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Estâncias a Emma
por Alexandre Dumas, filho, traduzido por Machado de Assis
Poema agrupado posteriormente e publicado em Falenas (1864).
I



Sahímos, ella e eu, dentro de um carro,
Um ao outro abraçados; e como era
Triste e sombria a natureza em torno,
Ia comnosco a eterna primavera.

No cocheiro fiavamos a sorte
D'aquelle dia, o carro nos levava

Sem ponto fixo onde aprouvesse ao homem;
Nosso destino em suas mãos estava.

Quadrava-lhe Saint-Cloud. Eia! pois vamos!
É um sitio de luz, de aroma e riso.
Demais, se as nossas almas conversavão,
Onde estivessem era o paraiso.

Fomos descer junto ao portão do parque.
Era deserto e triste e mudo; o vento
Rolava nuvens côr de cinza; estavão
Secco o arbusto, o caminho lamacento.

Rímo-nos tanto, vendo-te, ó formosa,
(E felizmente ninguem mais te via!)
Arregaçar a ponta do vestido
Que o lindo pé e a meia descobria!

Tinhas o gracioso acanhamento
Da fidalga gentil pisando a rua;
Desaffeita ao andar, teu passo incerto
Deixava conhecer a raça tua.

Uma das tuas mãos alevantava
O vestido de seda; as saias finas

Ião mostrando as rendas e os bordados,
Lambendo o chão, molhando-te as botinas.

Mergulhavão teus pés a cada instante,
Como se o chão quizesse alli guardal-os.
E que afan! Mal podiamos nós ambos
Da cubiçosa terra libertal-os.

Doce passeio aquelle! E como é bello
O amor no bosque, em tarde tão sombria!
Tinhas os olhos humidos, — e a face
A rajada do inverno enrubecia.

Era mais bello que a estação das flôres;
Nenhum olhar nos espreitava alli;
Nosso era o parque, unicamente nosso;
Ninguem! estava eu só ao pé de ti!

Perlustrámos as longas avenidas
Que o horizonte cinzento limitava,
Sem mesmo ver as deosas conhecidas
Que o arvoredo sem folhas abrigava..

O tanque, onde nadava um niveo cysne
Placidamente, — o passo nos deteve;

Era a face do lago uma esmeralda
Que reflectia o cysne alvo de neve.

Veio este a nós, e como que pedia
Alguma cousa, uma migalha apenas;
Nada tinhas que dar-lhe; a ave arrufada
Foi-se cortando as aguas tão serenas.

E nadando parou junto ao repucho
Que de agua viva aquelle tanque enchia;
O murmurio das gottas que tombavão
Era o unico som que alli se ouvia.

Lá ficámos tão juntos um do outro,
Olhando o cysne e escutando as aguas;
Vinha a noite; a sombria côr do bosque
Emmoldurava as nossas proprias mágoas.

N'um pedestal, onde outras phrases ternas,
A mão de outros amantes escreveu,
Fui traçar, meu amor, aquella data
E junto d'ella pôr o nome teu!

Quando o estio volver aquellas arvores,
E á sombra d'ellas fôr a gente a flux,

E o tanque reflectir as folhas novas,
E o parque encher-se de murmúrio e luz,

Irei um dia, na estação das flôres,
Ver a columna onde escrevi teu nome,
O doce nome que minha alma prende,
E que o tempo, quem sabe? já consome!

Onde estarás então? Talvez bem longe,
Separada de mim, triste e sombrio;
Talvez tenhas seguido a alegre estrada,
Dando-me aspero inverno em pleno estio.

Porque o inverno não é o frio e o vento,
Nem a erma alameda que hontem vi;
O inverno é o coração sem luz, nem flôres,
É o que eu hei de ser longe de ti!


II



Correu um anno desde aquelle dia
Em que fomos ao bosque, um anno, sim!

Eu já previa o funebre desfecho
D'esse tempo feliz, — triste de mim!

O nosso amor nem vio nascer as flôres;
Mal aquecia um raio de verão
Para sempre, talvez, das nossas almas
Começou a cruel separação.

Vi esta primavera em longes terras,
Tão ermo de esperanças e de amores,
Olhos fitos na estrada, onde esperava
Ver-te chegar, como a estação das flôres.

Quanta vez meu olhar sondou a estrada
Que entre espesso arvoredo se perdia,
Menos triste, inda assim, menos escuro
Que a duvida cruel que me seguia!

Que valia esse sol abrindo as plantas
E despertando o somno das campinas?
Inda mais altas que as searas louras,
Que valião as flôres peregrinas?

De que servia o aroma dos outeiros?
E o canto matinal dos passarinhos?

Que me importava a mim o arfar da terra,
E nas moutas em flôr os verdes ninhos?

O sol que enche de luz a longa estrada,
Se me não traz o que minh'alma espera,
Pôde apagar seus raios seductores:
Não é o sol, não é a primavera!

Margaridas, cahí, morrei nos campos,
Perdei o viço e as delicadas côres;
Se ella vos não aspira o halito brando,
Já o verão não sois, já não sois flôres!

Prefiro o inverno desfolhado e mudo,
O velho inverno, cujo olhar sombrio
Mal se derrama nas cerradas trevas,
E vai morrer no espaço humido e frio,

É esse o sol das almas desgraçadas;
Venha o inverno, somos tão amigos!
Nossas tristezas são irmãs em tudo:
Temos ambos o frio dos jazigos!

Contra o sol, contra Deos, assim fallava
Dês que assomavão matinaes albores;

Eu aguardava as tuas doces lettras
Com que ao céo perdoasse as bellas côres!

Ião assim, um após outro, os dias.
Nada. — E aquelle horizonte tão fechado
Nem deixava chegar aos meus ouvidos
O écho longinquo do teu nome amado.

Só, durante seis mezes, dia e noite
Chamei por ti na minha angustia extrema;
A sombra era mais densa a cada passo,
E eu murmurava sempre: — Oh! minha Emma!

Um quarto de papel — é pouca cousa;
Quatro linhas escriptas — não é nada;
Quem não quer escrever colhe uma rosa,
No valle aberta, á luz da madrugada.

Mandão-se as folhas n'um papel fechado;
E o proscripto, anciando de esperança,
Póde entre-abrir nos labios um sorriso
Vendo n'aquillo uma fiel lembrança.

Era facil fazêl-o e não fizeste!
Meus dias erão mais desesperados.

Meu pobre coração ia seccando
Como esses fructos no verão guardados.

Hoje, se o comprimissem, mal deitava
Uma gotta de sangue; nada encerra.
Era uma taça cheia: uma criança,
De estouvada que foi, deitou-a em terra!

É este o mesmo tempo, o mesmo dia.
Vai o anno tocando quasi ao fim;
É esta a hora em que, formosa e terna,
Conversavas de amor, junto de mim.

O mesmo aspecto: as ruas estão ermas,
A neve coalha o lago preguiçoso;
O arvoredo gastou as roupas verdes,
E nada o cysne triste e silencioso.

Vejo ainda no marmore o teu nome,
Escripto quando alli comigo andaste.
Vamos! Sonhei, foi um delirio apenas,
Era um louco, tu não me abandonaste!

O carro espera: vamos. Outro dia,
Se houver bom tempo, voltaremos, não?

Corre este véo sobre teus olhos lindos,
Olha não caias, dá-me a tua mão!

Choveu: a chuva humedeceu a terra.
Anda! Ai de mim! Em vão minh'alma espera.
Estas folhas que eu piso em chão deserto
São as folhas da outra primavera!

Não, não estás aqui, chamo-te embalde!
Era ainda uma ultima illusão.
Tão longe d'esse amor fui inda o mesmo,
E vivi dous invernos sem verão.

Porque o verão não é aquelle tempo
De vida e de calor que eu não vivi;
É a alma entornando a luz e as flôres,
É o que hei de ser ao pé de ti!