Dona Guidinha do Poço/III/IV

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Quarto, Capítulo IV


Houve, porém, nessa madrugada, uma missa por alma de uma parenta do Vigário, falecida na Capital, estimadíssima na localidade. Era como se tivera falecido ali mesmo, de corpo presente, assim a caridade e pio sentimento com que foram tributadas aquelas derradeiras e longínquas cerimônias.

A vila acordou com o toque de sinais.

Despreocupada, na sua perene abstração de amante visionária, a Lalinha ergueu-se da rede, meio vestida na camisa de talho de rendas, que era só em que parecia luxar, como para festejar em si mesma todos os imensos e imateriais desejos de todo aquele corpozinho. Enfiou a meia do pé direito, e ao pegar na outra, correu com a mão, acudindo no seio à mordidela de uma pulga, que se foi, porque nisso de dentadas a gente não deve ir só pela coceira, mas de ponto feito logo ao bicho que ferrou.

Calçou a meia do pé esquerdo e apertou o atilho, acima do joelho, naquela delicada coluna de carne, que lhe sustentava o corpo, tabernáculo onde o Amor acendia a lâmpada sacramental a um coração. Pôs ao pescoço o terço de contas, que pendurava sobre o quadro de Nossa Senhora quando ia deitar-se. Ali, já batendo com os lábios a oração da manhã, que sabia de cor. Enfiou as saias. Tremeu, quando mergulhou a trabalhada cabecinha pelas sedas pretas do vestido, para a missa de requiem. Tão mal, ó meu Jesus, que ia aquele traje soturno sobre quem somente foi feita para a alvura das flores de laranjeira! O rosto, entretanto, irradiava juvenil e formoso na noite da roupa de luto, com a aurora que ia agora mesmo rompendo no horizonte escuro daqueles sertões.

Abriam-se as portas, vinham claridades furtivas para a rua.

Caminharam para a igreja.

Lalinha, ao entrar, fez um arrastado de pés de quem pisa em capacho; beirou o funério pano estendido ao meio da nave entre dois círios acesos. Ajoelhou-se junto à grade. Pela porta do lado entrava finalmente a eterna mocidade do amanhecer, e de longe, a juriti, no mato, ali ao romper da alva, fazia ressoar de vez em quando a frescura daquela embalsamada atmosfera de junho com sua belíssima nota de inimitável diapasão.

Pelas seis e meia atravessou o largo da matriz a cavalgata da Dona Guidinha, que se retirava para a fazenda. Compunham-na diversos cavaleiros, pessoas gradas entre as quais o juiz, pai da Lalinha. Era costume, daquela senhora, pródiga, respeitada, festeira e influente, soltar criminosos, obrigar a casamentos, e ser sempre assim honrada de longas comitivas à entrada e saída da vila, tanto mais quanto poucas vezes no ano vinha ela agora ali.

Chuviscava. Lalinha influiu-se porque o pai se largava com os outros ao Poço da Moita, e foi também. As duas senhoras esquipavam na frente. Atrás, distanciando-se cada vez mais, o Naiú, escanchado na cangalha, de cujos cabeçotes pendiam duas malas de couro cru, meio vazias, que ao chouto entravam num vascolejar de balofo.

Assim chegaram todos com cedo e alegremente.

Às 11 horas e meia, todos à mesa, no casarão do Poço. Passariam o dia, apesar de que a exigência de Dona Guida era que pelo menos só se fossem no fim de uma semana. O Quinquim se havia largado para o campo ao amanhecer, deixando dito que voltaria ali ao pender do sol.

Foi um almoço jovial. Apesar de ser a sala mal servida de janelas e portas, podendo ser muito mais clara, contudo chegava bastante luz para a calva do Juiz de Direito expor-se ao topo da longa mesa, naquele gostoso dia de vilegiatura, caseiro e recolhido que era de seu natural o bacharel.

O Conrado Bonfim, com a sua barba de bode, comia mais com os olhos, envidraçados nos seus óculos escuros, do que com a boca. Em presença do juiz ficava acanhado.

A Lalinha fazia de muito sabida, mas o caso é que se inquietava pela ausência do Secundino, que parecia a cada momento arrebentar pela porta dentro. Num gesto, caiu-lhe da mão um prato que recebia da preta, e se arrebentou:

— Minha Nossa Senhora!

Guida olhou, e caçoou dela.

Serviu-se muito vinho. O juiz deitou verbo à prosperidade do ditoso casal Barros, brindado na pessoa da Exma. Sra. Dona Margarida, que reunia em si todas as excelsas virtudes de digna esposa e de mãe de família exemplar. Que ela recebesse, visto como o Major, seu muito digno esposo, andava no desempenho do trabalho, que nobilita, os seus reverentes preitos de homenagem a tão preclaro cidadão...

Seguiram-se diversos brindes no mesmo rojão, embora em diversa gramática.

Conquanto o sol já começasse como que a pesar sobre o telhado, ainda não havia na paisagem o tristor das folhas murchas. Vinha o Quinquim encourado, pela vereda, que depois da vaquejada como que o homem se tornou vaqueiro e dos bons. Era seu prazer patentear força, até sem necessidade, desencontrada como idéias de doido. Quixoteava. Outras vezes banzava a espiar para as matas fora e quem o visse diria que ali estava a sua cabeça a remoer grandes coisas. A inércia o semelhava a poeta filósofo, a agitação a desmiolado. Uma vez meteu-se por umas moitas da beira do rio, no encaço de um boi fubá, catinga cerrada, por entre voltas de mofumbo, onde mesmo não podia haver vaqueiro bom nem cavalo esperto, que o Néu exclamou: - Mode coisa que seu Manjó tá é o diacho!

Papocou de casa adentro ali obra de um quarto depois de meio-dia, ainda a troça a almoçar.

E foi logo um Vivôo! de satisfação, dentre os comensais, quando ele, surpreso e surpreendido, encheu a porta da sala de jantar com a sua grossa corpatura metida em couros, arrastando as enormes esporas de campear.

— Deus dê um bom-dia! - e avançou com um sorriso frouxo, dirigindo-se primeiramente ao juiz, que se pôs de pé em largas cortesias, e quis forçá-lo a sentar-se na sua cadeira, impertinência de que o Major se livrou a pretexto de ir mudar de roupa.

Apertou a mão a convidado por convidado, em derredor da mesa, no rigor da polidez sertaneja desses tempos.

guida perguntou logo se passara na Goiabeira: Lalinha ia apanhar a resposta, mas o Major não respondeu, caminhando para o quarto a fim de vestir-se, que mesmo ali entre gente do sertão, por serem de povoado, sempre não olhavam a roupa de couro como gentileza bastante para os arrebiques do bom trato.

E passou-se aquele dia sem novidades de maior monta, o Quim falando pouco, e quando se pronunciava era sobre misteres do campo. Começava a detestar a espécie, achando sentimento antes na natureza bruta.