Iracema/XXII


XXII

Poty saudou o amigo e fallou assim:

— Antes que o pae de Jacaúna e Poty, o valente guerreiro Jatobá, mandasse a todos os guerreiros pytiguaras, o grande tacape da nação estava na destra de Batuireté, o maior chefe, pae de Jatobá. Foi elle que veio pelas praias do mar até o rio do jaguar, e expulsou os tabajaras para dentro das terras, marcando a cada tribu seu lugar; depois entrou pelo sertão até á serra que tomou seu nome.

Quando suas estrellas, erão muitas, e tantas que seu camocim já não cabia as castanhas que marcavão o numero; o corpo vergou para a terra, o braço endureceu como o galho do ubiratan que não verga; a luz dos olhos escurecerão.

Chamou então o guerreiro Jatobá e disse:-Filho, toma o tacape da nação pytiguara. Tupan não quer que Batuireté o leve mais á guerra, pois tirou a força de seu corpo, o movimento do seu braço e a luz de seus olhos. Mas Tupan foi bom para elle, pois lhe deu um filho como o guerreiro Jatobá.

Jatobá empunhou o tacape dos Pytiguaras. Batuireté tomou o bordão de sua velhice e caminhou. Foi atravessando os vastos sertões, até os campos viçosos onde correm as aguas que vem das bandas da noite. Quando o velho guerreiro arrastava o passo pelas margens, e a sombra de seus olhos não lhe deixava que visse mais os fructos nas arvores ou os passaros no ar, elle dizia em sua tristeza:-Ah! meus tempos passados!

A gente que o ouvia chorava a ruina do grande chefe; e desde então passando por aquelles lugares repetia suas palavras; donde veio chamar-se o rio e os campos, Quixeramobim.

Batuireté veio pelo caminho das garças até aquella serra que tu vês longe, e onde primeiro habitou. Lá no pincaro, o velho guerreiro fez seu ninho alto como o gavião, para encher o resto de seus dias, conversando com Tupan. Seu filho já dorme embaixo da terra, e elle ainda na outra lua scismava na porta de sua cabana, esperando a noite que traz o grande somno. Todos os chefes Pytiguaras, quando acordam a voz da guerra, vão pedir ao velho que lhes ensine a vencer, porque nenhum outro guerreiro jamais soube como elle combater. Assim as tribus não o chamão mais pelo nome, senão o grande sabedor da guerra, Maranguab.

O chefe Poti var á serra ver seu grande avô; mas antes que o dia morra, elle estará de volta na cabana de seu irmão. Tens tu outra vontade?

— O guerreiro branco te acompanha. Elle quer abraçar o grande chefe dos Pytiguaras, avô de seu irmão, e dizer ao velho que renasce em seu neto.

Martim chamou Iracema; e partirão ambos guiados pelo Pytiguara para a serra do Maranguab, que se levantava no horisonte. Forão seguindo o curso do rio até onde nella entrava o ribeiro de Pirapora.

A cabana do velho guerreiro estava junto das formosas cascatas, onde salta o peixe no meio dos borbotões de espuma. As aguas ali são frescas e macias, como a brisa do mar, que passa entre as palmas dos coqueiros, nas horas da calma.

Batuireté estava sentado sobre uma das lapas da cascata; o sol ardente cahia sobre sua cabeça núa de cabellos e cheia de rugas como o genipapo. Assim dorme o jaburú na borda do lago.

— Poty é chegado á cabana do grande Maranguab, pae de Jatobá, e trouxe seu irmão branco para ver o maior guerreiro das nações.

O velho soabriu as pesadas palpebras, e passou do neto ao estrangeiro um olhar baço. Depois o peito arquejou e os labios murmurarão:

— Tupan quiz que estes olhos vissem antes de se apagarem o gavião branco junto da narseja.

O abaeté derrubou a fronte aos peitos, e não fallou mais, nem mais se moveu.

Poty e Martim julgarão que elle dormia e se affastarão com respeito para não perturbar o repouso de quem tanto obrára na longa vida. Iracema que se banhava na proxima cachoeira, veio-lhes ao encontro, trazendo na folha da taioba favos de mel purissimo.

Discorrerão os amigos pelas floridas encostas até que as sombras da montanha se estenderão pello vale. Tornarão então ao lugar onde tinhão deixado o Maranguab.

O velho ainda lá estava na mesma attitude, com a cabeça derrubada ao peito e os joelhos encostados á fronte. As formigas subião pelo corpo; e os tuins adejavão em torno e pousavão-lhe na calva.

Poty poz a mão no craneo do ancião e conheceu que era finado; o guerreiro morrera de velhice. Então o chefe pytiguara entoou o canto da morte; e depois foi á cabana buscar o camocim, que transbordava com as castanhas do caju. Martim contou cinco vezes cinco mãos.

Entanto Iracema colhia nas florestas a andiroba, para ungido o corpo do velho no camocim, onde a mão piedosa do neto encerrou o encerrou. O vaso funebre ficou suspenso ao tecto da cabana.

Depois que plantou ortiga à porta, para defender contra os animaes a oca abandonada, Poty despediu-se triste daquelles lugares, e tornou com seus companheiros á borda do mar.

NotasEditar

Pag. 101.—I. Batuiretê— narceja illustre; de batuira e etê. Appellido que tomára o chefe pytiguara, e que na linguagem figurada valia tanto como valente nadador. E' o nome de uma serra fertilissima e da comarca que ella ocupa.

II. Suas estrellas erão muitas.—Contavão os indigenas os annos pelo nascimento das pleiades no oriente; e tambem costumavão guardar uma castanha de cada estação de cajú, para marcar a idade.

III. Jatobá—arvore frondoza, talvez de jetahi, oba — folha, e a, augmentativo; jetahy de grande copa. E' nome de um rio e de uma serra em S. Quitéria.


 

Pag. 102.—I. Quixeramobim—segundo e Dr. Martius traduz-se por essa exclamação do saudade. Compõe-se de Qui— ah!, xere, meus, amôbinhê, outros tempos.

II. Caminho das garças—Em tupy Acarape, povoação na freguezia de Baturite á nove léguas da capital.

Pag. 103.—Maranguab.—A serra de Maranguape distante cinco leguas da capital, e notavel pela sua fertilidade e formosura. O nome indigena compõe-se de maran guerrear e coaub sabedor; maran, talvez seja abreviação de maramonhang, fazer guerra, se não é, como eu penso, o substantivo simples guerrar, de que se fez o verbo composto. O Dr. Martius traz ethmologia diversa. Mara arvore, angai, de nenhuma maneira, guabe, comer. Esta ethmologia nem me parece propria ao objecto que é uma serra, nem conforme com os preceitos da lingua.

II. Pirapora.—Rio de Maranguape, notavel pela frescura de suas aguas e excellencia dos banhos chamados de Pirapora, no lugar das cachoeiras. Provem o nome de Pira, peixe, pore, salto: salto do peixe.


 

Pag. 104.—O gavião branco.—Batuiretê chama assim o guerreiro branco, ao passo que trata o neto por narseja; elle prophetisa nesse parallelo a destruição de sua raça pela raça branca.