Filomena Borges/III

O jantar correu melhor do que se podia esperar; Filomena mostrou-se muito amável às suas visitas e, sem se dar mais a uma do que a outra, sempre risonha, afável e cheia de espírito, dividindo-se por todas elas a um só tempo, mostrou quanto era profunda na complicada ciência de agradar em casa, na mesma ocasião, muita gente reunida.

Fez-se música; houve canto e conversou-se a valer.

Ao retirarem-se às dez e meia, iam todos penhorados pela dona da casa e plenamente convencidos de que não havia no mundo inteiro um marido mais feliz do que João Touro.

O que, entretanto, não obstou que o pobre homem três dias depois caísse numa melancolia taciturna e pesada, que lhe tirava o gosto para tudo, até para o trabalho. Emagrecia a olho visto, e com as suas gorduras fugiam-lhe as belas cores do rosto e escapava-lhe dos lábios aquele calmo sorriso de felicidade, seu bom companheiro de tantos anos.

É que a portinha do quarto da esposa continuava fechada por dentro.

— Aquilo não era mulher para o Borges! murmuravam os maldizentes, ao vê-lo tão puxado e abatido.

— Olhe que ela o tem derreado! considerava outro.

E a verdade é que o infeliz estava apaixonado e apaixonado deveras. Para fazer as pazes (restritas, bem entendido) com a mulher, depois do primeiro arrufo do almoço, teve que lançar mão de todos os recursos da humildade e da súplica.

— Procure ser-me agradável! aconselhou Filomena, e o senhor obterá de mim tudo quanto quiser!...

— Mas em que lhe posso ser agradável, minha querida... A senhora bem vê que faço para isso tudo que está nas minhas mãos!...

— Talvez assim lhe pareça, mas juro-lhe que o não é! Por exemplo — por que razão não se resolve desde já o meu caro esposo a abandonar esse hábito insuportável de rapé... hábito, que, só por si, é quanto basta para o incompatibilizar comigo?

Borges corou e prometeu nunca mais tomar rapé:

— Não fosse essa a razão!...

— Aí tem já o senhor por onde principiar: &mdashEu tanto abomino o vil e baixo rapé, quanto gosto do aristocrático perfume do charuto. Experimente fumar um! Eu mesma posso encarregar-me de prepará-lo. Já vê que não sou tão má — até lhe aponto os meios, que o seu coração devia ser o único a descobrir para conquistar o meu.

E, depois de fazer vir uma caixa dos melhores charutos que se encontraram, tomou um, trincou-lhe fraciosamente a ponta, e disse, passando-o ao marido:

— Vamos lá! Sente-se aqui ao pé de mim... Muito bem.

E, riscando um fósforo: — Principiemos!

Borges hesitava.

— É que eu nunca fumei, filhinha... objetava ele timidamente.

— Oh! que grande sacrifício! E encheu a boca com a frase — "Nunca fumou!" E os outros?..., os que fumam?..., acenderam o primeiro charuto só depois de habituados a fumar?!...

— Isto pode fazer-me mal...

— Pois então não fume! Ora essa! respondeu ela, erguendo-se já amuada. Quando para fumar é isto, quanto mais...

— Vem cá, menina, vem cá! Oh! Tu também te esquentas por qualquer coisa! Eu não disse que não fumava!...

— Pois então vamos lá! tornou a formosa mulher com uma pontinha da faceirice.

— Acenda...

— Tu és os meus pecados!... disse o Borges obedecendo.

— Acenda direito..., recomendou Filomena, fazendo-se amável. — Não chupe com tanta força! Assim... assim! Veja como vai bem agora!

E o Borges fumava afinal, interrompendo-se a cada momento para tossir sufocado, sem dar vencimento à saliva que lhe acudia.

— É horroroso! afirmava ele alguns minutos depois, segurando o charuto com ambas as mãos. &mdashFaz-me vir água aos olhos!

— É delicioso! contestava a mulher ao lado, derreada para trás, aspirando voluptuosamente o fumo que o marido expelia da boca.

Borges, quando se levantou, sentia tonturas, vontade de vomitar e suores frios.

— Continue, continue, que em breve se habituará! disse-lhe a mulher, enquanto ele se afastava para o quarto muito pálido, cheio de calafrios, agarrando-se às cadeiras.

E desde então Filomena não consentiu que o marido se aproximasse dela, sem vir fumando.

— E promete que me deixa depois dar-lhe um beijinho na face?..., perguntou ele na ocasião de submeter-se ao sacrifício do segundo charuto.

Prometo que lhe consentirei beijar-me a testa — a testa! — no dia em que fumar o último charuto da caixa.

Filomena cumpriu a promessa; o Borges, depois de fumar cem charutos, beijou pela primeira vez a fronte da esposa.

Ela, porém, tornava-se mais exigente de dia para dia. O marido teve que pôr abaixo a sua barbinha à portuguesa e deixar crescer o bigode; teve que abandonar as suas queridas calças de brim mineiro, de que tanto gostava, teve que suportar cosméticos e brilhantinas, contra os quais protestava o seu delicado olfato de homem puro. O que, porém, mais lhe custou, o que atingia as proporções de um verdadeiro sacrifício, foi ter de submeter-se a "usar pastinhas". Ele! o Borges! de pastinhas! — Que não diriam os seus velhos e respeitáveis amigos do comércio?!... Que não suporia o Barroso?!...

Mas enfim... usou.

— Ah! o amor! o amor! gemia ele, quando no seu quarto entregava a cabeça aos ferros quentes do cabeleireiro.

— Deus me dê paciência!

A dois passos, o criado observava-o em silêncio, com um ar de compaixão.

— A que bonito estado o reduziu aquela mulherzinha dos demônios. Quando eu digo as coisas!...

E de uma feita, vendo os esforços que o amo fazia por disfarçar o abdômen com um espartilho, ficou tão indignado, que saiu do quarto, para não cometer alguma imprudência. Embaixo foi desabafar a sua indignação com o copeiro e o cozinheiro.

— Eu é que já não estou disposto, disse este, a suportar as impertinências da patroa! Tenho servido em casas muito mais ricas do que esta, e nunca sofri o que me fazem aqui. Todo o dia são reclamações e mais reclamações. Não há meio de agradar! Se faço assim, é mau; se não faço, é pior! E nada presta! e "tudo é uma porcaria"! Hoje é com a sopa, amanhã com o assado! Vá para o diabo um tal sistema!

— Além disso, acudiu o copeiro — não há horas certas para a comida! Uma vez querem o almoço às sete da manhã e já no dia seguinte só o reclamam às duas da tarde. O jantar, tanto pode ser às quatro, como às seis, como às oito e até como às onze da noite! E eu que me amole! Não! Assim também não se atura!

— E comigo então?! perguntou a criada, que se havia metido já na conversa — comigo é que são elas! — Falte água no jarro, falte qualquer coisa, não corra eu ao primeiro chamado, para ver como fica a bicha! Outro dia, porque quebrei o braço de uma pestezinha de figura que ela tem sobre a cômoda, deu-me um tal pescoção que me fez cair de encontro à quina da secretária! Ainda estou com este quadril todo roxo! Bruta!

O jardineiro, que também se achegara do grupo, contou que, não havia uma semana, a senhora varrera com um pontapé os vasos da escada do jardim, só porque uma das begônias parecia mal tratada. — É uma mulherzinha de gênio!...

— E agora vão ver! tornou a criada. — Para ralhar e atirar com as coisas na gente, é isto que se sabe; entretanto, a casa pode cair aos pedaços que ela não se incomoda. Se o patrão que é aquele mesmo, não der as providências ninguém as dará!

— Não! Que ela tem pancada na bola, não resta dúvida!

E os comentários da criadagem foram-se desenvolvendo de tal forma, que chegaram aos ouvidos de Filomena.

— Tudo na rua! Já! disse esta, sem se alterar.

— Não quero semelhante súcia nem mais um instante em casa! acrescentou ao marido. — Despede-os, e anuncia, quanto antes, que precisamos de nova gente! Preferem-se estrangeiros!

O Borges tratou de executar as ordens da mulher.

— Então o senhor põe-me fora?... perguntou-lhe o criado, quando recebeu a intimação para sair.

— É verdade, Manuel, sustentou o Borges — tem paciência, mas não há outro remédio... Reconheço que és um bom rapaz, mas não podes continuar ao meu serviço. Vai-te e acredita que não é por meu gosto.

— Mas por que sou despedido? Há seis anos que estou ao serviço de vossemecê, e creio que até agora ainda não dei motivos para ser posto na rua como um cachorro.

— Tens razão! tens razão, mas, já te disse, filho! Não há outro remédio!...

— É que é duro ficar a gente assim desempregado de um momento para o outro, quando aliás...

— Eu recomendar-te-ei aos meus amigos. Não ficarás desamparado. E se te vires em algum aperto, procura-me...

— É duro! insistia Manuel. — É muito duro! Ah! mas vossemecê me despede por que lhe foram encher os ouvidos a meu respeito!

— Homem, rapaz, é melhor que te vás logo e não me estejas a causticar a paciência. Só te despeço é porque assim o entendo, sebo!

— Qual o quê! vossemecê despede-me a mandado da patroa!

— Ó seu mariola! gritou o amo. — Ponha-se já na rua!

— Isto é uma casa de S. Gonçalo... principiou ainda o criado, quando o Borges, perdendo de todo a paciência, saltou sobre ele, e tê-lo-ia rachado com um pontapé, se o respondão não tratasse de ganhar a porta da rua.

— Atrevido! rosnou o Borges. — Insolente! Faltar-me ao respeito! A mim!

No dia seguinte principiou a escolha do novo pessoal. O Borges, já bastante importunado com ter de suportar comida de hotel, viu-se tonto no meio da chusma de cozinheiros, copeiros, jardineiros, serventes de ambos os sexos e de todas as nacionalidades, que choviam de Sul e Norte, entre uma algazarra infernal.

A coisa durou dias. Filomena vacilava na escolha; — queria gente especial, fora do comum e pronta a cumprir estritamente os seus caprichos, sem tugir nem mugir; ainda que com isso custasse muito mais cara.

Para a cozinha preferia um chim; para o serviço .da copa um inglês, um groom legítimo, e para sua criada grave alguma coisa de francesa ou russa ou espanhola, uma criada, enfim, que não fosse de cor, nem tivesse a menor sombra de portuguesa.

— Oh! os portugueses eram incompatíveis com a sua fantasia!

Mas não encontrou gente nessas condições, e, enquanto esperava por ela, resignou-se a tomar para seu serviço uma Cecília, tão brasileira como um Roberto, que foi substituir o Manuel e também como o novo jardineiro, e como o novo copeiro, e como o novo cozinheiro. — Uma lástima! — todos brasileiros!

— Está agora mais satisfeitinha com seu marido?!... perguntou-lhe o Borges meigamente.

— Sim, respondeu ela, deixando-o beijar-lhe a mão. Vais muito bem. Continua, continua dessa forma, que um dia, talvez.., consigas captar-me a estima.

— Ora!... balbuciou o mestre de obras, já meio desanimado. — É só "continua" continua!" e as coisas é que vão continuando na mesma!...

E o bom homem, no desespero de merecer as graças da esposa, transformava-se pouco a pouco.

O Guterres, indo visitá-lo, três meses depois do casamento, soltou um grito de estupefação e abriu grandes olhos espantados:

— Que! Pois é o João Borges?!... que metamorfose, meu Deus! que mudança!

E contemplando-o de alto a baixo. — Sim senhor! sim senhor! — Está moço e bonito! Onde foi você, seu maganão, arranjar esses bigodes tão pretos e tão petulantes?!

— É que aquela barba por debaixo do queixo principiava a incomodar-me... respondeu o marido de Filomena, abaixando os olhos e enrubescendo.

— Mas agora reparo! tornou o outro, — fraque à inglesa! colarinho da moda! prastron! meias de cor! polainas! sapatos de verniz! flor à gola! — Bravo! seu João! Bravo! Não há como uma mulherzinha bonita para fazer desses milagres!

E vendo o amigo acender um charuto. — Também fuma?!... Ó senhores! estou maravilhado!

— É... gaguejou o janota à força; — o rapé ultimamente, não me fazia bem... Dou-me muito melhor com o charuto!...

— E digam mal do casamento!..., considerou o Guterres. — Queria que se mirassem neste espelho!

E em resposta a um gesto de impaciência do Borges:

— Não, meu amigo, isto tenha paciência! Em três vidas que você vivesse não me pagaria o serviço que lhe prestei, levando-o à casa da defunta D. Clementina!

— Sim, sim..., respondeu o outro, cortando a conversa. — Mas que ordena afinal, o meu amigo?

O Guterres, mudando logo de aspecto, disse então o motivo de sua visita; — se o outro lhe pudesse adiantar ainda uns duzentos mil réis seria um grande favor...

O Borges coçou a cabeça. — Era o diabo!... As coisas não iam lá muito bem... O casamento trouxera despesas consideráveis!... agora o negócio ficava mais fino; tinha de pensar no futuro!... os filhos não tardariam por aí...

— Bom, senhor! Retorquiu o Guterres, transformando-se de novo. — Bom! Eu também não exijo sacrifícios!...

E deixando escapar aos poucos como o vapor comprimido de uma caldeira, a raiva que se lhe desenvolvia por dentro.

— Desculpe! Desculpe! — Pensei que você fosse o mesmo homem!... ou que pelo menos o fosse para mim... a quem... digo então!... devia trazer nas palminhas, se... se soubesse ser mais reconhecido!

— Ora, vá plantar batatas! exclamou o Borges, contendo a custo o que tinha para dizer a respeito dos tais favores do Guterres.

— Não esteja aí a dizer barbaridades!

— Você nega então que só a mim deve estar casado?

— Homem! não me amole, homem de Deus! Se, para o ver pelas costas, tenho de dar duzentos mil réis — aqui estão! mas, por quem é, deixe-me em paz!

— Ingrato!

— Aí os tem, leve-os e não se incomode em voltar cá para restitui-los! Vá, vá com Deus!

— Sim! disse o Guterres com ênfase, tomando o chapéu e a bengala — sim! levo comigo o vil dinheiro, porque desgraçadamente não tenho outro remédio; mas também sabendo que, de sua parte, é uma covardia aproveitar o aperto em que me acho, para injuriar-me desse modo!

— Fomente-se! respondeu o Borges, dando-lhe as costas.

O outro, desde aí, não o poupou mais. Logo no dia seguinte, em uma roda onde se falava do mestre de obras teve ocasião de lhe meter as botas. &mdashAlém de um grande pedaço d’asno, é um impostor! bradou ele. Pensa, lá por ter os seus mil réis, que é superior a todo o mundo! Um tolo!

E apontou as tolices do Borges, as transformações que sofrera o basbaque depois do casamento. Mas quase todos lançaram esses comentários à conta da inveja, e o mando da encantadora Filomena ia, cada vez mais, ganhando a reputação de um homem completamente feliz.

Entretanto, as exigências daquela multiplicavam-se, e o Borges continuava a submeter-se, estribado sempre na grata esperança de possui-la um dia.

Vieram as festas, os bailes; Filomena principiou a luzir nas salas, a ofuscar. Sua beleza, sua vivacidade espiritual e romanesca, postas agora em relevo pelos mil réis do marido, tomaram proporções dominadoras. Era sempre a rainha dos lugares onde se achava; a mais querida, a mais falada, a mais desejada.

Todos viam no Borges um cúmulo de fortunas — Os homens invejavam-no, mas nenhum deles se podia gabar de ir um ponto além de sua inveja. Filomena a todos prendia igualmente na mesma rede de atrações, sem dar a nenhum direito de avançar, nem ânimo de fugir. Se o sorriso prometia — o olhar negava; e se de seus olhos escapava porventura uma dessas faulas satânicas, que acendem no coração mil esperanças a um tempo — era uma frase, enérgica e pronta, que vinha destruir de chofre a indiscreta promessa dos olhos.

E o Borges, apesar de marido, não estava ileso dessas condições; feliz aos olhos de todos, ia arrastando ele o seu desgosto, sem poder confessar a pessoa alguma os tormentos que o devoravam. Esta circunstância ainda o fazia sofrer mais.

— És um felizardo! Repetiam-lhe a todo o instante. E essa maldita frase produzia-lhe o efeito de um ferro em brasa. Evitava já ficar a sós, nas janelas ou nos cantos da sala, com os amigos mais chegados, para não ouvir a constante glorificação daquela felicidade, que só existia na imaginação deles.

— Para você é que é esta vida!..., diziam-lhe.

— Meu caro, quem nasce sob uma boa estrela, não tem que se apoquentar com a sorte!

E o Borges sacudia os ombros, sorrindo contrafeito. Mas a sua tristeza aumentava; o seu vigor decrescia, e todo ele ia parecendo vitima de uma grande enfermidade.

— Você precisa ter um pouco de cuidado, segredou-lhe uma vez o médico. — Olhe que o mundo não se acaba, meu amigo! Isso pode prejudicar mesmo a sua senhora, que, em todo o caso, é uma mulher e tem a constituição mais delicada! Não convém abusar! Não convém abusar!

— E isto é dito a mim! a mim! exclamava o Borges, a bater no peito, chorando, logo que se achava só. Mas não desanimava, certo de que os sacrifícios dedicados à cruel deusa de seus sonhos teriam, mais cedo ou mais tarde, uma recompensa.

— Oh! só de pensar em tal, o coração saltava-me por dentro.

Não obstante, as exigências continuavam a surgir, e ele continuava a render-se, cada vez mais submisso e mais vencido.

Agora já lhe não custava a suportar os bailes de cerimônia, e recebia duas vezes por mês. Aquele homem, que dantes, ao bater das onze, se recolhia invariavelmente aos seus travesseiros, passava agora todas as noites em uma roda viva de etiquetas, a cortejar para a direita e para a esquerda, a rir, a lisonjear, a fazer-se fino. Suas reuniões tornavam-se famosas pela suntuosidade, profusão bem escolhida dos vinhos, excelência dos bufetes, boa música e esplêndida variedade de convivas de ambos os sexos.

— Não há dúvida! É um felizardo! insistiam os amigos!

— Que mulher possui o ladrão! — Formosa, distinta, elegante, inteligente e, além de tudo, honesta! Parece que só vive para o marido! Definitivamente não há outro mais feliz!...

Só o mísero esposo não pensava dessa forma. Agora os caprichos da mulher impunham-lhe uma provação terrível para ele, e a pior de todas que até aí cometera; Filomena exigiu que o desgraçado aprendesse a valsar.

Valsar o Borges! O Borges! o homem mais incompatível com a dança!

Foi preciso arranjar um professor discreto, que lhe desse as lições em casa, às ocultas, todos os dias, das três às cinco da tarde.

Que luta, santo Deus! Que longas horas de tormento! Que heroísmo para não desanimar no meio da empresa!

Foi uma campanha formidável! Seus vastos e pesados pés não se queriam sujeitar àquela violência implacável dos passos e dos saltinhos; seus nodosos tornozelos, grossos como troncos de árvore, protestavam energicamente contra os inquisitoriais ritornelos das valsas puladas. Recalcitravam-se os joanetes, revoltavam-se os calos; tremia o soalho; vinham abaixo as bugigangas que estavam sobre os consolos da sala; o Borges suava, afogueava-se e não conseguia passar das primeiras figuras.

Mas Filomena estava ali para lhe dar coragem — como nos cavalheirescos torneios da Idade-Média. A imagem dela ‘animava-o, como a presença de um grande prêmio ambicionado. Só valsando conseguiria transpor o limiar daquele paraíso. Pois bem! Valsaria, custasse o que custasse!

— Oh! ela adorava a dança! Não podia sofrer um homem que não soubesse valsar. A dança foi sempre uma de suas paixões mais fortes; em pequena chegou a imitar vários passos difíceis que vira no teatro. Sabia o solo inglês, a gaivota, o minuete, a cachucha e muitos outros,

O Borges, no fim de cinco meses de estudo acérrimo, conseguia dançar, não só a valsa, como a polca; a mazurca, o schottisch, e as quadrilhas francesas. Filomena então exigiu que ele, enquanto descansava da última campanha, se entregasse à leitura escolhida de certos poetas e romancistas. Apresentou-lhe os livros e marcou as lições que o marido havia de decorar.

— Quero que tenhas de memória um bom repertório de versos, para mos recitares nas ocasiões de aborrecimento. A prosa todos os dias fatiga muito!

O Borges obedeceu, como de costume, e daí a pouco tempo atroava nas salas a sua voz de baixo profundo, recitando os trechos mais declamatórios de Marília, de Gonzaga.

Um amigo, que ia visitá-lo, não se animou a tocar a campainha, intimidado por aquela gritaria, e desgalgou a escada, benzendo-se. A criada bispou-o e foi logo contar o fato à senhora.

— Pois de hoje em diante quero a porta da rua fechada, enquanto durar a declamação, ordenou Filomena; e, a partir desse momento, fechavam-se sempre ao meio-dia e caiam no recitativo.

Filomena, que tinha muitos versos de memória, lembrou-se de dialogar com o marido as poesias mais próprias para isso. Depois veio-lhe a idéia de recorrer às tragédias de Gonçalves Dias e fazer a coisa mais ao vivo, tomando cada um o trajo e o característico que exigia o papel.

— Queres saber de uma coisa?!... disse ela afinal. O verdadeiro é arranjarmos um teatro.

O Borges levou as mãos à cabeça.

— Um teatro! Pois eu tenho de representar?...

— E que há nisso de extraordinário?... Na Europa o teatro em família é um divertimento da melhor sociedade. Convidam-se algumas pessoas para nos ajudar — o Barradinhas, por exemplo, serve, que tem muito jeito. Vê-se também o Chico Serra, Gonçalves, o Morais; chama-se a viúva Perdigão...

— A viúva Perdigão?!... perguntou o marido, sentindo um arrepio.

— Sim! há de dar uma excelente dama central. É muito desembaraçada e tem graça. Enfim, não faltará quem nos ajude. O teatro pode ser na chácara; estende-se mais aquele pavilhão que lá está e rouba-se um pouco do jardim para a platéia.

O Borges ainda tentou algumas objeções; mas no dia seguinte vieram os trabalhadores, e as obras principiaram.