma com eles, para ser coronelizada nova gente. E para agaloar mais patriotas, criar-se-iam ainda mais batalhões, corpos, esquadrões e seções das três armas, como exigissem os novos dungas da localidade. A comarcas de Cajazeiras com os seus termos, distritos, quarteirões, municípios e paróquias, ia prosperar decididamente. E para acentuar bem o início dessa prosperidade, logo, por um domingo à tarde, vinte praças do Corpo de Polícia, ao mando de um capitão, que vinha investido de delegado e trazia no bolso portarias assinadas em branco, entravam pelas ruas da vila puxadas por corneta em dó, que modulava a espaços medidos a frase curta e certa dos dobrados da Ordenança.

Tendo recebido, por intermédio da Câmara Municipal, as ordens do Governo para a eleição primária, que devia realizar-se no último domingo de dezembro, o Juiz de paz mais votado do distrito da Matriz mandou afixar editais, um mês antes daquele dia, convocando os eleitores e suplentes a fim de proceder-se à organização da mesa paroquial, e aos cidadãos qualificados a fim de darem os seus votos.

Era pois chegada uma dessas quadras a que se chamavam - época eleitoral. O matuto, que formava a grande e absoluta maioria da população, compreendia o seu valor decisivo para o resultado do problema, e se arregimentava.

O Poço da Moita, desde o outro tempo, era nessas ocasiões um quartel-general, e um exaltado interesse pelo pleito invadia até algumas senhoras, conquanto a maioria delas ficassem aflitas, porque a época era antes de pânico. A palavra eleições, para o povo em geral, havia perdido o sentido da sua raiz; era como se dissessem: barulho, salseiro, desordem.

Dona Anginha não tolerava um liberal, vivendo embora no meio deles. Em sua cabeça, que fixara as coisas de 1820, liberal e conservador ainda eram condições diversas e opostas.

— Eu? Ângela Flora Leonor? - bradava, discutindo com o Secundino, que se divertia em puxar pela velhota - se eu fosse homem, essa canalha safada de labarais não havera de ter nenhum voto... Nem se atreviam a tomar chegada! Eu cá não sou doida como o mano padre. Eu cá sou Combute! Se fosse votante, ia lá comer carne gorda e votar de barriga cheia e cacete na mão... Havia de repelir os cariongos a poder de bala de cravinote!...

Dezembro foi um mês de movimento extraordinário. Mês de Festa e das eleições, que eram a 27.

Triunfaram os conservadores, isto é, os do poder. E não era sem um riso de ironia que o Rabelo, promotorzinho demissionário, ouvia os pretos, enfeitados de belbutinas, lentejoulas bicos, rendas, espadas, lenços, capacetes e coroas de lata, cantar naqueles festejos do Natal chamados Congos:

Parabéns, nobres guerreiros,

Pela vitória alcançada!

Foi preso o Rei Cariongo,

Esta ilha tomada...

— Toda vez que há Congos o rei é preso, toda vez que há eleição o Governo ganha! - vociferava o bacharelzinho na sua revolta de quem perdeu o pão - Eterna comédia! Desgraçado país!

Nos ares, como ficou, como podia ele continuar morando em Cajazeiras. Com a carreira cortada, no seu dizer, não voltaria à casa paterna, onde teria que plantar batatas. Que diabo valia um diploma de bacharel? Para advogar? Advocacia em terra pequena e com a magistratura fácil, que ele conhecia de dentro, só para a rabulice aldeã. Nada! Ia seguir para a Fortaleza, a fim de tomar rumo para a Corte.

Findo o tríduo eleitoral, Dona Guida, que estava passando a Festa na vila e, ao mesmo tempo, prestando seus serviços de chefa, acendendo os ânimos, mandando encher a barriga da soberania popular com matotagens e dinheiro, tão desapontada ficou com a derrota, que não quis demorar para o ano Bom, retirando-se para a fazenda. O Rabelinho acompanhou-a, de mãos pelo ombro com o Secundino. Ela apreciava o verbo violento do pequeno letrado, o seu entusiasmo fogoso e intolerante, o seu fraseado.

— O Combute, meu Jesus! - bramava ela. O Combute! Aquele excomungado que mandou citar a mãe por meia pataca, aquele bicho que vive socado na fazenda sem ouvir missa, um miserável que come até passarinha de boi, ganhar uma eleição em Cajazeiras! Mas isto é só porque Margarida Venceslau não veste calças! Pois agora correram com medo de mata-cachorros? Isto lá são homens!?

— É porque não têm idéias, minha Senhora!

— Doutor, eles não têm é... coragem.

— Uma coisa é conseqüência da outra. A cobardia é filha da falta de convicção. Nós fomos rechaçados três vezes. Eu dizia: Avante! Bala contra bala! Mas os chefes não queriam. Por que não queriam? Com medo de morrer? Com medo de entregar à morte aquela massa de homens? Era logo um exemplo a este país de capachos: o Governo espingardeava o povo, de posse das urnas e da Igreja, mas o povo reagia, na guerra santa da sustentação dos seus direitos, o povo armado, a Revolução!

Guida gostava destas maneiras assim, deste vermelho.

— Então, continuava o doutor, em vez de cobardes vivos, teríamos a morte de Heróis, novos mártires para as páginas da História!

Dona Anginha quando soube da derrota, deu boas gargalhadas. Mas, por uma fatal coincidência, a alegria lhe fez mal, e ela se tornou rabujenta em excesso, com fastio, vindo a morrer em princípios de fevereiro, depois da eleição secundária.

Findos os dias de nojo, Secundino partiu para as praias.

Guida passou mui terna aqueles dias crepusculares e quentes. Daqui, dali, andava cantando modinhas e xácaras, na sua voz que não chegava a produzir senão três notas, às quais ela forçava todas as melodias, desentoada que era um horror.

O Quim teve cartas do sobrinho, com pouco tempo; respondeu, e foram mantendo comunicação regular. A Guida carteava-se por sua vez, porém não mandava as suas com as do marido; e as que lhe vinham do gajo traziam uma sobrecapa ao Ilmo. Sr. Antônio Silveira da Natividade.

Andava ela agora muito metida com a Lalinha, cujo amor fingia favorecer e cujo casamento com Secundino parecia adotar. Vivia aquele tempo a longos traços, na superexcitação poética do desejo e da saudade, quando por cá a gente gosta de brisas, de luares, de estrelas, de auroras, de nuvens que passam. Chegou a ter novelas e a possuir, como as raparigas de quinze anos, na caixinha de adereços, o ABC dos namorados, décimas, corações com versos e pingos de tinta roxa, glosas, toda uma coleção de lirismo do anônimo gosto indígena. Mandou, numa das cartas ao sobrinho afim esta que aqui vai:

MOTE
Estes meus cinco sentidos
Eu em ti tenho empregado
Porque não penses, benzinho,
Que eu te trago enganado.

Glosa

O primeiro, que é ver
Que este amor eu desejo,
Para toda parte que olho
Penso meu bem que te vejo.


O segundo que é ouvir
As penas do coração,
Que eu vivo considerando
Se me queres bem ou não.

3.º
O terceiro, que é cheirar,
Meu galhinho de alecrim,
Bota teu sentido ao longe,
Mas não te esqueças de mim.

4.º
O quarto, que é gostar,
Que gosto posso eu ter?
Vivo ausente de teus braços,
Melhor me fora morrer.

5.º
O quinto, que é apalpar,
Coisa que eu nunca usei;
Como te achei bunitinho,
Logo de ti me engracei.

E por aí além outras quejandas, em geral truncadas e já alteradas pelo uso:

Mote
Meu pensamento ligeiro
Botai-me aonde eu quero,
Lá junto com meu benzinho,
A quem eu tanto venero.

Glosa
Adeus, benzinho adorado,
Adeus, firme coração,
Corpinho tão delicado
Se tu fores predicado,
Tira-me do cativeiro
Por Deus do céu verdadeiro!
Eu não te vou ver, benzinho,
Só se eu fosse um passarinho,
Ou pensamento ligeiro.

Só se eu fosse um passarinho
Para ir te visitar,
Porque havia de tomar
Em meia hora o caminho,
Triste de mim, coitadinho!
Eu com isto desespero,
Pois eu te digo no sério,
Morro neste sentimento,
Ó meu firme pensamento
Botai-me aonde eu quero.
Oh, que firme pensamento!
Que sorte tirana e dura!
Vida de tal amargura,
Daí-me um contentamento;
Eu vivo neste tormento,
Sou tão triste, meu benzinho!
Já me ri, triste me vejo,
Sem lograr o que desejo
Lá junto com meu benzinho.

Sem lograr o que desejo,
Vivo triste, padecendo,
Já de contínuo sofrendo
Amargura em que me vejo.

Não tenho temor nem pejo,
Vidinha, eu te venero,
Apois te digo no sério
Não há mais o que dizer
Quanto eu me desejo ver
Mais quem eu tanto venero.

Trechos há aí que se decifram pelo sentido. O sentir do sertanejo bronco não é quiçá inferior em agudeza ao do praciano relido; o dizer, sim, que não deixa todavia de possuir um certo pinturesco que engoda a gente.

De Dona Anginha não se pode dizer que a Guida teve dó pela morte, mas pela falta, absorvida e abstraída lá pela sua paixão. Chorou abundantemente; dizia mesmo ao Vigário que ela tivera um flato de choro (o que se não opunha a que lhe dessem flatos de riso ao despontar de novo o sol dos seus amores vedados).

Naquele tempo úmido, aquoso e abafado, ao domínio do raio, do trovão e da chuva, andava toda estremeções, com os olhos por longe. A Corumba ruminou que a modo que Sinhazinha andava istudando adivinhação pelas nuves e pelas estrelas do céu, mas mode que o esprito é que andava por outras terras. As outras pessoas de casa, porém, botavam para o sentimento da morte da Dona Anginha, e com elas o Quim.

Guida achava um gosto em acompanhar a evolução do inverno. Eram dias de chuva pesada, dias de mormaço e chuviscos, e outros em que a água batia de madrugada, fremente e rápida como uma chicotada. Acordava cedo e se deitava tarde. À primeira nota dos galos-de-campina, abria a janela do quarto, com o protesto do marido, que se deixava ficar embiocado na rede. Das serrotas do Papagaio e do Batista ela via subir, cor de brasa, cor de laranja, cor de saudade, roxa, toda embebida nos vapores matutinos, a luz diurna, que ia clarear mais doze horas de ausência. Outras manhãs, olhava, estava escuro para o sertão, onde a chuva caía longínqua; e o dia vinha por um céu cor de pedra de escrever, com umas pinceladas vermelhas, imensas, que acabavam cor de algodão-macaco, e chuviscado grosso. Aqueles aspectos iam titilar-lhe sensações ocultas, que soem experimentar somente as fibras de quem anda em vício de Amores ou de quem tem o vício da Arte. Em certo alvorecer, o nascer do sol ostentava a vista de uma lagoa imensa, de esmeralda, brilhando com reflexos de azul, onde navegassem embarcações entre ilhas escarpadas, cor de pedra escura, e entre baixios de coral. Esse dia foi de leite e de âmbar, de alvas nuvens e solzinho brando. Nesse dia, que já era da quarta semana de abril, o Quim recebeu cartas dizendo que o Secundino fora absolvido! A mulher sentiu caírem os véus negros que lhe enlutavam os nichos da alma. O sobrinho estaria pelo Poço da Moita por todo o mês de maio.

À tarde, fez um belo pôr-do-sol avermelhado, atravessado por um grande leque azul azul.