Historias de Reis e Principes/VI

Historias de Reis e Principes por Alberto Pimentel
VI: Tradição galante de D. Miguel


Toda a gente tem mais ou menos ouvido contar aventuras amorosas do rei D. Miguel de Bragança. Chamo-lhe rei porque de facto, senão de direito, o foi. Escrevem falsa historia os authores de compendios que na lista dos reis portuguezes supprimem o nome de D. Miguel, por o considerarem rei intruso. Mas os tres Filippes, tambem intrusos, não deixam de apparecer em todos os compendios de historia elementar. Nós temos cá esta especie de critica, e já agora havemos de ir assim. Mas o que importa ao nosso proposito é dizer que as aventuras amorosas de D. Miguel, mais ou menos conhecidas de toda a gente, não deixam este rei n'um plano inferior aos seus collegas em absolutismo os galantes Henrique IV, Francisco I, Luiz XIV e Luiz XV.

Fico por aqui para não desdobrar um estendal de nomes... estrangeiros. N'isto é que eu sou patriota.

Ha meio seculo apenas, raro principe sahia lettrado. A educação, vasada ainda tradicionalmente nos moldes medievaes, tendia a fazer d'elles mais homens do que sabios. É certo que, mesmo entre nós, D. Diniz, D. João I e D. Duarte cultivaram as lettras, mas só de passagem. E assim aconteceu até ao tempo em que floresceram os filhos d'el-rei D. João VI. Equitação, caça, jogo de armas, alguma musica, e pouco mais como prendas de educação. Ora D. Miguel foi educativamente modelado á feição e similhança dos seus antecessores. Sahiu, pois, completamente, um principe do seu tempo.

De minguadissima illustração, exhibia com pericia os dotes da sua educação physica. Era excellente cavalleiro. Os soldados, quando o viam a cavallo, ficavam enthusiasmados, e, quando a cavallo tinham de seguil-o, ficavam estropeados.

D. Miguel partia de Queluz para Lisboa au grand galop, tomando uma dianteira enorme ao esquadrão que o acompanhava. E o seu cavallo, quando elle apeava, ficava com os peitos abertos.

As mulheres, sentindo a correria doida d'um cavallo, vinham á janella para vêr passar D. Miguel, que era joven, bem posto, e rei absoluto. Rei absoluto! A personificação viva de todo o poder terreno, emanado do poder divino! Era para deslumbrar os homens, quanto mais as mulheres!

Muitas trovas populares fallam ainda hoje da belleza de D. Miguel de Bragança, conservando através dos tempos um como rescaldo do enthusiasmo popular com que o endeusavam:

O senhor D. Miguel,
Lindo diamante!
Elle já é rei
E não é infante.

Eu fui vêr a D. Miguel:
'Stava n'um somno profundo.
Cara mais delicada
Não a ha em todo o mundo.

D. Miguel é delgadinho,
Bonitinho e bem feito.
Prometteu aos realistas
Uma venéra p'r'o peito.

D. Miguel é bonito,
É bonito e bem feito.
Quebrou as pernas,
Ficou sem defeito.

Fôra n'uma d'essas correrias doidas, não a cavallo, mas em trem, que D. Miguel déra uma queda no dia 9 de novembro de 1828. Esse desastre, de que resultou para o rei fractura d'uma perna, foi, segundo uma versão vulgarisada, a origem de se dar a alcunha de malhados aos constitucionaes, porque as mulas infieis que tiravam a carruagem eram malhadas.

Sem embargo, encontrei outra versão, que é pouco conhecida, para não dizer desconhecida. É o caso de repetir: Se non é vero, e bene trovato. Achei-a no livro Don Miguel, ses aventures scandaleuses, ses crimes et son usurpation, par un portugais de distinction; traduit par J. B. Mesnard. Paris, 1833.

Ponho a citação em francez para que nada perca da sua inteira originalidade:

Comme D. Miguel aime beaucoup les combats de taureaux, et que l'on a remarqué que ceux qui sont tachetés sont les plus féroces, les absolutistes ont appellé les libéraux malhados, mais por indiquer que D. Miguel devait les traiter como les taureaux.

A fallar verdade, tanto importa, para a offensiva malicia da alcunha, que se tratasse de mulas como de touros.

Terei ainda que referir-me ao livro cujo titulo deixei indicado, mas, por agora, observarei, com a trova popular, que o rei galant'uomo, apesar da queda,

Ficou sem defeito.

Ha em Braga uma escadaria de pedra, que do Campo Novo sobe para a ermida da Senhora de Guadalupe, dividida por patamares, mas altissima e extensa.

Diz a tradição bracharense que n'um dos predios lateraes d'aquellas escadas vivia uma mulher galanteada pelo rei, e que D. Miguel, em 1832, quando de Lisboa sahira para Braga, ia todas as tardes vêl-a, subindo e descendo as escadas a cavallo.

Das suas faceis aventuras minhotas deve o leitor presumir. Braga estava completamente fanatisada pelo rei. As mulheres cobriam de beijos as medalhas e os anneis que se vendiam com o lindo retrato de D. Miguel.

Se fôres a Braga,
Traze-me um annel,
Que tenha o retrato
D'el-rei D. Miguel.

Braga era a cidade fiel, por excellencia, ao rei.

Nos campos ou nas ruas, mulheres, de lenço encarnado,—a côr miguelista,

Se fôres a Braga,
Traze-me uma fita,
Que seja vermelha,
Que eu sou realista,

cantavam trovas em que o nome de D. Miguel se confundia com o das plantas e das flôres mais rescendentes.

O alecrim é verde,
A rosa tem cheiro:
Viva D. Miguel,
D. Miguel primeiro!

E toda a pena das mulheres do Minho era não serem soldados, não serem granadeiros,

Para defender
D. Miguel primeiro.

Ainda ha pouco tempo recolhi em Mafra a tradição de um passatempo galante de D. Miguel, quando alli ia, e se demorava no convento, cujos corredores são, como se sabe, extensissimos.

O passatempo a que me vou referir tem todo o caracter d'esses jogos cavalheirescos da idade-média, que nós ainda hoje vemos com agrado através do prisma da elegancia antiga, para sempre quebrado.

O rei organisava nos corredores do mosteiro cavalhadas pittorescas. As damas montavam jumentos, e deviam partir em duas alas e em sentido inverso á direcção que D. Miguel tomava, tendo partido do extremo opposto do corredor.

O rei brandia uma tocha accesa, e as damas hasteavam uma roca abundantemente carregada de estopa. D. Miguel, sempre a galope, devia, ao passar pelas damas, incendiar-lhes a estopa das rocas,—o que poucas vezes falhava.

Imagine-se a ruidosa alacridade d'esse galante torneio, em que, não raras vezes, succederia ás damas o desastre de cahirem mal, como aconteceu uma vez a Marie Antoinette, proporcionando-lhe a queda um bello dito:

Ah! dame! quand on monte à âne, il faut être en état d'en tomber.

Não me demorarei pela decencia devida aos leitores de menor idade, e aos outros, em considerações philosophicas relativamente á estopa das damas e ao fogo do rei.

Passarei agora a fallar mais detidamente do livro cujo titulo indiquei ha pouco.

O traductor Mesnard diz no prefacio que se propoz trasladar a francez um opusculo allemão no principio d'aquelle anno publicado em Hamburgo, e acaba declarando que Barreto Feio lhe permittira addicionar á versão interessantes notas, e enriquecel-a com excellentes informações. Agradece-lhe, reconhecido, esse serviço.

Uma justa curiosidade bibliographica penetrou logo no meu espirito: qual era o opusculo allemão que Mesnard traduzira em francez?

Um feliz acaso fez com que, volvido tempo, se me deparasse na Bibliotheca da Academia Real das Sciencias um opusculo escripto em lingua allemã, e intitulado D. Miguel i, usurpador do throno portuguez. Um documento para a historia contemporanea de Portugal por uma testemunha ocular, G. v. E. Hamburgo, 1832.

Era este decerto o opusculo, publicado em Hamburgo no principio d'aquelle anno em que Mesnard trabalhava na versão, que fez estampar no anno seguinte.

Com o auxilio do snr. Pamplona, official da bibliotheca da Academia e perito germanista, pude verificar que eu tinha diante dos olhos o original allemão, cuja traducção franceza possuia.

Restava saber quem era o allemão, G. de E., testemunha ocular, qualidade com que elle proprio se abonava.

De investigação em investigação, cheguei a apurar que a testemunha ocular era Guilherme de Eschwege, barão d'este titulo, de quem Innocencio dá noticia no seu Diccionario bibliographico, posto a não dê do opusculo relativo a D. Miguel.

Guilherme de Eschwege nasceu na Allemanha em 1778, entrou ao serviço de Portugal em 1802 com outros officiaes da sua nação, chamados pelo ministro D. Rodrigo de Sousa Coutinho, a fim de serem empregados nos trabalhos de mineração que se tratava de promover no Brazil.

Em 1822 ou 1823 regressou do Brazil a Lisboa, onde D. João VI o nomeou intendente geral das minas e mattas do reino, cargo de que tomou posse em agosto de 1824.

Demittiu-se em 1829 por não querer servir sob o governo de D. Miguel.

Partiu para a Allemanha, onde esteve até 1835, voltando então a Portugal e sendo reintegrado no exercicio de intendente de minas. Demittido no anno seguinte, el-rei D. Fernando empregou-o na direcção das obras dos palacios reaes.

Estava com licença na Allemanha, quando morreu em Wolfsanger, no dia 1 de fevereiro de 1855.

D. Miguel sae das mãos do barão de Eschwege com a figuração de um monstro sanguinario, que se refocillava na perpetração de atrocidades selvagens.

Outras testemunhas oculares fornecem depoimentos que podem servir de contestação a este. Guilherme de Eschwege era um ferrenho adversario de D. Miguel de Bragança e, para nol-o pintar horrendo de alma, deixa em silencio os actos que podem igualmente deslustrar o caracter de D. Pedro. Escreveu quando D. Miguel reinava em Portugal, isto é, escreveu para combatel-o como adversario irreconciliavel. É preciso que esta consideração entre em linha de conta.

Mas que subsidio nos póde fornecer o seu livro para uma ligeira monographia sobre a tradição galante de D. Miguel?

Eis o que importa saber.

Pequeno subsidio recebemos do opusculo do barão de Eschwege; sem embargo, a biographia galante do filho predilecto de D. Carlota Joaquina não carecia d'elle.

Diz-nos que D. Miguel não teve como rei nem como infante uma favorita, posto que em Vienna d'Austria se pensasse que a tivera. Gosta muito de variar, o que não pouco contribuiu para o engrandecimento do visconde de Queluz. São palavras do opusculo. Depois Eschwege conta que o visconde de Queluz fôra barbeiro, e que n'essa qualidade assistira ás enfermidades secretas de D. Miguel.

Noticía que as damas abundavam na côrte, durante os annos em que D. Miguel reinára; que nos serões do paço se faziam representações, n'uma das quaes o rei desempenhára o papel de D. Quichote, e que outras noites se organisavam jogos de prendas, sendo sempre D. Miguel quem sentenciava, e sendo muito seu predilecto o castigo de dar palmatoadas.

Esta pena da palmatoria, aliás usada ainda hoje nos serões de provincia em que os jogos de prendas florescem, não constitue decerto uma das provas mais eloquentes e ponderosas para acreditar nos instinctos sanguinarios de D. Miguel de Bragança.

A fazer-se obra por isto, temos que reputar duplicadamente monstruosas, pela gaucherie de suas maneiras e pela crueza de seu animo, as damas da provincia que ainda hoje empregam nos joguinhos de prendas o castigo da férula, com grande risota dos assistentes, e até dos proprios condemnados.

Conta que D. Miguel dava duas recepções por semana, uma aos homens, outra ás damas. Estranha que de joelhos lhe beijassem a mão, mas informa que a concorrencia ás recepções era tamanha, que algumas vezes houve conflictos á porta. Esta accusação tambem me não parece capital. As damas e os cavalheiros queriam beijar a mão do senhor D. Miguel, e elle dava-lh'a a beijar. Quem corre por gosto não cansa. É mesmo possivel que o rei alguma vez retribuisse beijo por beijo. Que monstruosidade é esta?!

De D. Miguel infante refere uma aventura vulgarissima com uma franceza da rua des Vieilles- Étuves em Paris. Esta mulher tinha uma vida tão aventurosa quanto escandalosa, e o infante, que não devia ficar extremamente encantado com a boneja, que era feia, pediu-lhe que reduzisse a escripta a autobiographia com que lhe prendera a attenção. A franceza annuiu ao pedido, que o infante provavelmente remunerou, e o autographo foi subtrahido em Vienna aos papeis de D. Miguel, como consta de uma nota. O facto denunciado é vulgarissimo na vida dos principes e dos outros; mas a subtracção de um papel particular, que andava na bagagem de um principe moço, não me parece grandemente abonatoria da seriedade de quem a praticou. D. Miguel, que restituiu á corôa portugueza as joias que usofruiu, não presumia decerto que lhe roubariam as memorias de uma rameira, escriptas por ella mesma, não podendo valorisar-se como joias nem a escriptora nem as memorias.

Refere o opusculo outra aventura do infante D. Miguel em Paris, e esta é mais consentanea á sua indole de principe estouvado e desenvolto.

Deu-se o caso com uma capellista da rua des Fossés-Saint-Germain. A franceza era encantadora: charmante, diz Mesnard. D. Miguel, não fazendo reparo ou não se temendo de um sujeito que estava á porta, e que era o amante da capellista, quiz, como pretexto para demorar-se, que ella deitasse a loja abaixo, que lhe mostrasse muitas das mercadorias guardadas nos armarios. A franceza trepou ao balcão para descer um pacote, e o infante beliscou-a ou palpou-a. A capellista gritou, e o amante sovou D. Miguel, que teve de recolher-se ao leito no Hotel Meurice, onde se havia hospedado.

Isto sim, isto é verosimil e concorda com outra aventura que D. Miguel praticára, quando já desthronado, em Roma, e que logo contaremos.

Finalmente, o opusculo dá-nos noticia de que D. Miguel, antes de sahir de Vienna para Portugal, convidára officiaes e cortesãs para ceiarem com elle depois do theatro. A ceia, que começára á meia noite, terminou ao amanhecer, mas o infante lembrou, para remate da festa, que se queimasse um punch á franceza. Dito e feito. Um leque de chammas phosphorescentes irradiou da poncheira, e á volta, de mãos dadas, n'uma farandola patusca, o infante e os seus commensaes giravam n'uma especie de dança macabra, que tinha alguma coisa de satanica. Terpsichore não regeu tão ordenadamente a chorea, que podesse evitar o tombar a mesa e a poncheira. Era natural depois de libações capitosas. O liquido inflammado alastrou no soalho, e pelas frinchas das tabuas cahiu n'um palheiro que ficava nos baixos da casa, incendiando-a.

Duas mulheres e um official pereceram no incendio, e D. Miguel, cujo fato ficára queimado, correu grande risco.

Não serei eu que prodigalise elogios á patuscada e ao punch, se bem que honestos varões (já não direi o mesmo das donas concomitantes) teem, com o baptismo do punch, sahido excellentes maridos. Mas tambem não lançarei á conta das responsabilidades de D. Miguel o desastre da mesa e a coincidencia de haver palha em baixo quando elles comiam em cima.

Aqui está o que pudémos obter da collaboração de tres homens: o barão de Eschwege, J. B. Mesnard e Barreto Feio.

É pouco, sobretudo se attendermos a que foram tres os informadores, todos elles dispostos a não ter complacencias respeitosas para com D. Miguel de Bragança.

Passarei agora a occupar-me da annunciada aventura, que corre parelhas com a da capellista em Paris. Vamos pois ao encontro de D. Miguel, que se passou a Roma depois da convenção de Evora-Monte, e admiremos-lhe o bom humor com que forçadamente desceu do throno.

Não me demorarei a meditar sobre o texto do celebre folheto D. Miguel em Roma (Londres, 1844), que pregôa as miserias que aquelle principe soffrêra na cidade do papa. E não me demorarei porque, sob o ponto de vista d'este artigo, tenho aquellas miserias por incompativeis com o desassombro de animo com que o snr. D. Miguel de Bragança refinava em galanterias audaciosas.

Não vou inventar um caso, mas unicamente apoiar-me n'uma pagina das Noites parisienses, de Méry, que, para maior escrupulo, traduzirei quanto possivel acostado ao texto.

Eis-aqui a narrativa do primoroso estylista francez:

«D. Miguel, este Tarquinio o Soberbo, expulso de Lisboa, continua agora em Roma a historia de Lucrecia e Collatino; com a differença de que procede insensatamente, e n'uma igreja! Nero violava as sacerdotizas no recinto do templo de Vesta; Nero deve ser em tudo o patrono de D. Miguel. Parece que o perfume d'um templo ou d'uma igreja é um aphrodisiaco no clima italiano; testemunhas Nero, o sobrinho de Paulo II e D. Miguel.

«Era a 20 de março, domingo da paixão, vide calendario: que paixão dominava D. Miguel? N'esse dia estava elle na tribuna, visinha do tumulo de Paulo II, perto do sarcophago onde dorme essa mulher divina que tanto inglez haveria desposado, se estatuas de marmore podessem desposar-se. D. Miguel, principe catholico, dava pouquissima attenção ao evangelho dominical, e devorava com o olhar madame Aldobrandini Borghese, joven huguenote que exhibia os seus encantos acirrantes aos olhos dos cantores effeminados da capella Sixtina. O papa Gregorio VII officiava sob o baldaquino de bronze, fronteiro ao tumulo de S. Pedro; os peregrinos beijavam o pé de Jupiter Stator, transformado em principe dos apostolos, segundo a metamorphose do raio em chaves; D. Miguel não via senão madame Aldobrandini.

«Ah! não conheceis esta mulher, cujo nome lêdes! Roma inteira se namorou d'ella! Figurai-vos a Venus do museu secreto de Napoles; mas com am pé a mais, cabellos loiros, e uns contornos capazes de fulminarem os Sátyros nos bosques. D. Miguel ardia; escutava o ruge-ruge do setim inglez, e esse duo voluptuoso que canta a luva d'uma mulher quando acaricía as dobras ondulosas do vestido! Oh! que se eu estivesse em Lisboa! dizia D. Miguel em voz baixa e patois portuguez. Á força de contemplar o corpo flexivel da sua encantadora visinha, D. Miguel julgou-se transportado a Lisboa, deixou pender uma das suas reaes mãos até tocar no hombro de madame Aldobrandini.

«—Mylord! exclamou madame Aldobrandini, repellindo o contacto.

«O gonfaloneiro empallideceu, Gregorio VII interrompeu a ceremonia, e o principe Aldobrandini Borghese arrastou D. Miguel para junto do obelisco que Augusto dedicára ao Sol.

«—Monsieur, disse o esposo ultrajado, eu descendo em linha recta de Hildebrando, que mandou açoitar os cardeaes francezes Ossat e Duperron, representantes de Henrique IV; descendo de Paulo Borghese, o papa que concluiu esta basilica e, se duvidais, lêde aquella inscripção: Paulus Borghesius, etc. Sou pelo menos vosso igual; vinde cruzar a vossa espada com a minha, aqui muito perto, nos pinheiraes de villa Negroni. Vinde!

«D. Miguel respondeu:

«—Sou rei, e ungido do Senhor. Sou assaz bom para vos poupar um sacrilegio e uma excommunhão. Boa tarde.

«Entretanto chegavam o commissario de policia e o cardeal Somaglia, com trinta suissos, vestidos de valetes de oiros.

«—Grande principe e grande rei, disse elle aos dois, é hoje o domingo do perdão. Estendei-vos a mão mutuamente. Sua magestade o rei de Portugal é joven e é preciso que a mocidade passe. Vou contar-vos a historia do sobrinho do pontifice Paulo.

«E os tres interlocutores desceram para a rua de Borgo Nuovo, rindo do sobrinho d'esse grande papa, esquecendo a historia que no momento os interessava; e o principe Aldobrandini convidou D. Miguel a jantar n'essa bella villa que se encontra á esquerda, antes de entrar a porta do Popolo.»

A historia do sobrinho de Paulo II é que eu não contarei, nem que me queimem.

Méry teve menos escrupulos do que eu, e o proprio Paulo II não teve mais quando, sabendo-a, exclamou: Il faut bien que jeunesse se passe!

Mas como o livro Nuits parisiennes é vulgarissimo, quem quizer que a procure lá.

Eu d'ahi lavo as mãos.

E, por não enfadar a paciencia do leitor, e por evitar algumas memorias de caracter escabrosamento pornographico, não irei mais longe.