História do Brasil (Frei Vicente do Salvador)/I/XVI

História do Brasil por Frei Vicente do Salvador
Livro primeiro: em que trata do descobrimento do Brasil, costumes dos naturais, aves, peixes, animais e do mesmo Brasil, Capítulo XVI: Do modo de guerrear o gentio do Brasil


É este gentio naturalmente tão belicoso, que todo o seu cuidado é como farão guerra a seus contrários, e sobre isto se ajuntam no terreiro da aldeia com o principal dela, os principais das casas, e outros índios discretos, a conselho, onde depois de assentados nas suas redes, que para isto armam em umas estacas, e quieto o rumor dos mais que se ajuntam a ouvir, porque é a gente que em nenhuma coisa tem segredo, propõem o maioral sua prática, a que todos estão mui atentos, e como se acaba respondem os mais antigos cada um per si, até que vem a concluir no que hão de fazer, brindando-se entretanto algumas vezes com o fumo da erva santa, que eles têm por cerimônia grave, e se concluem que a guerra se faça, mandam logo que se faça muita farinha de guerra, e que se apercebam de arcos, e flechas, e alguns paveses, ou rodelas, e espadas de paus tostados, e como todas estas coisas estão prestes à noite antes da partida, anda o principal da aldeia pregando ao redor das casas, declarando-lhes onde vão, e a obrigação que tem de fazerem aquela guerra, exortando-os à vitória, para que fique deles memória, e os vindouros possam contar suas proezas.

O dia seguinte depois de almoçarem toma cada um suas armas nas mãos, e a rede em que há de dormir às costas, é uma paquevira de farinha, que é um embrulho liado, quanto pode carregar, feito de umas folhas rijas, que nem se rompem, nem a água as passa, e não se curam de mais vianda; porque com a flecha a caçam pelo caminho, e nas árvores acham frutas, e favos de mel.

Os principais levam consigo suas mulheres, que lhes levam a farinha e as redes, e eles não levam mais que as armas; e antes que abalem faz o maioral um capitão da dianteira, que eles têm por grande honra, o qual vai mostrando o lugar onde se hão de alojar, e o caminhar é um após outro, por um carreiro como formigas, nem já mais sabem andar de outra maneira, tem grande conhecimento da terra, e não só o caminho por onde uma vez foram atinam, por mais serrado que já esteja, mas ainda por onde nunca foram.

Tanto que saem fora de seus limites, e entram pela terra dos contrários, levam suas espias adiante, que são mancebos mui ligeiros, e há alguns de tão bom faro, que a meia légua cheiram o fogo, ainda que não apareça o fumo.

Chegando duas jornadas da aldeia de seus contrários não fazem fogo, porque não sejam por eles sentidos, e ordenam-se de maneira, que possam entrar de madrugada, e tomá-los descuidados e despercebidos, e depois entram com grande urro de vozes, e estrondo de buzinas e tambores, que é espanto, não perdoando no primeiro encontro a grandes nem pequenos, a que com suas espadas de pau não quebrem as cabeças, porque não tem por valor o matar, senão quebram as cabeças, ainda que seja dos mortos por outros, e quantas cabeças quebram tantos nomes tomam, largando o que o pai lhes deu no nascimento, que um, e outros são de animais, de plantas, ou do que se lhes antolha, mas o nome que tomaram não o descobrem / ainda que lho roguem / senão com grandes festas de vinho, e cantares em seu louvor, e eles se fazem riscar e lavrar com um dente agudo de um animal, e lançando pó de carvão pelos riscos e lavores ensangüentados, ficam com eles impressos toda a vida, o que tem por grande bizarria, porque por estes lavores, e pela diferença deles se entende quantas cabeças quebraram.

E sendo caso que acham seus contrários apercebidos com cercas feitas, fazem-lhes outra contracerca de estacas metidas na terra com ramos e espinhos, liados, a que chamam caiçara, a qual enquanto verde não há coisa que a rompa, e dali blasonam, e jogam as pulhas com os contrários, até que uns ou outros abalroam, ou saem a pelejar em campo, e toda a sua peleja é fazendo o motim, que é correr e saltar de uma parte para outra, porque lhe não façam pontaria.