Dona Guidinha do Poço/IV/I

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Quinto, Capítulo I


A Guida, por instinto, se fizera extremosa para com o marido daí por diante, com a idéia de que o homem podia tornar em escândalo o seu erro dela por um ato qualquer de vingança ou de toleima. Desprezava solenemente as chinas, a cujo nível desceria logo na boca e no olhar de todos. Vivendo com o marido em comunhão, eram obrigados a reconhecê-la como senhora de bem.

Por seu lado, o Seu Quim se confundia com aquelas recrudescências de carinho, e começava a perguntar a si mesmo se não laboraria em engano condenando no seu juízo secreto a uma inocente: se o falaço dos vaqueiros na Ipueierinha não seria obra de satanás, para plantar a cizânia naquela casa.

A dúvida, assim como depressa entra, depressa se escafede, nos ânimos fracos. E o Seu Quim deliberou-se pelo mais fácil e mais cômodo. Passaram-se duas semanas felizes.

Guida, porém, não podia resistir tanto tempo a soprar uma vida fictícia num calunga. Abatia, cansava tanto bolir em molas.

O Seu Quim, à vista das amantéticas expansões dela, parece que ia tomando o pião na unha, julgando a coisa ser mesmo afeição real. Ora, afeto cativa. Assim, pois, ia assumindo umas veleidades de amante-senhor, tendo extraordinário prazer em ser pela sua parte amante-escravo.

Destarte, entrou a notar que repetidas vezes que o Secundino viesse ao Poço, a Guida ia infalivelmente para a sala. E foi inchando. Quis chamar-lhe a atenção, mas não se atreveu.

Havia justamente quinze dias que a Guida voltara da vila. Era hora de deitar, e a mulher entretida na prosa com o rapaz. O Seu Quim já cochilava. A Guida, vendo que não havia mais esticar conversa, empurrando familiarmente o joelho ao sobrinho:

— Vamos jogar a bisca? Seu Quim vá ver o baralho, está detrás do espelho.

— Está mesmo uma lua de tirar sono! - disse o rapaz, correndo a vista pelo exterior para disfarçar um beliscão que a outra lhe aplicara na coxa.

O Seu Quim apareceu com o baralho, e jogou de parceiro com a Carolina, que a Senhora chamara para esse fim. Não teve língua para dizer nada. E Guida de vento em popa na viagem do crime.

Decorreu em seguida uma semana morna. O Seu Quim principiava de novo a concentrar-se, e a Guida a expandir-se, em proporção, com quem já se sabe. Era jogatina de bisca e trunfo aos domingos, com as pessoas que pareciam, e quase todas as noites; eram passeios da Guida no seu cavalo preto, com os seus arreios pingando prata, como lá dizem, ora pela manhã, ora de tarde.

O Seu Quim passava o tempo no alpendre, a fazer peias de lapos de couro cru, no que era perito, a empalhar cangalhas e assentos de cadeiras velhas, e em quejandas ocupações.

Era de notar uma coisa naquela casa do Poço, que não passou despercebida ao Secundino: a não existência de afilhadas, raparigas que se criam em todas casas ricas do sertão, e costumam formar em redor da dona uma espécie de camareiras ou damas de honor. Elas, no Ceará, não têm propriamente a mucama, expressão que o Secundino não encontrou; e com o serviço já das afilhadas, já das escravas mais ou menos prediletas, e com a própria singeleza extrema dos costumes, vão-se arranjando bem.

Margarida era, pois uma criatura como ela mesma. Em casa, de branca, ela. O mais, preto, inferior, escravo, até o próprio marido, branco, é verdade, mas subalterno pela sua índole e por não ter trazido ao monte um vintém de seu.

Era agora pelas novenas da Senhora Sant'Ana, que dá o seu nome ao mês de julho. Na véspera da primeira noite havia o levantamento da bandeira, no pequeno arraial do Vavaú, a uma légua e três quartos do Poço, à beira da estrada que vem do Aracati.

Margarida às vezes sentia não poder casar bem, frisar, bem dar certo com o esposo que recebeu no pé do altar. E nesses estados de alma se atirava ao homem, a ver se enfim encontrava essa felicidade tão falada, que não conhecera jamais. E não seria tão bom - meditava, com o olhar para os matos - ir a gente no seu cavalo gordo com o seu rico maridinho, também no seu cavalo, e chegando ao Vavaú, serem recebidos por aquele povo com exclamações do fundo do coração, como se fosse com o seu rei e com a sua rainha? Depois, voltando para casa, cear bem, pondo o comer na boca um do outro, às beijocas, e ir enfim para a rede lavada e honesta?

Ficou muito tempo calada. Diante dela, ao longe, o verde dos serrotes do Papagaio e do Batista estava ficando sujo e ruço. Os dias já eram quentes, apesar do vento, que não podia trazer mais a umidade dos campos. Haviam desaparecido os passarinhos de maio a junho, que à primeira pontinha do dia entravam logo a trovar; parece que se iam afastando para onde houvesse mais verdura, frutos e grãos. Só o galo-de-campina continuava ainda na alvorada, todos os dias...

Triste vida! Triste vida! - bem dizia o bem-te-vi.

Enfim enxergou o Peste, como lhe chamava quando estava nos seus apuros:

— Ah! Seu Quim... quer ir hoje comigo ao levantamento da bandeira?

O Seu Quim, levantando a cabeça, estirou uma perna, puxando a agulha, em cujo furo metia a ponta de uma palha:

— Estou botando a segunda, o diabo é que a palha é muito grossa.

— Não é isto, senhor. Pergunto se quer ir comigo ao levantamento da bandeira.

— Que bandeira?

— Ora vá bugiar!... Da Senhora Sant'Ana - gritou - no Vavaú!...

O Seu Quim abaixou de novo a fronte, conchegando a si a peça que estava empalhando:

— Eu sou lá disso? - proferiu friamente, fazendo ponto final.

Margarida sentiu nas palavras inertes e no gesto parvo do homem todo o cheiro nauseante e porco de uma sovaqueira.

— Não quer? Ah, não quer! Está bom. Vou com o sobrinho - pensou de lá. E não perdeu uma noite.

Vavaú ficava para o Riacho do meio, aquém da Varge das Bestas. Era, na fulva aridez do sertão, um desses terrenos frescos onde aqui e acolá se encontram agrupações de carnaúbas, lembrando as tamareiras dos oásis. Havia duas lagoas e um córrego, que atravessava um brejado, onde se sucediam alguns sítios de coqueiros, com cajueiros e outras árvores do arisco. Perto, o rio deixava grandes poços de pesca. Lugar farto e ameno, porém doentio.

Concorria povo de muito espaço em derredor aos terços de Sant'Ana, porque aquilo era mesmo um bom divertimento e devoção. Vendiam garapa, rapadura, fumo, sodas, aguardente barata, bolo de mandioca e de milho, pé-de-moleque, tapiocas, beijus. O oratório era um quarto isolado, coberto de palha, sem ladrilho, com frente para a estrada, no sítio do Miguelzinho, para cuja vivenda Margarida tomava quando lá ia. O parente a recebia sempre com uma chalaça de boa troça:

— Aí vem ela! Aí vem a Baronesa!

Que era do banzeiro do Quim? Deus lhe desse bons-dias, ou boas-tardes. E corria para ajudá-la no apear. Aquilo era mulherzinha para dar trabalho a si mesma! Podia passar ali em casa dele os nove dias, mas não, queria era andar num pé e noutro...

— Pois então? Passar tempo parada não é o que faço em casa? Ficava lá então!

— E este peralta está pronto sempre a acompanhá-la, hem?

— Com muito gosto! - respondia o Secundino. - Também quais são as minhas ocupações?

Tocava o sininho, dependurado num esguio trapézio de estacas, debaixo de um cajeiro. Dos casebres, das veredas e de um e outro lado da estrada convergiam os ranchos de povo. A Sant'ana do Vavaú gozava reputação de milagrosa, e por qualquer coisinha estavam eles pegados com o seu santo patrocínio.

Havia um ou dois sambas todas as noites, e no repique da entrada e do sinal soltavam uns três foguetes, ao toque da rabeca e da viola, que formavam a orquestra. Tiros de roqueira de dia e de noite. Margarida babava-se daquilo, e tinha realmente fé na Santa!

O Vigário não gostava lá consigo de semelhantes solenidades, que faziam concorrência ao seu sortimento. O Miguelzinho sabia disso, mas por um lado a devoção aproveitava, e quando seu pai estabelecera os terços do Vavaú, fora porque já via nisso um meio indireto de lucro e de fazer aquele ponto merecedor de vir com o tempo a ser até uma povoação.

Antigamente havia lá um capelão pago pela melhor gente; mas o Miguel não esteve pelos autos, porque os contribuintes começaram a encostar-se. Assim mesmo, na véspera e dia da festa, sempre mandava buscar o vigário, porque nos matos não há chamariz para o povinho como um ministro da igreja.

O Major Quinquim largou-se também na véspera, com a mulher e o sobrinho. Dormiriam no Vavaú para passar o dia da festa com o Miguel, que oferecia um pingue almoço de panelada e quitutes de lamber o beiço.

Passada a festa, porém, quando a Guida quis partir, procurou pelo Seu Quim: Seu Quim tinha ido com o Vigário para a vila.

Naquela situação de espírito, o bom Major, todo o tempo que esteve no Vavaú, foi como que atrelado à pessoa protetora do Padre João Franco, seu amigo, seu chefe, e cura de almas. O Padre notara esse enrabichamento, e desconfiou do porquê, visto como a Guida pelo seu lado em toda a sua conversa era Secundino para aqui, Secundino para acolá.

E depois que montou a cavalo, entre os cavaleiros que o foram impor estava o Major, que não voltou com os demais, porém o acompanhou para a vila. O Padre, vendo-o continuar, exclamou bondoso:

— Ah! Major, você vem?

— Vou, Seu Vigário.

O Padre voltou a cabeça e lhe notou uma fisionomia parva. Que quereria aquele homem? Estava quase lhe dizendo que no seu caso a natureza ordenava que procurasse uma mulher, por despique, e nunca um sacerdote.

Grandíssimo pedaço de asno! pensou lá consigo. E demorando o passo, a fim de emparelhar com o outro:

— E preciso acabar com isso! pensou.

Em voz alta:

— Porém, vamos, que espécie de conselho queria você, quando estávamos debaixo do cajueiro?

O Major esporou o cavalo. O sacristão ficara atrás, porque montava um burro velho choutão. Iam assim sós, por aqueles descampados forrados de panasco loiro, eriçado de sabiazal, ao mormaço das cinco e meia...

— Eu sei?... respondeu por fim o outro com visível desalento.

O seu olhar não se punha em coisa alguma, incerto e vago como o vôo da borboleta ao ventozinho rasteiro da manhã.

— Ora, você não sabe? Quem saberá então?

— Homem, é a respeito daquilo...

— Daquilo de quê?... Desentale, se é que confia realmente em mim, homem de Deus.

— Do Secundino. É preciso fazê-lo retirar-se daqui. E diga: Não se poderá recrutá-lo?

O Padre prosseguiu sem responder. A resposta seria que não há só uma Maria no mundo. Ia o Secundino, podia aparecer-lhe outro pior...

— Major, você bem sabe que o nosso partido está debaixo.

— Mas, homem, o Padre Brasil, mesmo debaixo, há certas coisas que ele pode, principalmente sendo uma questão de honra.

— Porém, Major, recrutar um fazendeiro? Para que você fez seu sobrinho fazendeiro, para que lhe deu poder e fortuna?

— Eu?...

— Decerto que eu não fui, nem o meu sacristão. Escreva aos seus parentes, a ver se o mandam buscar, é melhor.

— Já escrevi. Foi trabalho perdido. Por lá ninguém pode com ele. Por lá ninguém o quer. Eu vou ver é se lhe casco novo processo.

— Novo processo? Por quê?

— Pela morte do Belmiro.

O Padre parou o cavalo a fim de olhar com atenção para o coitado:

— Homem de Deus, você mesmo não me pediu que escrevesse para ele ser absolvido? E de fato não o foi por unanimidade? Agora, é queixar-se ao Sem Jeito.

— Não. Enganei-me, não é pela morte do Belmiro... É por um defloramento; o Silveira sabe.

— Ora, pensou o Padre, achando o negócio muito puxado, ainda mais esta. Pobre idiota!

Estavam entre dois roçados. A luz do ocaso, o milhal amadurecido alastrava um belo rosado de cútis morena, e o mandiocal, com as suas folhas estreladas e embastidas, metia uma quadra verde intensa no aspecto já meio ruço dos campos.

— Em primeiro lugar, continuou o Padre, ponhamos o caso em si. Esta matéria é delicadíssima. É preciso o maior cuidado contra o demônio da suspeita. Eu acho que, não tendo você uma prova inconcussa da infidelidade, não tem o direito de amuar-se por esse modo, assim do pé pra mão. Com prudência e sabedoria, tudo você poderá conseguir... E, meu amigo, o matrimônio é um sacramento, o que Deus junta o homem não separa...

— É verdade...

E continuaram, até a vila, num silêncio cortado apenas por uma ou outra frase do sacerdote, procurando desviar o espírito do amigo, e pela algazarra das maracanãs, que recolhiam ao repouso.