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Ecos da minh'alma/Ao Snr. Antonio Gonçalves Dias

(Lendo teus versos mimosos)
por Adélia Fonseca
Poema publicado em Ecos da minh'alma.
AO SNR.DR ANTONIO GONÇALVES DIAS.


Lendo teus versos mimosos,
Primos cantos maviosos,
Ao Senhor graças rendi;
Sim, fiquei-lhe agradecida
Por dar-te o berço da vida
No paiz onde eu nasci.

No teu canto ha tal brandura,
Ha tão meliflua doçura,
Que do céu vindo parece;
Parece d'elle emanado
Esse genio sublimado,
Que á tua mente esclarece

Eu, Poéta, te bemdigo
Por seres fiel amigo
Da terra do meu amor;
Por louvares as palmeiras
E as aves brasileiras,
Eu te bemdigo, Cantor.

Bemdigo a vóz soberana
D’essa lyra americana,
Que o prazer me infiltra n’alma,
Quando diz que, na lindeza,
Essa terra portugueza
Á de Cabral cede a palma.

Da nossa patria querida,
Pintas nos bosques mais vida,
Nas varzeas pintas mais flores;
Pintas no céu mais estrellas,
E nossas vidas mais bellas,
Mais abundantes de amores.

No teu canto ha tal brandura,
Ha tão melíflua doçura,
Que do céu vindo parece;

Parece d'ellè emanado,
Esse genio sublimado,
Que á tua mente esclárece.

Esse auctor da —Harpa do Crente,
Que nos diz tão docemente
Do desterrado as tristezas;
Esse Poéta estrangeiro,
Louvor teceu verdadeiro
De tua musa ás lindezas.

Elle, ó Vate, conheceu
Que tinhas no livro teu
Toda a tu' alma entornado;
Ora ardente, impetuosa,
Ora sentida e queixosa,
Carpindo azares do fado.

Eu creio que Deus te ensina
Essa linguagem divina,
Em que aos anjos sóe fallar;
Só Elle o gosto te inspira,
Com que vibras essa lyra,
Que tanto sabe encantar.

Torrentes de poesia,
De suave melodia,
Das cordas d’ella derramas,
Descrevendo os attractivos
De olhos negros, expressivos,
D’esses olhos que tu amas;

D’esses olhos, que de amores
Dizem tão lindos primores,
Fallam com tanta paixão;
As vezes quêdos brilhando;
Outras vezes abrasando,
Qual incendido vulcão!

Esse teu canto gentil
Tenho lido vezes mil,
Vezes mil tem-me encantado;
E bem feliz me sentira,
Si, como tu, possuira
Ingenho tão elevado.

Si ouvisse Deus minha préce,
Si conceder-me quizesse
Um ingenho igual ao teu,

Voz como a tua tão pura,
Que deixa ouvir na doçura
As harmonias do céu;

Quando o teu genio, Poéta,
Visse, veloz como a séta,
Do céu as portas transpor;
Quando unisses lá teus hymnos
A esses cantos divinos,
Que se entôam ao Senhor;

Teria, como desejo,
Seguido o rapido adejo
De teu estro na amplidão;
Transbordando de alegria,
Com elle penetraria
De Deus na sacra mansão!

Lá co’os anjos entoára,
Em voz, como a d’elles, clara,
Mil louvores ao Senhor;
Depois, ao teu genio unida,
Cantára a patria querida,
A terra do meu amor.

8 de Janeiro de 1851.