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Lágrimas Abençoadas por Camilo Castelo Branco
Livro II, Capítulo IV


Frei, Antonio mudou a residencia para casa do fidalgo. Alvaro da Silveira era o educando. São precisas algumas linhas do caracter d'este mancebo.

Nascera rico: primeira desgraça, quando um pae, herdeiro de opulencia e libertinagem, sente a precisão de transmittir a seu filho a herança, qual a recebera. Acalentado em berço de ouro, quando os primeiros annos lhe deram a convicção da sua individualidade, reclamou a sua emancipação dos carinhos maternos, que lhe eram pesados, e extremos do pae que o enojavam por muito repetidos. O elogio acompanhava-o sempre em todas as suas tentativas de independencia. Quando de seis annos rasgou o A, B, C, na presença de um professor, que o contrariava, seus paes riram-se do galhardo heroismo da creança, e exultaram de ve'-lo assim brioso em tão verdes annos. Quando aos oito annos o viram espancar a ama, que lhe prohibia apedrejar uns meninos pobres, que lhe pediam pão, disseram-lhe que era feia aquella acção em menino fidalgo, e deram-se os parabens, a occultas, de tão corajoso rasgo. Quando aos dez annos o ouviram pedir dinheiro para gastar em seus caprichos de creança, preliminares de lastimaveis depravações de mancebo, deram-lhe dinheiro, com a condicional de não caír do cavallo, nem guiar o carrinho por passagens mal gradadas. Quando aos quinze annos....

Seus paes atiraram-n'o ao tremedal de todos vicios. Deixaram medrar a planta da má inclinação no clima proprio, naquella atmosphera de Lisboa, onde os miasmas da corrupção lavravam desde que alguma classe degenerou pela ociosidade, e pelos vicios da velha organisação social. A arvore lavrou raizes até onde seus paes não previram, por mais que amigos e extranhos lhes abalassem o coração d'aquelle profundo somno de um affecto criminoso. As immoralidades do filho estamparam um estigma de opprobrio nas faces dos paes. O jogo, contrariedade unica e pungente, que na sociedade encontrava o libertino, arruinaria a fortuna d'uma familia, de muitas familias opulentas se Alvaro da Silveira não attendesse aos conselhos, ás primeiras admoestações de seu pae. Foram baldadas. Alvaro ouviu-as com enfado, çom soberania, com desprezo, e satisfez a irritabilidade de sua má indole, conduzindo á porta de seu pae novos credores e novas vergonhas.

E, depois, a intelligencia d'este mancebo era um repositorio de todos os vicios, sem ao menos quinhoarem do ouropel da urbanidade que parece ás vezes modificar a torpeza com que nos enojam em um licencioso, estupido e villão. Alvaro era grosseiro no crime. Indignava os muitos que lhe não eram somenos em dissolução mas menos brutaes que elle. As pustulas n'aquelle cadaver mostravam-se ao clarão do vicio com todo o asco. O homem perdido parecia renovar emoções, e satisfazer o instincto, provocando á nausea uma sociedade cujo abandono lhe accendia um desejo impotente de vingança.

Fr. Antonio dos Anjos fôra chamado para preparar este homem a conhecer a honra, levando-o pela vereda da religião.