Dona Guidinha do Poço/III/II

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Quarto, Capítulo II


Apesar da Guida não ter dirigido convites para a função da vaquejada, a não ser aos demais fazendeiros, a casa começara a encher-se de hóspedes.

Uns vinham por ela, outros pelo Quinquim, pelos parentes da casa, pelos outros fazendeiros, e outros pelo Secundino.

Mas, enfim, já isto era de si uma festa. Vivia o cupiá atravessado de redes, as negras na cozinha fazendo decomer, os moleques com o pote na cabeça, as galinhas e os bodes na ponta da faca, e matolotagem por ali.

Destinou-se para esse fim uma vaca bem enxuta. Pela manhã, foram com ela ao olho do machado, depois de soltas as outras. O Néu laçou-a no curral, saiu porteira fora sem afadigá-la, e no pátio, assim para uma banda, abateram-na. O Néu armou o machado com o olho para baixo, desandou uma pancada forte entre os chifres, a vaca amunhecou. Sangrou em ato contínuo. Os pequenos traziam rama para acamar em derredor, a fim de não sujar de terra a carne e os miúdos. Toca a tirar o couro, olha lá gordura e carname, cheirando a nata.

A Carolina do Silveira com a Corumba tomaram conta do fato, e ali mesmo despejaram o debulho. Breve, os quartos da rês, transportados ao cupiá, avultavam dependurados, com umas irritações a relampear nos músculos, com que o Secundino muito se intrigava; entre as ramas lambuzadas de sangue, lá no pátio, a canzoada fazia o repasto, a dar corridas de vez em quando nos urubus, que acudiam em chusma com o seu passinho grave e esgueirado. Na cerca do curral iam formando uma longa fita negra. O Secundino, do alpendre, entrou com os outros a fazer-lhes pontaria, a apostar quantos matariam, fazendo fogo sobre aquele tapume negro e mole. Mas o chumbo treslia, urubu tinha mandinga, apenas um ficou penso.

O almoço correra ruidoso e devastador. E assentada a comida no estômago, toca a montar para ganhar cedo os campos. Muita trela, muita graçola, muita risada.

O Joaquim Ribeiro, professor, um pouco tocado pela caninha da panelada, azucrinava o praciano com as suas preleções. O Secundino queria que ele dissesse bem latim, caçoando, e aproveitava esta atitude para fazer trejeitos de azeiteiro para a Guida, que com isso se babava.

O vaqueiro tem, sobretudo, reparasse bem, dizia o professor, um desenvolvimento dos músculos da coxa. A sua arte consistia em estribar curto, agarrar-se com a curva da perna, e, em um serpeamento violento do tronco, a mergulhar pelo mato. O cavalo entrava com metade do serviço, conhecedor do seu ofício.

No limpo, era chegar o cavalo, derrubar de vassoura; isto é, a rês empinava a cauda para cima como um penacho, na corrida, que quanto mais veloz melhor; então o cavaleiro lhe agarrava no cabo, puxava para um lado, por modos que o lombo, desviado da trajetória, a rês cai dos quartos, às vezes a ponto de quebrar a perna, e rolava ainda uma vez, mais outra, e mais outra, conforme o terreno e a velocidade que levava. Aqui, o vaqueiro apeava se não ia com outro, porque então competia a este, e laçava a rês, ou lhe punha máscara, ou peia, que era o mais geral.

O uso de sacudir o laço ou o das bolas, era-lhes desconhecido, por ser impossível nos sertões, por serem estes acidentadíssimos e cobertos de matagais, que tecem de galharia o tapete infindo das pastagens. Campos como os Tabuleiros do Padre (e esses mesmos, com algumas moitas e árvores dispersas) contavam-se.

Usavam-se da aguilhada mais para fazer guia.

A aguilhada, sabia? Aquela vara potente com um forte espigão de meio palmo encravado na ponta, engastada em couro, a que eles aplicam uma forte bainha quando não estão em serviço...

— Mas, professor, dá licença? Eu, pilheriava o rapaz, eu já sou fazendeiro e sei de tudo isso... Queria era um latinzinho... Chega me dava no goto!

— Sai daí! Tu és lá fazendeiro, tu és um punga! Ne sutor ultra crepidam.

— Isto sim, que eu gosto! Mais um pinguinho, ande!

Gargalhada velha.

A Guida largava risadas, achasse ou não achasse graça. Os três iam ficando um pouco atrás. Caminharam um pedaço silenciosos.

— Professor, tornava o Secundino, mas agora com outro ar, olha para isto! Que paisagem! Que latim é que se diz agora? Mirabile visu, não?

— Até que enfim chegamos aos tabuleiros, Deo gratias!

Iam-se pronunciando as moitas, e evidenciava-se de mais a mais a paisagem de prado. O terreno, em suas particularidades, era folgadamente ondulado, amplamente coleado, oferecendo grandes rasgões de vista, pasto em fora.

— Região lindíssima! exclamava o pernambucano. Lembra as savanas, não é, professor?

O valo de capim-panasco, semelhante a um arrozal infinito. Nalguns pontos o ervanço, que incensa os sertões ao pôr-do-sol. Como estrelas embastidas no firmamento de agosto, as flores da chanana, de várias malváceas, gramíneas, sensitivas, constelavam indefinidamente o pasto, onde este era mais baixo, imensos panos de reps verde bordados pela inflorescência multicor dos dias de maio a junho.

Capões de mato aqui e ali, maiores, pequenos; paus-d'arco isolados, pouco desenvolvidos; moitas de mofumbo, que tiram aos tabuleiros a monotonia da savana.

— Olha aquela rês naquela lombada, indicava a Guida: está do tamanho de um bode.

Avista-se uma fita arborizada: é o regato Ipueirinha, uma ipueira, a descer para um riacho que enforquilha no Curimataú.

O poeta Barbado, que ficara acendendo o cachimbo, vinha entoando uma copla, que terminava assim, numas notas estiradas de canto de galo:

Quem não tem pente de ouro,

Usa cacho de fulô...

Depois, enfiou uma lenga-lenga de versos em ão, que findava nestas duas sentenças:

Quem não tem regulamento

Não pode vencer questão...

Quem tem sua boca fala

Conforme a sua paixão...

Todos, até os vaquianos, gente como que arrebentada daquele próprio chão, sentiam-se tomados por sensações de gozo indefinido, um sentimento religioso, alheio à existência da sociedade, nesse pasmo, nesse delíquio que infligem à pobre espécie humana os grandes aspectos soleníssimos da natureza em ser, com a diferença, porém de que, como no gado, a impressão, nos vaqueiros, os arrastavam à vida, ao exercício, a espojar-se a correr, a movimentar-se violenta e brutamente, a desembestar prados em fora.

Longe, longe, o horizonte acabava no verde-escuro da catinga da Suçuarana; e, mais para um lado, morria num sistema de serros azuis, sob aquele claro sol de fins d'água.

— Vê aquela poeirazinha levantando-se lá para o meio dos campos, Secundino? Uns bichinhos a moverem-se - disse o professor. São os primeiros magotes de gado que chegam ao rodeador.

A comitiva do Major foi procurando aquele rumo. Em pouco, detrás de umas moitas, arrebenta o tropel de uma porção de reses, e logo uns dez encourados:

— Faz cabeceira, compadre Janja!

— Cerca pur riba!

Um que ia de aguilhada fez guia.

Campo adentro, ficaram tocando o magote para o rodeador, que era ao pé de umas moitas mais altas, que ofereciam sombra.

Era cerca de dez horas.

A cavalgata do Major fazia chiar o capim no tropel do chouto e da baralha.

Aproximava-se a última escolta.

Trazia um gadinho; caçoaram dela.

No ponto destinado ao rodeador reunira-se com efeito o imenso rebanho, arrodeado por cento e tantos cavaleiros encourados.

A vaqueirama fazia-se reciprocamente recriminações, porque Fulano botou tal rês no mato, porque não vale a pena andar senão com home, que os do serrote mó que vieram cichilando... Os cavalos, olho vivo, criados no casco da rês, empinavam as orelhas, a cada momento, à espera que os donos lhes dessem rédea. A rapaziada, por seu lado, remexia-se no ginete, doida por desembestar.

Chegou o Major Quinquim; adiante, a Guidinha, num galope, numa corrida apostada com o Miguelzinho, que por gabo de forte a deixou ganhar. O Secundino estava acanhado, no meio de tanto bichão, de tanto pedaço de homem. Certo que não imaginava que o seu país possuísse daquela raça. Nunca vira reunidos assim tantos espécimens de gente vigorosa, mansa, com ũas maneiras ao mesmo tempo broncas e delicadas, sem proferir uma expressão baixa, limpos da alma e do corpo. Limitava-se a gozar do espetáculo, e a ser animado pela tia. O sol cru dos tabuleiros, a paisagem vasta, a vaqueirama, o enorme rebanho, o transportaram a uma região estranha.

Notava-se na fisionomia dos vaqueiros aquela expressão própria de quem está no desempenho de suas funções mais gostosas do ofício. Antes uma embriaguez, como a do comediante na sua melhor noite, a do orador no mais tocante improviso, a do soldado na mais renhida refrega.

Já ia o sol bem alto, quase às onze.

O derradeiro magote vinha encorporar-se ao grande rebanho. O vulto do Major, como um generalíssimo, se elevava entre os mais, a proferir ordens e opiniões de entendido.

Uma garrota, porém, em vez de acompanhar o magote, espirrou para a ipueira. O que fazia esteira desse lado bota o cavalo para retê-la. A garrota voa. Estruge o chão, ao rufo medonho das patas dos cavalos: três vaqueiros se esticam no encalço da bicha...

Estava dado o alarma.

Os velhos ralham, que somente dois vaqueiros devem correr a uma rês; se não, há desgraça. São os dois o que vai cabear e o que faz esteira.

A poeira baforava no solo, em rolos, como de um tiroteio de fuzilaria.

Já agora espirram as reses do grande rebanho, porque a vaqueirama parece doida, só quer é atirar-se na vertigem da corrida.

— Foi-se embora sempre! exclamou a Guidinha, estirando o pescoço. Que vergonha.

Era longe a garrota, que se sumira, entre os arbustos da ipueira.

Mas uma voz protestou. Era a do pais do vaqueiro que botara a rês no mato:

— Inhora, não, minha Comade; fio meu nunca botou gado fora. Espere que ele hé de arrancá cum a garrota. Aquela mesma não leva jogo demais, não, Senhora.

Avistava-se, com efeito, atentando bem, o rapaz por entre os matos, perseguindo encarniçadamente a rês, que em pouco reapareceu no campo, e outro vaqueiro, tomando-a, pôs-lhe o cavalo.

Numa descida viu-se o cavalo como a confundir-se com a rês. O cavaleiro pendeu demasiadamente para o chão, e no bolo, a rês caiu dos quartos, rolando três vezes no pó. Um grito de júbilo ecoou nos ares. A garrotinha levantou-se, e foi seguindo, de chouto. Outro botou-lhe de novo o cavalo.

Mas ao mesmo tempo, em outros pontos do campo, travavam-se caramuças, numa verdadeira orgia selvagem. Era preciso que o Secundino tivesse olhos por toda parte para poder abranger todo aquele espetáculo ao mesmo tempo belo e supinamente bárbaro. Como que aquele pingo de humanidade voltara subitamente aos jogos primitivos.

Um estupir tremendo entrou por uma moita próxima, e até a Guida arredou o cavalo, ela que andava a percorrer tudo, só faltando mesmo derrubar. O mato estalava como moído por um redemoinho.

— Um novilho! Um novilho! Aprecie esta carreira, que é de lei! - bradou o Quinquim para o sobrinho.

— E aquilo até é meu! disse o rapaz.

— Não, Senhor. É do Góis, que o vi outro dia na Lagoa. O ferro tem fulô e rabim, na cacunda do G.

Espirra da moita um touro, com toda a força dos músculos, e logo em cima o Torém, que chega ia seco.

Molha-me a palavra, ó divindade que presides a este meu labor! Vou traçar, como num relâmpago, a carreira do novilho Lavrado, perseguido pelo cavalo Trovão, o melhor chagador daqueles todos, veloz que é um castigo, cavalgado pelo guapo vaqueiro torém, que não tem igual desde o Genipapo do Boqueirão até aos Inhamuns e Crateús, que de praias nem se fale.

— Chega-lhe de rijo! gritava a Guida, a única voz que se fez ouvir naquele momento de ansiosa expectativa.

Houve um pedaço em que o cavalo faltou um bocadinho, e o novilho quase arremete. Mas o Trovão não fracateou. Tomou nova carreira, com tamanho terramote que, num suave descambar do terreno, viu-se o Torém cair muito sobre o lado direito, segurar na saia do bruto, e quando este levantou os quartos no galope, o vaqueiro lhe deu um repuxão que o fez rolar de bater o mocotó.

O Torém voltou ofegante e triunfante, e tomou uma forte pitada do seu cornimboque. Era caso de tabaquear, para quem fez tão pouco caso da vida.

Dois vaqueirinhos imberbes, aproveitando o novilho de forças quebradas, ainda andaram a dar-lhe tombos; e, por fim, o pobre do bicho já estirava palmo de língua de fora.

Uma espécie de pânico principiava a possuir as reses. Uma rês derrubada teimava em não levantar-se, arrodeada de vaqueiros. Uma novilhota, depois de cair duas vezes, aprendeu a anular a rabiscada, abrindo as pernas quando sentia a mão do homem a repuxar-lhe a cauda levantada. Só os mais hábeis, montando cavalo de fama, não perdiam a primeira carreira. No ato da mucica, o cavalo abria, se não era bem amestrado.

A sede tornava-se insuportável naquela soalheira. O homem que vendia cachaça, à sombra morna de uns paus-d'arco e catingueiras, já havia esvaziado a ancoreta. O Quinquim dera dinheiro ao mercador para ele distribuir bebida pela vaqueirama sequiosa. Alguns fazendeiros faziam o mesmo com as suas gentes.

Duas da tarde.

— Já devem estar fartos, Quinquim! dizia a matrona para o marido. Mande rodear o gado para apartar. Quinquim concordou, e deu suas ordens, mas não era atendido.

— O Gonçalão perseguia um grande boi, de aguilhada em riste. Em certa altura, chegou-lhe o ferrão, na anca, e ao erguer ele o quarto, chegou-lhe mais de com força, e o boi virou. Ergueu-se. Nova carreira, estrondando o chão, em stacatto, e a poeira a subir em jactos súbitos do casco dos quadrúpedes.

O Silveira propunha que se quebrasse a perna de uma rês, no tombo, para os patrões darem para matotage; mas não valia a pena por estar-se bem a três léguas distante de casa.

A muito custo, já com duas e tanto da tarde, o Quinquim conseguiu ajuntar toda a vaqueirama, e, espirra uma rês, espirra outra, corrida para aqui, corrida para acolá, sempre se apartou o gado. Os vaqueiros das outras partes arrebanhavam, cada qual escoltava as suas reses, salvo os que as queriam mesmo soltas. E toca, aboiando campos além, ao manso caminhar dos rebanhos, a recolher para as fazendas! Gado que não tivesse ali vaqueiro, ia para os currais do Poço da Moita, avisando-se ao dono de que havia ali rês de seu ferro para mandar ver.

Os negociantes de gado, que sempre ocorrem nessas ocasiões, já haviam escolhido, com olho prático, o que queriam, e fechavam as compras, reunindo os magotes e fazendo-os tanger.

Depois de seguirem os do Poço da Moita, da Lagoa, e da Goiabeira, a preguiçoso passo, arribou o troço do Quinquim, baralhando a Guida sempre guapa e infatigável. Nem a soalheira, nem a sede, nem o excessivo exercício de equitação não a alteravam. Ao passo que o Secundino se via estar mesmo sonolento e enojado. A vaqueirama nem olhava para ele, a não serem alguns interesseiros e finórios para serem agradáveis à Guidinha.

Aconteceu que ao atravessar a Ipueirinha os homens se lembraram de matar a sede, cavando cacimbinhas na seca areia do leito; e ei-los ali, acocorados, bebendo em folhas de árvore, enquanto adiante o gado demorava sob a guarda de outros.

Quinquim ficara atrás, porque teve uma precisão, de modo que a Guida e os demais foram seguindo, passaram o riacho e se sumiram já para além das moitas.

Ouvia-se o poeta Barbado cantar já um tanto longe:

Minha mulata bonita,

Seu cachorro me mordeu...

Ia numa boa mela o pândego do cantador, fazendo a risada desassombrada da Guidinha ecoar de moita em moita, que do riacho para além estas eram mais bastas.

Todos dizem: Coitadinho!

Mas quem sente a dor sou eu...

Não eram abundantes os passarinhos ali, principalmente àquela hora ardente. Um bando de emas atravessou uma lombada afastada. Se fora mais perto, exclamou um dos rapazes, diabo! Punha-lhes o cavalo. Assim mesmo estava quase...

Para o Nascente havia uns cúmulos esfarelados e embastidos, mas o Zênite e o Ocidente parecia fumegarem de sol...

Na serra da Buretama
Se descobriu duas mina...
O caroço do erbaço,
Da maniçoba a resina!

Já mal se ouvia a voz do Barbado.

Vinha sequioso o Quinquim, como se passara o dia a comer salgado. Entrou para debaixo de uma catingueira, apeou, desatou a ponta do cabresto presa ao loro, amarrou-o a uma volta da árvore. Isto para a sela ficar à sombra, mod'as caseiras, que aquilo nem era sertanejo completo, que se avém com selas quentes.

E, arrastando a espora pela relva, tomou para o riacho, onde os vaqueiros estavam procurando água.

As jerimataias, entrelaçadas com os mofumbos da beira do rio, formavam adiante dele um belo fechado de folhas e de vergônteas, sobre a limpa areia dos aluviões, bordada de pequeninos seixos.

Ainda ouviu o Barbado cantar:

Seguro morreu de velho,

Desconfiado ainda é vivo...

Em uma oiticica de tamanho mediano, que subia por trás da moita, um volumoso gavião soltara um piado humilde, como para atrair as pequenas aves - à maneira de certos magnatas que se fazem pequenos para encher com jeito o seu saco.

O riacho estava logo ali. Quinquim, arrodeando essa moita, ora aquele balsedo, tirara o chapeirão de couro, e afagava o cabelo com os grossos dedos roliços.

Os rapazes ainda estavam abeberando nas cacimbinhas do álveo, abertas a unha.

Riam. Uma gargalhada espalhou-se entre eles, terminando por esta frase, que o fazendeiro, ainda oculto pelas jerimataias, entendeu bem ser do Alexandre Arrebique, ou Lixande Ribique, na gíria popular:

— O sujeitinho é temero! Non tarda mais é o Manjó tá de morgado...

Outro:

— Mais cumo é qui um pobre cristão bota assim a desgraça im casa? Arrenego do Cão! Diabo leve esses costumes de praça! Vote!...

— Ta bebo! A minha muié? A minha fia? A minha irmã? Saia que estive im podê meu? Abaixo de Deus Nosso Sinhô, só eu cá na terra, em tão boa hora diga, que ao depois de morto é co homem do Facão Grande...

— Aquele Secundino chegou aqui neste lugá cumo tatu, que só tem o casco e...

— O Manjo hé de vê o mundo e as capas do fundo.

— Mais, home, quem jura que o tal de Secundino faça mesmo essa traição ao Manjó?

E foram galgando a suave ribanceira, uns montados, e outros montando.

O Quinquim não dera um passo...

Teimara sempre em repelir aquela idéia informe, que já o atanazara. O testemunho do vaqueiro, porém, era por assim dizer sagrado...

Subia enfim o pano da tragédia! Os personagens ali estavam, ele via com os olhos do desespero sufocado, ouvia-lhes as falas e distinguia os ademanes. Ele, o marido infamado, apontado à zombaria das gentes. Era verdade, então! Era verdade? Pois era!!!

Coçava-lhe no rosto a impressão do barbicacho. Pôs de novo o chapéu. Achou-se ao pé do cavalo, desatou, montou. Foi. Pelos campos fora, tez em febre, silente, um arrocho no coração e como que ia berrando desesperadamente, criança perdida no deserto que a altos brados invocasse os nomes de pai e mãe.

Queria dormir na Lagoa, na intenção de não ficar mais no Poço da Moita. Achou-se, entretanto, em casa, com a vaqueirama.

Além de tudo, chegara ao Poço da Moita a notícia de um vaqueiro dos Góis do Riacho do Meio, um sarará, dessa raça loira, que a despeito da canícula, persiste nos sertões cearenses, o qual perseguindo um novilhote que ia desgarrando havia peitado noutro vaqueiro, e caído estirado sem fala. Estava à morte.

Era o Machico! exclamavam todos, ao apear-se o portador, que vinha logo dando a triste nova.

Onde estava? Morrera? Falava? Era bom chamar o padre! Pobre do Machico... Virgem Nossa Senhora!...

— Quais, senhores! - respondeu o Cacheado, que era o núncio da desgostosa notícia. Aquele, só Deus do Céu. Venho é ver uma rede e uns paus para se levar o homem pra onde haja casa de cristão, que ele ficou cos outros, que estão lá fazendo meizinha por mó de ver se ele escapa, mais porém que eu não acridito qui sirvam... Estão debaixo d'ũa moita, sem água, nem sicorro...

— Eu bem qui digo os meus filhos - comentava um velho, a vazar choro: Mininos nom corram di trevessa! Mininos, nom corram di trevessa...

— Quando ũa coisa tem de acontece nom hai juízo qui sirva, meu tio.

— Agora isso... lá isso é mesmo.

— A morte sempre traz disculpa consigo.

E agora eis o Quinquim, taciturno, especado entre dois desgostos, no desempenho do mais tocante sentimento do homem do campo, a solidariedade da espécie. Ele todo agora era ordens e providências para salvar o coitado do Machico. Assim, como se fora fato previsto, papéis distribuídos, drama estudado, viu-se aquela vaqueirama a postos, de rede, paus, remédios lá deles, água em borrachas, toda a inata previdência e apegada rotina do sertanejo em funcionamento.

O lugar do sinistro ficava a uma légua dos Tabuleiros do Padre, duas do Poço da Moita, no Pocinho.

Também foram quase todos, e quase tudo, até a bulhenta canzoada. Ficaram apenas as escravas, um preto velho, a criação, o gado e a Guida, bem como o Secundino, que, passado cerca de um quarto de hora, se largou para a sua fazenda, escanchado no seu cavalo de sela, esquipador até ali.

Correu o tempo naquela mornidez do sertão.

Margarida, na rede do alpendre, pregava os olhos na boca da vereda onde devia apontar o primeiro mensageiro. No despedir-se, o Secundino parecia não dar pela presença do... amante (vá lá o termo com os diabos!) atenta como estava para o doloroso caso do Machico. Pobrezinho do Machico, o braço direito do pai, o vaqueiro destemido, o herdeiro, não da fortuna, que isso nunca virá à família dele, mas dos encargos e pensões!

Naquele momento, do coração pútrido da adúltera, nascia, pelo nenúfar do pântano, o sublime, que, louvado seja Deus, de todo não desaparece nunca da alma feminina. Ressurgia a antiga protetora dos retirantes.

Mandou ao preto velho, o Samangolé, assim mesmo de pés inchados, ir para a vereda tocaiar passantes e perguntar pelo Machico...

Esquecera de dizer ao Quinquim, mas nem o vira quando partira, que trouxesse o desgraçado vaqueiro para o Poço da Moita. Ela tinha fé que o salvaria.

Por uma inexplicada associação de pensamentos, lembrava-se - ali, na angustiosa expectativa de mulher sacudida pela violência de um sentimento forte, - da Lalinha!

A Guida tinha isto consigo: toda a vez que a possuía o patético, o trágico, o irremediável, um pranto oculto lhe trazia a nadar nas lágrimas sufocadas do íntimo a imagem da santa menina, mas dentro, no ser, no sangue, no pulso, quer dormindo, já acordada, ou nos trabalhos de casa, ou nas diversões do campo, ou nos ócios da vida rica.

Deus a não castigaria? E por que Nosso Senhor não mudava os corações? E punha-se a rezar. Era mui devota dos seus santos de pau.

Em conseqüência, daqui, dali, a culpa de tantas naturezas em abalroamento era do Quinquim. E o tédio, o rancor surdo, caía sobre o marido que ela recebeu com o seu voluntário sim, nos pés do altar sagrado.

Voluntário? Vã hipótese. Uma vontade precisa de anos para verificação; ao fruto é mister que a existência da árvore tenha percorrido os necessários círculos vitais.

E assim acabara soturnamente a vaquejada. Depois de certo tempo, como que uma coruja agourenta pairava sobre aquela casa.

Enquanto a pobre gente gemia em torno do Machico, na casinha do pai, no Timbó, o Secundino em a mansão da Goiabeira se banhava por causa do pó e da soalheira, ali pelas cinco e meia da tarde.

O gado recolhido aos currais era de bater chifre. Para que ficava o gado assim preso? - perguntava o mau praciano de que nunca se pode fazer um bom sertanejo:

— Pra tomá cria - respondia um pequenote da casa: adespois, se solta o que se tem de solta.

Os dias que se seguiram foram de narrativas e comentários. Ninguém sabia assegurar como fora o desastre do Machico (que sucumbira finalmente à uma hora da madrugada, ao pôr da lua). Sabia-se que os dois cavaleiros abalroaram, que um ficou vivo e são, e o outro logo estatelado e estirado no duro, de papo pra riba. O outro caíra em pé, alguns diziam que não, que viram foi aquele bolo de cavalos e de homens. Do cavalo do morto não se quebrou um arreio.

O Miguelzinho do Mazagão bramava contra os cachorros do Seu Quim, que lhe atrapalharam a derruba de um touro. Cós diabos! Não se levam cães para vaquejada!

Machico foi sepultado no cemitério da vila. Ao amanhecer largaram com ele. Havia que palmar doze léguas até Cajazeiras. A rede era suspensa por dois paus paralelos, com outros dois menores, formando grade, e conduzida por quatro homens, que revezavam com outros. Os de folga iam montados, puxando os animais dos que iam suportando o peso do morto.

Quando passaram no Poço da Moita, Margarida soluçou muito. Deu dinheiro para pagar a encomendação, a cova, o caixão, e dizer uma capela de missas.