Girândola de Amores/IX

Girândola de Amores por Aluísio Azevedo
Capítulo IX: O comendador pelo avesso


Tratemos agora de esclarecer os verdadeiros trâmites do crime, de que foi injustamente suspeito o pobre Gregório, e puxemos às vistas de quem nos lê a figura do seu principal autor e a daqueles que lhe serviram de cúmplices.

Deve ainda estar lembrado o leitor de dois tipos de meia-idade, que dialogavam no café da Menina do Bandolim e, tão empenhados se achavam no assunto de sua conversa, que só resolveram levantar o vôo, quando lhes foi dizer o dono da casa que desejava fechar as portas. Um desses dois tipos, justamente o que parecia mais moço, estava há muitos anos ao serviço do comendador Portela. Chamava-se Pedro Sarmento e era na sua roda conhecido pelo cognome de Talha-certo. Fora na infância aprendiz marinheiro, depois serviu na guerra do Paraguai, como voluntário do exército, e, afinal, sem profissão, nem padrinhos, caíra na dependência do comendador, a quem servia de guarda-costas.

O comendador Portela tinha hábitos muito especiais, muito seus; hábitos de viver na intimidade, totalmente oposto àquelas jactâncias que lhe vimos blasonar em casa de D. Januária.

No privado de sua casa era outro homem. Despia-se então das fumaças da rua e dava-se todo ao prazer de estar às soltas com o criado. Aí não armava posições, não peneirava a frase, não lembrava a sua importância social, nem as suas franquias de homem rico; ao contrário, parecia farejar o que houvesse de mais banal e de mais decotado para lhe servir de palestra com o fâmulo.

E, uma vez achado o fio do assunto, espojava-se nele, voluptuosamente, como se quisesse refocilar das fidalgas que lhe impunha o seu artificioso viver social.

Ele, que nas salas, ao ouvir falar da quebra do banco tal, da falência deste ou daquele negociante, do bom ou mau êxito de tais e de tais empresas, sacudia sempre os ombros com desdém e dizia entre dentes que tudo isso eram "Bagatelas! Bagatelas!"; ouvia, entretanto, com muito interesse as frioleiras que à noite, ao despi-lo para a cama, lhe contava em camara­dagem o seu Talha-certo. E, quando mais frívolo era o assun­to, tanto mais ele o esmiuçava, o esmerilhava, interrompendo-o com perguntas curiosas, e fazendo exclamações de surpresa, e obrigando o criado a repetir o fato com mais minudência e convicção.

Depois atirava-se à cama e, todo retraído nos lençóis e abraçado aos travesseiros, deixando só de fora o seu carão afogueado, provocava Talha-certo a novos esclarecimentos, e saboreava as palavras do criado com um gosto pueril de crian­ça mexeriqueira.

O Talha-certo, que já lhe conhecia as manhas, dava-lhe a lambiscar somente coisinhas lisonjeiras e, com muita adulação, arranjava sempre meios de incensar o vaidoso. Ora lhe conta­va o que a seu respeito lobrigara de tal dama; ora referia um fato ridículo de algum sujeito, que pretendesse competir em fortuna com o Portela; ora, finalmente, tirava ele mesmo do turíbulo e passava a defumar o patrão por conta própria.

E estes pequeninos encômios, obscuros e sem garantia, punham no mal-educado coração do comendador um prazer delicioso.

— Então o tal sujeito gostava de me ouvir falar, hein, Talha-certo?...

— O quê?! ficou abismado! disse que vossemecê falava que nem um padre!...

— Deixa-os lá! Ainda não ouviram nada!...

— Não! Mas olhe que vossemecê tem um modo às vezes de dizer as coisas, que faz a gente ficar mesmo pasmado!

— Achas, Talha-certo?...

— Não sou eu só quem acha, são todos!

— Coisas!

No dia seguinte, Portela envergava a sobrecasaca, metia-se no chapéu alto de castor, enfiava as luvas, tomava a bengala de castão de ouro e, quando ganhava a rua com o seu passo arrogante, a sua grande figura aprumada e sobranceira, nin­guém seria capaz de adivinhar que ia ali a mesma tola criatura, que adormecera na véspera a babar-se com os gabos de um criado inepto.

Também era só o Talha-certo quem desfrutava as privan­ças do comendador e quem lhe devassava tais fraquezas de intimidade; para os mais era Portela o mesmo personagem cioso da sua "alta estimação" e da sua "irrecusável valia".

E quem precisasse obter qualquer coisa das mãos dele, nunca a alcançaria senão por intermédio do seu privado. Mas, em compensação, com esse tudo se obtinha, desde uma simples carta de fiança até ao melhor empenho para qualquer ministro.

Foi em uma daquelas conversas pueris que o comendador veio a saber que Pedro Ruivo estava no Rio de Janeiro.

— Pedro Ruivo?! exclamou Portela, saltando da cama e desfazendo o semblante piegas, com que costumava ouvir as confidências do criado. Pedro Ruivo?! Não estás enganado, Talha-certo?

— Não estou, não senhor. Era ele em pessoa; apenas tinha as barbas mais crescidos e a cabeça mais calva. Quando o vi, reconheci-o logo, por aquele sestro antigo de sacudir a cabeça para a esquerda ...

— Ora esta! rosnou o comendador.

— Quando digo que vossemecê me devia ter deixado aviar com uma boa navalhada aquela peste!... Escusava agora de o ter de novo pela proa, porque o demônio é muito capaz de lembrar-se ainda do passado e...

— Tens razão! interrompeu o Portela, muito preocupado; precisamos desembaraçar-nos de semelhante homem! Só a idéia de que o posso encontrar na rua e sofrer dele qualquer desfeita, faz-me perder a cabeça!... Olha cá!

E chegando-se mais para o criado, passou-lhe o braço no ombro e perguntou-lhe brandamente, quase com ternura:

— Tu és capaz de desempenhar uma comissãozinha de que te quero encarregar?...

— Sempre fui. Adiante!

— Trata-se de despachar o Ruivo, mas de modo que nin­guém venha a suspeitar de ti, e muito menos de mim...

— Já se vê!...

— Mas onde o terás a jeito?!

— Isso indaga-se! Sei que ele é empregado dos arma­zéns de rapé de Paulo Cordeiro.

— Mas como se arranjará o negócio?... compreendes que estas coisas não se podem fazer no ar...

— Deixe tudo por minha conta!

— Que tencionas fazer?...

— Não se importe com isso! Amanhã mesmo falo ao Tubarão.

— Mau! Já queres tu meter mais um na história!... O melhor seria fazeres tudo por ti ...

— Mas eu posso lá deixar de falar ao Tubarão?!... Vos­semecê bem sabe que nada fazemos sem combinarmos primeiro os dois. Foi o nosso trato! Nada! juramos sobre as Horas Marianas! Quando ele tem qualquer coisa, diz-me logo, e quando eu tenho, também lhe digo! Não! não sou homem de tratar uma coisa e fazer outra! O trato é trato!

— É o diabo! É mais um que fica sabendo da coisa!...

— Quem?! o Tubarão?! Ora, senhor! Então vossemecê não sabe o que está ali! Aquilo é fazenda muito boa! Não! por esse lado não tenha receios! O Tubarão é coisa séria: dali não sai um pio quando é preciso guardar segredo!

— Vê lá o que vais fazer!...

— Deixe tudo por minha conta, já lhe disse! Descanse que tudo se fará, com a ajuda de Deus!

O comendador acabou por concordar, e Talha-certo, na seguinte noite, encontrou-se com o companheiro à mesa do café de Java, como já sabemos.

Esse companheiro era o Tubarão, um marinheiro refor­mado, sujeito corpulento e vigorosíssimo, por cujo ar modesto e pacífico ninguém calcularia que estivesse ali o homem de maior força muscular do Rio de Janeiro. Contavam dele muitas façanhas, que deixavam em grande distância as do Nogueira lutador e de outros famigerados pulsos, dos quais rezam algumas costelas e vários narizes a mais imperecível das memórias.

De uma feita, o comendador Ascole e o Dr. Figueiredo Magalhães, que sentiam pelo Tubarão o interesse que experi­mentamos por um belo fenômeno, quiseram medir-lhe toda a extensão da força de um dos seus socos e para isso puseram à disposição dele um desses dinamômetros, vulgarmente conhe­cidos pelo nome de "Cabeça de turco".

O Tubarão negou-se a princípio, sorrindo com o seu ar de bondade ingênua, mas, instigado pelos outros, deu um passo atrás, recolheu vagarosamente o braço e depois disparou com este um formidável murro contra a almofada de mar­roquim.

Ouviu-se apenas um ranger e estalar de ferros. E a balança caiu aos pés do Tubarão, em pedaços.

De uma outra vez, querendo Tubarão arrancar um gancho da parede, pôs-lhe a mão e puxou; mas o gancho estava bem seguro e fez resistência. Tubarão firmou um pé contra o muro e empregou toda a força. Veio o gancho afinal, mas Tubarão havia varado a parede com a perna.

Como esses, mil outros fatos diziam a riqueza dos seus músculos; contudo, não havia homem que menos gostasse de brigar. Sofria às vezes em silêncio as mais grosseiras provocações, aconselhava quase sempre ao adversário que o deixasse em paz e recorria a todos os meios para evitar o choque; até que por fim lhe faltava a paciência e com um murro mandava o provocador passear a dez metros de distância.

As suas relações com o Talha-certo vinham de certa vez em que Tubarão o encontrou no meio de seis urbanos, a tomar bordoada de todos eles. Meteu-se logo no barulho, escudou com o corpo o que apanhava, e despediu os outros a pontapés.

Desde então ficaram amigos. Todavia muito se dissimi­lavam no caráter: Talha-certo era mau, tinha maus instintos, gostava de perseguir, abusava da navalha e vendia-se para qualquer crime; o outro não: arriscava-se quase sempre para socorrer alguém; ressentia-se, é verdade, do meio em que vivia ultimamente e da falta de educação, mas era dedicado e sus­ceptível de brio.

O companheiro, sabendo que ele nunca abanava as orelhas quando qualquer colega pedia o seu auxílio, contava com esse apoio certo, e tal confiança o tornava mais atrevido e mais impertinente.

— Mas o que quer você de mim?... perguntara Tubarão ao outro, naquela noite em que os vimos a conversar no café de Java.

— Quero que você me ajude...

— Em quê?...

— Na função do Pedro Ruivo!

— Ah! O Pedro Ruivo está aí?! Ora até que afinal o vou pilhar às direitas! Deixa estar que não me escaparás esta vez, grande velhaco!

Estas exclamações do Tubarão significavam que entre ele e o Ruivo havia sem dúvida contas velhas a ajustar.

— Sim! disse o Talha-certo; mas o patrão quer ver-se livre dele por uma vez!

— Quer que o mates? perguntou o outro.

— É! Falou-me nisso. Você sabe que o Ruivo tem em seu poder aqueles documentos do comendador e pode pregar-lhe alguma peça!...

— Mas tomam-se-lhe os documentos, e não é lá preciso matar o pobre diabo!...

— Como não é preciso?... Você sabe quem é o Ruivo! Homem, quem o inimigo poupa nas mãos lhe morre!...

— Não é tanto assim. Pode arranjar-se tudo sem sangue! Eu me encarrego de arrancar-lhe os documentos! Deixe-o comigo!

— Isso não basta! segredou-lhe o Talha-certo. Se lhe estou a dizer que o comendador se quer desfazer daquela bisca! — Pois então vá você e mais seu patrão para o inferno! Cá por mim não vejo necessidade alguma de matar aquele pedaço de asno!

— Ah! Eu cuidei que você ainda era o mesmo para ajudar os companheiros!... Neste caso, porém, fica o dito por não dito! Ora adeus!

— Espere, homem! Eu estou disposto a ajudá-lo! Você bem sabe que nunca desamparei os amigos! Mas, com os diabos! o que não vejo é necessidade de matar ninguém! Se a gente só precisa dos papéis, para que lhe dá de tirar também a vida?!...

— Para maior segurança! Mas uma vez que você põe dificuldades, já cá não está quem falou! Não se trata mais disto!

— Não! eu vou! Vou para o que der e vier, porém achava melhor não sangrar o sujeito...

E quando os dois súcios se levantaram da mesinha do café, estavam perfeitamente combinados.

Pedro Ruivo costumava sair às seis e meia do trabalho, Talha-certo sabia a direção que ele tomava sempre e iria espe­rá-lo no melhor ponto para um ataque. E estava convencido de que uma vez assassinado o Ruivo, os tais documentos, presumidos em seu poder, perderiam todo o valor, porque só por ele podiam ser explorados.

Antes, porém, de pormenorizarmos o resultado daquele conchavo, temos que dizer alguma coisa a respeito de Tubarão.

Leão Vermelho, ainda no começo da sua carreira marítima, distinguia, a bordo da corveta em que estava, um grumete de dezesseis anos, vivo, dedicado e forte; quando mais tarde Leão Vermelho ganhou as suas dragonas de 1º tenente e mudou de navio, levou consigo o rapaz e tomou-o para seu criado.

Nunca mais se separaram, até que o oficial, cansado de vagar pelo oceano, requereu reforma, arranjou um lugar em terra, na cidade do Porto, e casou pouco tempo depois com a irmã bastarda do conde de S. Francisco, Cecília, a filha da interessante professora Helena, de quem já falamos.

Para o leitor não é também novidade saber que, do con­sórcio de Leão Vermelho com a filha de Helena, resultou o nascimento de Gregório.

Por esse tempo Leão Vermelho era ameaçado de perder o emprego e correu para a capital, com a intenção de colocar-se sob a proteção imediata do ministro da marinha. Nada obteve; e, em um assomo de raiva, arrancou as dragonas e fez delas presente ao monarca, pedindo que lhe desse quanto antes a demissão da armada. Nisto foi logo atendido. E então, desempregado e tendo de prover a subsistência da famí­lia, resolveu aventurar-se na marinha mercante e partir para o Brasil.

Antes, porém, era preciso dar um pulo ao Porto, tranqüilizar a mulher e abraçar o filho. Não gastou muito tempo com isso, e, já na ocasião de partir, a bordo, no segredo do seu beliche, abraçou o seu antigo criado, aquele que nunca o aban­donara, e disse-lhe com os olhos cheios d’água:

— Tubarão! confio-te minha mulher e meu filho; não os percas de vista. Sei que és louco pelo pequeno e isso faz-me partir tranqüilo.

Aproximou-se mais dele e disse-lhe depois, em segredo, alguma coisa que o fez estremecer ligeiramente.

— Pode ir descansado, capitão! respondeu o ex-grumete, prometo que cumprirei as suas ordens!

— Então toma lá! é o presente que te deixo...

E passou-lhe um embrulho que tirou do bolso.

— Obrigado! disse Tubarão, ao examinar o objeto recebido.

Era uma boa navalha de marinheiro.