Dona Guidinha do Poço/IV/III

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Quinto, Capítulo III


Meia dúzia de patacões no fundo do baú não são falsos a ninguém, e o Seu Antônio havia apurado lá os seus. Criara juízo a tempo.

Desde que passara de fábrica a vaqueiro, soubera tirar todo o proveito dos quartos que lhe cabiam, não os vendendo em garrotes nem novilhotes, mais em bois refeitos, e deixando sempre o gado fêmeo para dar cria e aproveitar os queijos. Estava, pois, armado contra a emergência. Entretanto, não era sem violentar-se a si mesmo que abandonava assim, à laia de retirante, da noite pro dia, o Poço da Moita, onde gastou os anos da mocidade, gozando ainda hoje a lembrança dos bons tempos do Capitão-Mor Reginaldo. Torcia o rosto, para não lhe descobrirem o contrafeito da fisionomia. A Mercês era toda arrumação. E às duas horas da tarde, cargas acima, tudo a cavalo, meninos nos costais de mala e na garupa, lá descia talvez para sempre o alto da fazenda o rancho do velho vaqueiro.

A Guida, por mais que fizesse, não pôde reduzi-lo a ficar. O homem dera com a cabeça para um lado, e acabou-se. Foi, contudo, generosa. Comprou-lhe a casinha com as benfeitorias, as cabeças de criação, as vacas paridas, e fez seus presentezinhos aos meninos, com especialidade ao afilhado.

Isto mais compungia Ao vaqueiro. O Quim teve com ele uma larga conferência, e lhe pediu que viesse no dia seguinte para entregar a vaqueirice ao João Tanguera.

Pobre Quim! Deu um apertado abraço de despedida ao seu comovido campônio.

Andava sobressaltado o Major pelo repentino rompimento com o sobrinho, por trás do qual aparecia a insolência assassina do Silveira. A Guida lhe fizera ver, a estradeira! Que tivesse juízo, que não fosse precipitado. Ele fingia acreditar nisso para evitar um maior mal. Desconfiava, porém, com fundamento, que o Secundino por força que andaria tramando contra ele.

Por seu lado, o outro cogitava o mesmo a seu respeito. De fato, na véspera da partida, que tinha demorado, apareceu por baixo da porta o seguinte ultimatum, mal escrito em quarto de papel machucado:

"Sr. Major Joaquim Damião;

Temos a certeza de que o Sr. tem aproposito di mandar três peçoas deste lugar para u outro mundo porém tenha sentido no bote que pretender dar v. s. se ouver uma hora de diferênçia no açalto Que imprende, aviso-lhe como Amigo que não hade ter tempo de arrepender-se do que fez porque do que ficar no correr desta hóra o menor pedaço que lhe deixa he a urelha.

O Amigo da Paz."

O Quim estremeceu. Ali andaria dedo da Guida!

Não teve dúvida. Era o dia de fazer viagem para a Capital. Partiu.

Aí chegando, porém, em vez de consultar ao facultativo, foi pedir garantias para a sua vida ao Chefe de Polícia, e aconselhar-se com o Padre Brasil a respeito do desquite. O amigo respondeu-lhe às diversas impertinências: que só aprovava o divórcio não sendo possível nenhuma conciliação, que neste caso seria mais conveniente para a tranqüilidade do seu espírito que antes de sentença do juiz eclesiástico a mulher não podia dispor livremente dos bens, mas ele sim; que ela tinha direito de pedir em juízo que lhe desse alimentos, e o juiz poderia marcar-lhe uma diária razoável...

E mais não sei quê. Naquilo, finalmente, em que lhe pudesse prestar serviço, estava ao seu dispor.

Quanto ao Chefe de Polícia, este lhe assegurou nada mais fácil do que prender ao Secundino, se incorresse nisso, pois, acima de tudo, a lei e o prestígio da autoridade. O Quim declarou que se a autoridade quisesse pegava-o, porque o sujeito fazia muitas. E tratou, por exemplo, do defloramento, da intriga com o Dr. Motezuma, e queijandos antecedentes.

Pois guardasse segredo, disse-lhe o chefe, e deixasse estar, que ia determinar ao delegado que tomasse a peito os negócios do Major, que lhe concedesse licença para andar acompanhado de gente armada. O Major que se considerasse garantido: ia mandar reforçar o destacamento, com praças de linha, e escreveria também pelo Major ao Dr. Montezuma, pedindo informações.

Eis volta o homem para o sertão com a cabeça cheia de caraminholas, na crença de que o Secundino seria breve catrafilado, restabelecendo-se dessa feita a paz doméstica. Segredou esta convicção ao Vigário:

— Pois sim, pois sim, concordou o sacerdote: que o consiga são os meus votos!

Entretanto, nada de tornar ele para o Poço da Moita.

— Você assim está demonstrando que repudiou sua mulher, Major! - interveio um dia o cirurgião Sampaio. Não dê o seu direito a ninguém.

— Não dou, não; eu irei, mas quero apenas tomar altura...

E remanchando, remanchando, não ia. O povo é que firmava de mais em mais o seu juízo a respeito. Era, então, verdade o que se espalhava? Uma ocasião até o homem, referindo-se à mulher, dissera um nome feio...

O Reverendo João Franco, vendo a hora que o escândalo ficava irremediável, aproveitou depois da missa o ensejo de uma confissão e se abalou para o Poço, a ter com a Guida.

Ia pelo caminho imaginando num meio hábil de tocar no assunto. Agiria. Aceitaria descanso e almoço. Perguntaria quando vinha o Major... E dê-lhe por aí, Seu Padre João!

Olhava para o azul, implorando auxílio dos seus Santos, ao passo do cavalo. As pombas de bando, que estavam com pombal no Serrote do Camaleão, passaram para o Sul, de enxame em enxame, produzindo no ar o intenso fru-fru de milhares e milhares de asas. Começavam os bandos a sair desde o clarear do dia, até o sol alto, e à tarde desciam para o pombal. O Reverendo parou para contemplar uma enfieira interminável delas, pelo céu além, de horizonte a horizonte.

Alguns pequenos bandos desgarrados, mais perto dele, faziam um zunido trepidante, em vôo menos alçado, cortando o vento.

O mato, de todo seco, estendia-se debaixo do céu, com uma aparência de cabelos estaqueados, avistando-se o solo a grande distância por entre os garranchos. Lá um ou outro tufo amortecido de fronde vivaz.

O Reverendo mirava aquilo em derredor, e, na emoção, deprecava para o Altíssimo:

Providência admirável, que nutria aqueles milhões de seres vivos naqueles desertos, que com uma gota d'água ressuscitava aqueles matos secos e cobria de suculenta pastagem aquele chão estorricado, se lembrasse também do coração humano, da alma humana que é de essência divina, e não os desprezasse! Ajudasse-o na missão aque ia! Senhor, vós dissestes: Antes atirar-se ao fundo do mar com uma pedra ao pescoço do que dar escândalo! Que ia ele fazer? Daquilo dependia a paz e a salvação de muitas almas! Senhor, concedei-lhe a divina graça...

Daí, pediu a Nossa Senhora, e não sei mais a que Santos.

Apeou no Poço muito confiante.

O certo é que da Guida não colheu proveito.

Quando o Reverendo, depois de palrar uma porção de coisas, teve ânimo de declarar que viera formalmente para aquilo, a matrona se mostrou surpreendida. Que não sabia de nada, não. Julgava que o Seu Quim se demorava na vila era para estar mais perto do cirurgião, pois por doença é que armara a viagem à cidade do Ceará. Então ele falava em divórcio? Estava doido, coitado! Divórcio quem podia requerer seria ela pelos maltratos que ele lhe dava. O Seu Vigário bem sabia que ela casara com aquele homem para fazer os gostos do pai. Há mais de dezesseis anos, só ela sabia a vida penosa que vinha suportando...

O Padre enfiou. Em todo caso, podia contar com a boa vontade para qualquer conciliação?

— Por certo, respondeu a Guida, quem não deve não teme!

Retirou-se o Padre do Poço da Moita já de tarde.

Guida tratou-o como de costume, à vela de libra. Deu esmola para obras da Matriz e mandou dizer mais uma capela de missas por alma da tia Anginha.

Ficou olhando para o rumo onde ele desapareceu na baralha do cavalo, sob o guarda-sol aberto. Abençoada fora a sua vinda! Abençoada ou maldita? Estremeceu com esta disjuntiva.

Mas não era mulher para recuar. A quem Deus prometera um tostão não dava um milhão, e ela stava disposta a tudo, bem ou mal. Estendeu o braço para a direção onde ficava Cajazeiras, em ar de juramento:

— O Major Facundo, na Capital, foi pela noite: mas tu serás ao meio-dia em ponto, Major de borra!

E ficou meditativa.

Era pois verdade tudo que lhe vieram dizer a respeito do marido! Bastavam aqueles bons ofícios do vigário para prova de que o Sr. Quim andava fora das estribeiras. Mesquinho, mentiroso e infame! Ir à Capital, com partes de doente, para queixar-se à polícia que o Secundino o queria matar e pôr na lama a honra de sua mulher! Intentar divórcio contra ela?... Por adultério?... Que estava sendo ela então para todo o Ceará, para todo o mundo, que a ruim fama corre mais que o pensamento, senão uma morixaba? Era mister uma desafronta capital de semelhante injúria. Questão de ponto de honra.

Assim gerou-se-lhe uma idéia sinistra. Não era mais a mulher, nem o marido, nem o homem, senão o indivíduo, independente de sexo e condição, o espírito do bárbaro sertanejo antigo, reincarnado, que queria vingança à luz do sol.