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Espumas Flutuantes por Castro Alves
Castro Alves (por Alberto de Oliveira)
Notícia biográfica sobre Castro Alves, de autoria de Alberto de Oliveira, incluída na "nova edição, correcta e augmentada" de 1913.


Se a maior ou menor procura das obras de um auctor desse estalão para justamente medil-o, os maiores poetas brasileiros, consoante este criterio, seriam Castro Alves e Casimiro de Abreu. Das Espumas Fluctuantes e das Primaveras é pena e sensivel lacuna em nossa bibliographia se não saiba ao certo o numero das edições que circulam no paiz, reparo este já feito por José Verissimo, que na carencia de dados estatisticos e a julgar apenas pela venda das obras, dá Castro Alves como o mais popular dos poetas dos ultimos trinta ou quarenta annos.

A sensibilidade morbida de Casimiro, a repassar-lhe as estrophes balouçadas num rhythmo de paixão e tristeza, e o enthusiasmo do cantor do Livro e a America e tambem seu lyrismo ardente creio justificam a predilecção, entrando também aqui, como elemento de sympathia, a vida de ambos cortada em flôr e ainda quanto ao primeiro o seu infortúnio.

Em favor de Castro Alves accresce a qualidade de combatente na causa intensamente popular que foi entre nós a da abolição do elemento servil, podendo-se affirmar haverem-se vulgarizado tanto como o Ashasverus ou o Gondoleiro do amor, as Vozes d′Africa e o Navio negreiro.

Ser bem acceito ao publico nào constitue, porém, regra absoluta para julgar do merecimento de qualquer escriptor. «A popularidade de um artista — pondera avisadamente o illustre critico acima citado — tanto póde ser um signal de sua superioridade, como de sua inferioridade, se bem eu esteja convencido de que, de uma maneira geral, e bem pesado o merecimento dessa popularidade, ella prova pelo menos que o artista soube impressionar o povo, transmittir-lhe a sua emoção e excitar o seu sentimento.»

É o caso do poeta bahiano. Seu communicativo enthusiasmo, o calor e apaixonado sentimento de seus versos, realçados quando elle os recitava, por uma palavra magica, que suggeriu a Ruy Barbosa a reminiscencia da pagina homerica ao referir-se o poeta grego a Thalthybios, arauto de Agammenon, «semelhante aos deuses pela voz», perduram, captivando ainda os que o lêm. Não são mais os homens de seu tempo, ou pelo menos não são os moços como elle, de sua epoca, mas é a mesma alma nacional que ahi está e continúa de admiral-o e querer-lhe.

É que o poeta em certo periodo da vida collectiva soube representar essa alma, communicar-lhe a propria emoção, dar cópia do sentimento della, no que ha neste mais ardente e mais intimo. Foi o verso o instrumento maravilhoso de que para tal fim se serviu. A sua arte é completa, porque para tanto lhe foi bastante.



Não vamos reparar na frouxidão de alguns versos ou no as vezes desmaiado matiz das rimas e até em algumas que não o são. O apuro destas cousas veio mais tarde. Tão pouco lhe estranhemos a falta de ordem e connexão em varias estrophes, as extravagancias da hyperbole, o abuso da antithese. Não lhe esmiucemos tambem senões de palavras, ou o que ha nellas destoante da pureza classica. Elle tinha vinte annos ou pouco mais. Julgando-o em sua idade e seu tempo, dentro desta dupla circumstancia, não ha contradictar que, á parte a assombrosa precocidade de Alvares de Azevedo, é elle o mais genial dos nossos cantores. Menos daquelles annos, dezesete apenas contava, e já era o poeta da Mocidade morta e Dalila. Aos dezoito escrevia Pedro Ivo. E essas Vozes d′Africa, e os Jesuitas e o Navio negreiro, por não mencionar tantos outros primores, sorprehendem-nos — paginas excepcionaes de alta inspiração em nossa poesia — como producções de um espirito que mal despertava. Ha ahi a irradiação crescente e colorido do madrugar espiritual de um Hugo, Schelley ou G. Leopardi.



Raymundo Corrêa em um de seus admiraveis sonetos, caracterizando em traço rapido as musas dos nossos principaes poetas romanticos, ao chegar a vez da de Castro Alves, glosa-lhe um bello alexandrino e mostra-a, em lugar da harpa de ouro,

                         Tendo
Na mão brilhante a trompa bronzeada.

Assim a imagina o poeta das Pombas; vemo-l'a tambem assim, e não de outro modo a sentiu, ao approximar-se, a virgem serrana das cadenciadas quintilhas do Hospede:

Uma buzina restrugiu no valle,
Junto aos barrancos onde geme o rio...
De teu cavallo o galopar soava
E teu cão, ululando, replicava
Aos surdos roncos do trovão bravio.

Essa buzina de amazona, a cujos accentos em outras occasiões, como á de Oberon-Shakespeare, acodem mil sêres phantasticos, emitte não raro sons epicos.

A musa de Castro Alves, tào altanada e possuida de ardor bellico como a de Tobias, ama tambem o lumo da guerra. Exceptas algumas estancias camoneanas , não conheço em nossa lingua outros versos tão vibrantes de estro mavortico como estes da Ode ao dois de Julho:

No emtanto a lucta recrescia indomita...
As bandeiras, como aguias erriçadas,
Se abysmavam com as azas desdobradas
Na selva escura da fumaça atroz...
Tonto de espanto, cégo da metralha,
O archanjo do triumpho vacillava...
E a gloria desgrenhada acalentava
O cadaver sangrento dos heroes!...

É nestas inspirações, quando elle, qual Phaeton á quadriga apollinea, mal póde reger as bridas á imaginação vertiginosa, que o tacham de condoreiro. Ha realmente nas producções deste genero extravagancias que não se explicam ou só se explicam pelos excessos proprios de escolas literarias. Não foram menores desvios do bom gosto as empolas e arrebiques de estylo dos marinistas e gongoristas.

Amamol-o, entretanto, ainda assim, com todos os desequilibrios do vôo impetuoso, pois se hoje temos olhos que os notem e até reprovem, diverso era o nosso sentir, quando sem reservas o applaudiamos, ás primeiras leituras da mocidade.

Alberto de Oliveira.