História do Brasil (Frei Vicente do Salvador)/V/VIII

História do Brasil por Frei Vicente do Salvador
Livro quinto: da história do Brasil do tempo que o governou Gaspar de Souza até a vinda do governador Diogo Luiz de Oliveira, Capítulo VIII: De como o governador tornou para Pernambuco, e mandou Alexandre de Moura ao Maranhão


O governador se embarcou em uma caravela de castelhanos, que nesta Bahia estava invernando para no verão ir ao rio da Prata, e esta viagem acertei de ir a Pernambuco com ele, e fomos em poucos dias, mas um antes de chegarmos houve tão grande tormenta do Sul, que temendo o governador de se sossobrar a caravela com as grandes marés, mandou soltar dos ferros os presos, que levava condenados à conquista do Maranhão, e me mandou pedir alguma relíquia, para deitar ao mar, e que fizéssemos as nossas deprecações a Deus Nosso Senhor, como fizemos, e meu companheiro lhe mandou o cordão com que estava cingido, o qual penduraram do bordo até o mar, e quis Nosso Senhor que a caravela em continente se quietasse, e moderasse o vento, e os mares, de modo que ao dia seguinte entramos com bonança.

O que visto pelos castelhanos não quiseram tornar o cordão, dizendo que por ele esperavam ir seguros de tempestades ao rio da Prata, nem foi esta só a vez, mas infinitas as que Deus por meio do cordão do nosso seráfico padre São Francisco há livrado a muitos de naufrágios, e feitas outras muitas maravilhas, pelo que lhe sejam dadas infinitas graças, e louvores.

O governador achou a Manuel de Souza de Sá, que o estava aguardando com cartas de el-rei em Pernambuco sobre o negócio do Maranhão, em cujo cumprimento aprestou logo nove navios, quatro grandes e cinco pequenos, com mais de 900 homens entre brancos e índios, com plantas, e gados para povoarem a terra, e armas para a fazerem despejar aos franceses, quando não quisessem de outro modo, porque assim o mandava el-rei, e porque neste tempo era já vindo Vasco de Souza para capitão-mor de Pernambuco, e vagava Alexandre de Moura, que o havia sido, lhe encarregou o governador esta empresa, dando-lhe todos os seus poderes para prover nos ofícios da república e milícia como lhe parecesse.

Foi por almirante desta frota Paio Coelho de Carvalho, que também havia acabado de ser capitão-mor de Itamaracá, e depois de se ir do Maranhão para o reino, se fez religioso da ordem do nosso padre São Francisco na província da Arrabida. Os capitães dos outros navios eram Jerônimo Fragoso de Albuquerque, Manuel de Souza de Sá, Manuel Pires, Bento Maciel, Ambrósio Soares, Miguel Carvalho, André Corrêa; o capitão-mor Alexandre de Moura levou consigo dois Padres da Companhia de Jesus, e com este santíssimo nome se partiram do Recife a 5 de outubro da era de 1615.

O governador nem por andar ocupado nestas coisas deixava de entender nas do governo da terra, como fez em tempo de Alexandre de Moura, de que Vasco de Souza menos sofrido se enfadou muito, e mandou seu irmão religioso da ordem do nosso padre, que consigo trouxe, com requerimento a el-rei que se servisse dele em outra coisa, porque ali estava ocioso, e só o governador fazia tudo, pelo que el-rei, ouvidas suas razões, lhe mandou provisão para que viesse por capitão-mor da Bahia, e a governasse, como o fez.