História do Brasil (Frei Vicente do Salvador)/III/XVIII

História do Brasil por Frei Vicente do Salvador
Livro terceiro: da história do Brasil do tempo que o governou Tomé de Souza até a vinda do governador Manuel Teles Barreto, Capítulo XVIII: De como el-rei d. Sebastião mandou Cristóvão de Barros por capitão-mor a governar o Rio de Janeiro


El-rei d. Sebastião, depois que começou a governar por si o reino, como era tão solícito de conquistas / que provera a Deus não fora tanto /, sabendo da que se fazia no Rio de Janeiro, mandou a ela por capitão-mor, e governador a Cristóvão de Barros, o qual era filho bastardo de Antônio Cardoso de Barros, primeiro provedor-mor da Fazenda del-rei no Brasil, que tornando-se para o reino em companhia do primeiro bispo, dando a nau à costa junto ao rio de S. Francisco, foi morto, e comido do gentio, como já dissemos no capítulo terceiro deste livro.

Era Cristóvão de Barros homem sagaz, e prudente, e bem-afortunado nas guerras, e assim depois que chegou ao Rio de Janeiro, em todas as que teve com os Tamoios ficou vitorioso, e pacificou de modo o recôncavo, e rios daquela Bahia, que tornados os ferros das lanças em foices, e as espadas em machados, e enxadas, tratavam os homens já somente de fazer suas lavouras, e fazendas, e ele fez também um engenho de açúcar junto a um rio chamado Magé, onde se faz uma pescaria de fataças, e chama-se Piraiqué, que quer dizer «entrada de peixe», tão notável, que não é bem passá-la em silêncio.

É este rio de água doce, mas entra por ele a maré uma légua pouco mais ou menos. Nas águas vivas do mês de junho, que é ali a força do inverno, entram por ele tantas fataças, ou corimans / como os índios brasis lhes chamam /, que para as poderem vencer se juntam duzentas canoas de gente, e lançando muito barbasco machucado à riba donde chega a maré, quando esta preamar se tapa a boca, ou barra do rio com uma rede dobrada, vai o peixe a sair com a vazante, não pode com a rede, nem menos esconder-se no fundo, porque a água o embasbaca, e embebeda de maneira que, viradas de barriga as fataças andam sobre ela meias mortas, donde com um rede-fole as tiram como colher de caldeira, aos pares, até encher as canoas.

Saem-se logo fora, e cortadas as cabeças lhes escalam os corpos, e salgadas os põem a secar nos penedos, que há ali muitos; e das cabeças cozidas fazem azeite para se alumiarem todo o ano.

Nas águas seguintes de julho se faz outra Piraiqué, ou pescaria, da mesma maneira que a passada, mas não são já tão gordas as fataças, porque estão todas ovadas de ovas grandes e saborosas, as quais salgam, prensam, e secam para comerem, e levarem a vender à Bahia, e a outras partes.

Contei isto, porque esta pescaria se faz naquele rio de Magé, onde Cristovão de Barros fez o seu engenho, e no seu tempo, e ainda depois alguns anos se mandava lançar público pregão na cidade do dia em que se havia de fazer a pescaria, para que fossem a ela todos os que quisessem, e poucos deixavam de ir, assim pelo proveito como por recreação.