Dona Guidinha do Poço/II/VII

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Segundo, Capítulo IV


Daí, a vida do povoado entrou de novo em pasmaceira. Dona Guida tornou para o Poço da Moita, assim como os demais fazendeiros, cada qual para suas terras. Findou-se, encerrou-se aquele comércio diário, apagou-se a música com as fogueiras e com as velas das trezenas, que além da igreja se faziam nas casas particulares.

Agora, por assim dizer, contava-se quem andava na rua. Apenas, no domingo à tarde, três cavaleiros, sempre os mesmos, esquipando emparelhados, dobrando nos mesmos cantos como o peixe na piscina. Um deles era o Secundino, que, ostentando uma roupinha curta de equitação, ainda das que trouxera do Recife, fazia o cavalo passarinhar todas as vezes debaixo da janela da Lalinha, que se embasbacava com as gauchadas pimponas do namorado.

Fora disso, o mancebo praiano achava Cajazeiras de uma insipidez horrível, como ele mesmo dizia, carregando muito no ível. Chamava-lhe a Terra do Silêncio. Comprazia-se às vezes em chegar à tardinha até aos altos próximos do lugarejo. Nesses pontos a desigualdade do terreno e alguns sobrados, geralmente com os oitões e as frentes bm caiados, lhe apresentavam Cajazeiras risonha e grata, no meio do verde tenuemente calcinado, a ostentar as suas três igrejas bem alvas, uma das quais, a matriz, atalaiava meia légua em derredor.

Ao recolher-se, posto o sol, inebriava-se no ar embalsamado, e o aspirava com o pensamento cheio da imagem da menina Lalá. Cajazeiras cheirava a incenso. A piedade e o misticismo saíam da rocha e da planta, da rês e do vaqueiro, do vale que pede a contrição e do morro que inspira a reza.

À hora de deitar, ouviam-se as cantilenas do terço, que vinham das casas fechadas como se surgissem do próprio solo pela voz da matéria.

Então, ele ficava sentado à porta de sua loja, e só ia dormir depois de ter escutado a voz da menina, do sobrado do pai, a entoar as suas preces da noite.

Seja dito de passagem, todavia, que o Secundino ia já desgostando do seu negócio, quando o Quim o convenceu a passar-se para fazendeiro. Não havia movimento no comércio da localidade. Quem lhe comprou quase tudo foi a guida. A princípio pensou em sortir-se, mas para quê? Imaginava negociar muito, comprar gado, e em breve estar um ricaço casadinho com a Lalá. Mas quem disse!

— Mercado sem normas! - caramunhava ele. - Preços extravagantes, negocinho de beira de estrada, comércio de corda ao pescoço!

E desandava em murmurações contra Cajazeiras.

A última seca e a penúltima, com intervalo de uns três lustros, haviam deixado no lugarejo um cunho de devastação íntima como essas moléstias de que se fica ou morto ou aleijado. Imagine-se que naquele povoado, tão rural e tão bucólico, com quintais murados e plantados, currais de vacas por toda parte, flores hortas, nesse remanso idílico - havia trechos de rua onde duas, três, quatro, cinco casas seguidas, tinham desabado sobre o silêncio misterioso de longos anos de ausência dos seus donos, que a fome desalojara e não voltaram mais. Aqui morou Fulano, ali Sicrano, esta há tantos anos não se abre... Tristes ruínas, desolados destroços do mastigar de duas grandes secas!

O rapaz, em crise de amores, que são tudo construções, achava de péssimo gosto essa afamada poesia das ruínas que lhe infeccionava o coração, dizia, de funeral tristeza.

Miseravelmente aniquiladora era aquela fisionomia escaveirada das habitações abandonadas, contra o suave consolo e a dourada madureza daqueles matos de junho. A casaria habitada e limpa agravava o contraste, era como vivos felizes ao pé de mortos atirados ao monturo.

As ruínas eram múmia, silêncio enigmático, esfinge, arquivo ininteligível das vidas que ali viveram.

Só devia retirar-se de Cajazeiras para meados de agosto, tendo de liquidar os seus negócios.

Mais uma circunstância viera tornar-lhe Cajazeiras insuportável. Bem que o Mariano Bonfim, todas as vezes que o via, entrava a repetir-lhe que terra pequena não era lugar onde se morasse, e que no Ceará, ou bem a Capital ou bem a fazenda; mas o povoado só para ele, Mariano, que era um caipora de sacristão.

Auxiliada pela Aninha Balaio, que era mesmo que nem uma lançadeira, a Guida conseguira incompatibilizar o Secundino com o pai de Lalá - eis o caso:

Foi um escândalo, se é que se pode chamar a cenas que se renovam todos os dias no tacanho convívio de localidades que só lêem as diatribes da imprensa indecorosa das capitais, só adoram os santos de pau pincelados de ouro, só conhecem a Deus pelo latim do vigário, e que não têm noção do trabalho profícuo, do labor inteligente, da superioridade humana, dadas quase unicamente aos menores prezeres que os animais do rebanho e do lote.

A coisa principiou pela conta do juiz, que já ia engrossando talvez um pouco mais apressada do que o natural crescimento do afeto pela filha do devedor. A Balaio fez saber ao ouvido do moço que o doutor caloteara a quase todos na vila, que devia a Fulano de Tal tanto, e a Sicrano de Tal quanto, que os credores faziam que não viam, diz que pruque o home era juiz de dereito...

— Pois cá o degas não precisa de juízes! Sabe? Cá o degas...

Daí vai a Aninha ao doutor: Que o Secundino ia mandar citá-lo, e que haverá de lhe tomar o cavalo lazão.

E bem na orelha do letrado:

— Disse nas minhas ventas que limpava o fioto - com licença da palavra - com diploma de juiz de dereito!

Na sessão do júri, o Secundino não compareceu. Multa em cima, ao passo que outros jurados foram dispensados. Mas ele nem ao menos dera satisfação ao juiz!

A Balaio assegurou ao doutor que o Secundino lhe furtaria a filha. Fez uma narrativa de má fé sobre o passado do mancebo, inventando coisas de sua cabeça. E desde aí passou o homem a implicar seriamente com o rapaz, visto como nem por sonhos cogitara nem cogitaria nunca de confiar a sorte de sua filha a um forasteiro sem eira nem beira. Ameaçado no íntimo, então sim, o doutor começou a tramar surda guerra. O Secundino papocou-lhe na rosca da venta, à propósito de uma questão do Capitão Chiquino sobre o furto de uma besta, que Sua Senhoria se vendera aos Tubibas por uma manta de carne e duas terças de farinha. Foi uma alteração, que se fora entre gentinha, era logo cadeiame velho com ambos, segundo comentou o borracho do negro Catolé, veterano das prisões de correção.

Secundino foi chamado à responsabilidade por injúrias verbais. Mas a Guida, com uma palavra, fez o juiz desistir da ação.

Ah! Em que angústias não se viu o mancebo repartido, bipartido entre o seu ódio e o seu bem-querer! Lalinha vivia triste, cada vez mais simpática, mais alva, com uma suavidade de traços que era todo um segredo de seduções.

Houve uma missa de visita de cova no São Bom Jesus, que ficava num alto, ao entrar do povoado. No fim, os convidados foram espargir água benta. Secundino passou o hissope à Lalinha, e dela recebeu um longo olhar cheio de intenções. Que felicidade! Qual claridade diurna, esse instante, pequenino foco solar, espalhou-se pelo universo criado por aquelas duas fantasias.

Ao sair da ermida, a donzela esteve um pedaço na porta, à espera dos mais. A sua tez ia tão bm com o vidrilho preto! Olhava para o sertão. O sol acordava na terra as primeiras quenturas da estação tórrida. Ao lançante, estendiam-se as corcovas de catingas já pintando.

Para a baixa do rio, a fita de vegetação tornava-se verde-negra. Por toda parte as frondes caducas iam amadurecendo, e as pertinazes, muito raras, preparavam-se para a vida do verão. O umari, do meio das vazantes, suspendia cada vez mais a perene copa como que espartilhada. Um paraíso de pássaros a cantar. Já era por entre o pasto, já era nas cercas, nos pendões de milho, nos oitões erguidos das casas caídas, distantes já, nas grandes árvores sozinhas. Uma infinidade de avezitas, sobretudo, a esfuziar por entre as gramíneas, por entre os capinzais, que se embastiam por todo o terreno como o pêlo no couro, uma abundância de rolinhas e quanta espécie de pombas arrulhantes.

No rio, ainda o vôo branco da garças e a risadinha constante dos maçaricos.

Aquele amor do Secundino estava no meridiano; e, estrangulada de dor, a moça o viu descer para o ocaso, chegado o dia da partida, caminho do Poço da Moita. Olhava tristemente, dia por dia, para aquelas duas portas mudas, fechadas, da casa onde ele tivera a venda.

Mordia-a a saudade. Mas é um engano querer-se que sejam veementes, vulcânicos, assoberbantes, certos sentimentos. As afeições verdadeiras, legítimas, têm por cunho a brandura, um certo estado crônico; são como uma doença que se sofre em um órgão essencial à vida, mas que não nos perturba essa mesma vida, que não no-la impede, que às vezes parece até não existir, e que só uma vez por outra nos avisa de que estamos minados por ela, sem remédio.

Ninguém pode avaliar o grau de afeição em que tem a outrem. Amicus certus in re in certa cernitur. A afeição é como alguns tumores que só doem quando se magoam. Dois irmãos que se tratam com a maior indiferença, se um dia fazem uma viagem, e que um fica e outro volta, que o respondam. Marido e mulher, que vivem aborrecidos um do outro, haja um dia precisão de sair um, e aparecerá candente o sol do afeto, que estava nublado pela convivência.

Outro sinal da afeição é quando posta em evidência pela morte, pela ausência, ou por qualquer motivo, quando em estado agudo, em crise de lágrimas, em aperto de garganta, a criatura tem o seu sentimento pelo mais justo, pelo mais nobre, pelo mais sagrado. É nessas ocasiões em que o homem é verdadeiramente puro, seja ele um celerado. Nesses momentos não tem inimigos, nem aversões, nem rancores, nem ódios, e seria capaz de agraciar ao mundo inteiro. Todo ele é a própria emoção, e nem há lugar para outra coisa. Está inundado. Só se vê através da pureza de suas lágrimas.

Outra característica é a necessidade de esvaziamento: é um açude cheio, que deve sangrar. Transborda. Aí vem o grito, a lamentação, a lamúria, os impropérios, e até a blasfêmia; noutros a confidência; uma certa passividade, porque todo o trabalho de eliminação está sendo feito pelas idéias. Como na embriaguez, nessa crise aguda põe-se ao claro o temperamento, a educação, o caráter, e sobretudo a condição presente da criatura. Um mesmo indivíduo que há anos sairia a correr pela rua, desgrenhado, hoje ficaria inerte, petrificado ou doido de mudez, conforme à modificação que lhe houvessem imprimido as voltas que o mundo dá.

Lalinha era das pessoas que, feridas numa afeição, ficam em certo estado passivo. A explosão é própria dos sentimentos excessivamente fortes, um tanto de superfície; o manso deslizar é das águas profundas e perenes.

Há temperamentos em que é tal a persistência do afeto, que lhes é mister personificá-lo de novo, e assim se explicam alguns esquisitos casamentos de viúvos. É essa teimosia de imagem que faz a gente, ainda por muito tempo, como que não acreditar no desaparecimento de uma pessoa, a cuja morte entretanto assistimos com os nossos olhos.

Lalinha atravessava essa quadra em que os próprios órgãos do corpo humano como que têm paixão pela vida, vegetativamente, entre as primeiras luzes dos sete anos e os primeiros sobressaltos dos vinte. Podia-se dizer, em relação às funções do entendimento, que os seus sentidos eram suspeitos. Tudo choro ou riso. Tudo lhe era gostoso e belo do céu à terra: tudo simpatia.

Idade de incubação de todos os amores, desde a afeição normal até o amor da Pátria, o amor às Letras, à Ciência, à Guerra, à Virtude, ao Vício, e até ao Ódio.

Ao labirinto, com as mãos esquecidas sobre a grade, ela punha-se a olhar, a olhar pela janela para o rumo onde o namorado se sumira pela derradeira vez. Olharia ele para trás? Dissera amá-la tanto! Que esperasse ela, o tempo tinha tempo.

Ao anoitecer, essa escala descendente da luz, solfejo da mãe-da-lua que fenece no silêncio negro, morre o último canto da graúna, piando o bacurau, ao prelúdio das primeiras estrelas para a serenata de cintilações pela noite adentro, ela rezava, rezava ainda espreitando para aqueles lados; e a qualquer hora do dia, no seu vexame abafado, reparava sempre o mesmo telhado da casa da Aninha Balaio, por onde ele se foi, lá no alto, ora vermelho dorso de peixe, ora imensa onda verde, espumada de inflorescências.

Lalinha vivia da própria seiva, da própria beleza; vivia de desabrochar. Mas a necessidade, demônio onipotente, começara a minar-lhe o ser com as infiltrações do amor, sutis, deliciosas, infernalmente celestiais. A menina vadiava com este sentimento como a criança com um punhal.