Lágrimas Abençoadas/I/XX

Lágrimas Abençoadas por Camilo Castelo Branco
Livro I, Capítulo XX


«O mosteiro estava cercado de povo, attraído alli por um homem, que, depois de conspurcar uma patente no exercito realista, e avexar com despotismos os constitucionaes, viera buscar refugio entre nós.—Algumas balas bateram contra a porta principal da egreja mas não puderam vara'-la. Outras vinham, através das frestas, encravar-se nos altares. Uma, batendo na lampada do SS. Sacramento, apagou-a, espargindo os estilhaços de vidro sobre nossas cabeças. Não se ouvia uma exclamação de dentro, nem um ai afflictivo dos que alli rezavam ajoelhados, quando um de entre nós proferiu em voz alta o acto de contricção. Então, sim, as lagrimas rebentaram de todos os olhos: o espirito resurgiu da prostração em que caíra, e as vozes harmonisaram n'um murmurio profundo, arrebatado e magestoso como um de profundis.

«Os gritos de fóra eram ameaças de morte, sem excepção de pessoa, senão abrissem a portaria. Nenhum de nós abandonou a sua humilde postura de martyr. Sentimos que se arvoravam escadas ás janellas lateraes do templo: ouvimos um machado, cem machados lascando as portas. O echo das pancadas reboando pelas naves tinha em si um não sei que de terrivel, que fazia arripiar os cabellos e gelar o coração!

«Rasgada uma fenda na porta, entraram alguns poucos que franquearam as portas á chusma de povo.

«Era noite alta. Não se via ahi um homem grave sobre quem pesasse a responsabilidade d'esta sacrilega violencia. O relogio do mosteiro dera onze horas, e nunca tão melancholico me pareceu o som d'aquelle bronze, que, havia quinhentos annos, chamava as turbas á oração, e n'aquelle instante, assignalava a hora da carnificina dos ministros de Jesus Christo. O tropel d'aquella gente denunciava uma multidão grande. Sentimo'-los approximarem-se amotinados, gritando, uivando, rugindo, como tigres que partiram as grades da jaula, como possessos que deliram na sede febril de sangue. E, topando-nos de joelhos, virados para Deus, e quietos como phantasmas immoveis, pararam. Reinou um silencio de minutos. O anjo bom d'aquelles homens calou-lhes por momentos o grito sanguinario. O pensamento do bem, a idéa de Deus passou-lhes pelo coração instantanea e fugitiva como a restia do sol por entre as nuvens torvas da tempestade. Os instrumentos do mal não podiam renunciar a sua missão. Cada um de nós sentiu a mão de um inimigo arranca'-lo com violencia á sua immobilidade. Um grito deu alento a todos os gritos. Morram! era o mais distincto, era o bramido sinistramente harmonioso de muitas vozes. Senti algumas cronhadas d'arma acurvarem-me a cabeça para as lageas do altar, salpicado do sangue que me resaltára do nariz e da boca. Dos meus companheiros ouvi alguns gritos que me pareceram de estertor; e senti que alguns vinham arrastados.

«Não pude presencear as agonias de meus irmãos mixturadas com as minhas. Uma bayonetada, varando-me uma perna, fez-me perder os sentidos, e cahir com a cabeça no degrau do altar de Nossa Senhora, onde despertei depois.»