Galeria dos Brasileiros Ilustres/Manuel Felizardo de Sousa e Melo

O conselheiro Manuel Felizardo de Sousa e Melo, nasceu a 8 de dezembro de 1805, na freguesia de Campo Grande, município da corte.

Em casa de seus pais, o major Manuel Joaquim de Sousa, natural da provínica de Minas Gerais, e de D. Luzia Maria de Sousa, nascida em Iguaçu, estudou as primeiras letras e o latim.

Em março de 1819 entrou no seminário de S. José, onde freqüentou as aulas de filosofia, retórica, grego e de francês.

Em junho de 1822 seguiu para Portugual, e nesse mesmo ano matriculou-se nos primeiros anos matemático e filosófico, e na cidade da Bahia em 14 de agosto de 1813, tomou o grau de bacharel formado em matemáticas em junho de 1826, sendo reputado um dos mais distintos estudantes entre seus condiscípulos, e tendo obtido prêmios em todos os anos em que esta distinção era permitida aos alunos mais aplicados.

Em fevereiro de 1827 foi despachado lente substituto da academia militar da corte, e, pouco depois tenente graduado capitão do corpo de engenheiros.

Até 1832 foi incumbido pelo governo de algumas comissões importantes, como a de membro da comissão liquidadora do primeiro Banco do Brasil, e do exame do pessoal do Tesouro e de todas as outras repartições fiscais da corte, exame preciso para a reforma desses estabelecimentos, pois que antes se devia verificar quais dos empregados então existentes deviam continuar no serviço.

Em fins de 1832 teve a comissão de organizar, na qualidade de inspetor, a tesouraria provincial de S. Pedro do Sul, e conseguiu em dois anos e meio fazer duplicar a renda.

Retirado poucos dias antes da infeliz revolta que por dez anos assolou aquela província, voltou ao magistério, e nele se conservou até fins de 1837, época em que foi nomeado presidente da província do Ceará.

Grande então era o exaltamento dos partidos políticos em todo o império; o novo presidente sofreu, pois, da parte de um deles encarniçada guerra; e, se foi forçado a reagir para manter a ordem con-duziu-se sempre com tanta justiça, que pouco tempo depois, os próprios adversários o confessaram. Foi obrigado a refazer a polícia, a fazer algumas alterações na Guarda Nacional, mas não demitiu um só empregado cujas funções não influíssem a tranqüilidade pública: a um só empregado sequer não tirou o pão com que se alimentava e à sua família.

Removido em fevereiro de 1839 para a presidência da província do Maranhão, encontrou ali em campo a sedição que em dezembro anterior se havia feito contra o seu antecessor.

Os recursos da província se achavam exaustos. A única força de que o Presidente Camargo poderia dispor, e havia mandado contra os sediciosos tinha sido feita prisioneira, e o comandante esfolado vivo. Tudo foi então preciso criar para repressão da revolta. Da corte e das províncias, e com longa demora, apenas se enviaram: da Bahia, um chamado batalhão, recrutado na véspera do embarque, levando o fardamento e armas encaixotados, e por oficiais muito pouco efetivos, e o resto novos cadetes arvorados em oficiais de comissão; de Pernambuco um outro batalhão de soldados novos, ou antes de recrutas que se achavam apenas com as primeiras lições; e do Ceará, uns 30 a 40 soldados. A corte, tendo sua atenção presa com a rebelião do Rio Grande do Sul, apenas pôde enviar para o Maranhão duas ou três escunas de guerra; e o Pará os destroços de um batalhão que foram encher os hospitais militares. Com estes recursos, e criando na província corpos provisórios, conseguiu o Presidente Sousa e Melo ter em campo cerca de 5.000 praças, bater os revoltosos em diversas ações, e entregar a província a seu sucessor, depois de restaurada pela segunda e última vez a cidade de Caxias, de repelidos os desordeiros de todas as povoações, cursos de água e estradas, e de fazê-los recolher às matas. Apenas em força se animavam então os revoltosos a mostrar-se na remota comarca de Pastos Bons.

A província não foi entregue mansa e pacífica ao Sr. Marquês de Caxias, sucessor do conselheiro Sousa e Melo, mas a revolta que contou um exército de mais de 15.000 homens estava vencida, e com os meios criados por este administrador. O ofício em que o Conselheiro Sousa e Melo dá conta ao governo de haver entregue a presidência expõe o estado em que deixava a província.

O emprego de força material muito produziu, e ações mortíferas tiveram lugar, tendo o presidente dirigido uma delas, a da tomada da vila de Icatu; mas o que maiores e mais benéficos resultados produziu foi o constante uso dos meios brandos para com aqueles que se não achavam efetivamente em armas, e o bom tratamento aos que as depunham.

Os partidos políticos estavam no último grau de exaltação; um atribuía ao outro a origem da revolta e sua continuação: queriam portanto aproveitar-se da ocasião para saldar contas antigas. A imprensa de um desses partidos, os deputados da província à assembléia geral, o presidente da província do Piauí, e seus numerosos amigos, mais ou menos abertamente acusavam o Conselheiro Sousa e Melo por não desenvolver energia contra os autores e fomentadores da revolta. A tudo resistiu o presidente: conhecia perfeitamente que o concurso de todos os maranhenses era necessário para debelar a revolta, e fazendo dela desaparecer toda a cor política e de partidos, conseguiu extremá-la da parte sã da província, deixando-a somente com a mais vil plebe, que se entregava a todas as orgias de sangue e devassidão e por isso mais fácil foi vencê-la.

Não se limitou o presidente à província do Maranhão; grande parte da do Piauí, interceptada da capital, e não podendo receber ordens e auxílios de Oeiras, teve o Conselheiro Sousa e Melo de encarregar-se de sua administração, e de libertá-la dos desordeiros.

Força numerosa ali concentrou, e por medidas prontas e enérgicas salvou a Vila da Parnaíba que estava prestes a ser saqueada.

Dispensado da presidência do Maranhão, foi promovido ao posto de major pelos serviços relevantes feitos na província: e três meses depois seguiu como residente para a província de Alagoas, que agitada se achava ainda pela última sedição contra o presidente Agostinho da Silva Neves, e subseqüente mudança da capital para a cidade de Maceió.

Sem a menor oposição administrou a província por dois anos e meio, e a deixou tranqüila. Neste intervalo por duas vezes foi eleito deputado em primeiro lugar, e com grande diferença de votos em relação aos que seus colegas obtiveram.

Em fins de 1843, foi nomeado presidente da província de São Paulo, donde voltando a assistir à sessão legislativa de 1844, e tendo sido dissolvida a Câmara dos Deputados, regressou para a Escola Militar a exercer o magistério, exercício em que se conservou até março de 1848, época em que, na qualidade de ministro da Marinha e interino da Guerra, ao princípio, e depois na de ministro da Guerra, fez parte do Ministério de que foi presidente o Exmo. visconde de Macaé.

Dissolvido o ministério ocupou-se no magistério e na Assem-bléia Provincial do Rio de Janeiro, da qual foi eleito presidente, e de novo subiu em 29 de setembro do mesmo ano ao Ministério, ocupando efetivamente a pasta da Marinha e interinamente a da Guerra. Em fins de 1849, passou-se efetivamente para o Ministério da Guerra em que permaneceu até setembro de 1853.

No seu longo ministério a pacificação de Pernambuco se fez com rapidez e se obteve a glória de duas grandes vitórias: a primeira incruenta, a da dissolução do exército de Oribe, que há dez anos sitiava a cidade de Montevidéu, e dominava toda a República Cisplatina; a segunda, conseguida com pequena perda de sangue brasileiro, mas com dispêndio de muita coragem e habilidade dos nossos bravos.

Rapidez do movimento das tropas e ao completo fornecimento de tudo quanto era necessário para um exército em campanha, se deveram em não pequeno número os bons resultados acima apontados.

O recrutamento do exército, a promoção dos oficiais, e melhoramentos razoáveis de vencimentos a estes e aos inferiores, a disciplina do exército e sua administração, foram atendidos por diversos atos administrativos, ou legislativos, indicados ou promovidos pelo Conselheiro Sousa e Melo.

Em 1º de outubro de 1848, foi eleito senador pela província do Rio de Janeiro, e escolhido em dezembro do mesmo ano.

Nomeado presidente da província de Pernambuco, em outubro de 1858, tomou posse da presidência a 6 de dezembro, e a entregou ao Sr. Conselheiro J. A. Saraiva em fins de janeiro do corrente, por ser chamado ao Ministério da Guerra, no qual entrou em exercício a 12 do mês seguinte.

Em dois meses incompletos de administração em Pernambuco pouco poderia ter feito em benefício da província; entretanto, conseguiu durante esse período inspirar tal confiança a todos que foi seguido pelos chefes até o embarque, deixando gratas recordações.

Entre diversas comissões que tem desempenhado, sobressai a de comandante geral da freguesia de S. José, nos lutuosos dias de 1831 e princípios de 1832, em que a cidade do Rio de Janeiro era constantemente insultada por desordenados movimentos revolucionários. Com a guarda municipal de sua freguesia cooperou ativamente para a manutenção da ordem, achando tempo ainda de comparecer muitas vezes à frente da 2ª Companhia do Batalhão de Oficiais-soldados, da qual foi eleito 1º comandante.

Desde o início de sua carreira política, sustentou sempre os princípios da ordem, e nas câmaras legislativas jamais se afastou de tais princípios conciliando-os sempre com a bem atendida liberdade.

Nomeado em janeiro de 1854 diretor-geral das terras públicas, contribuiu para a organização dos diversos regulamentos para a execução da lei de 18 de setembro de 1850.

Por decreto de 2 de dezembro de 1857, foi promovido a brigadeiro graduado; por ocasião da coroação teve a comenda da Ordem de Cristo e, de Portugal, a Grã-Cruz da mesma ordem pelos serviços prestados à marinha portuguesa no desarvoramento da nau Vasco da Gama, etc.