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Lágrimas Abençoadas por Camilo Castelo Branco
Livro III, Capítulo V


Em quanto o coronel prendia os olhos attenciosos de Alvaro, Maria, cobrando novos alentos d'aquella especie de familiaridade adquirida pelas franquezas de seu pae, levantava os olhos meio timidos para frei Antonio, que até então não desviára os seus das faces encarnadas de sua sobrinha. Alvaro continuou com o coronel um dialogo sobre o assumpto das etiquetas, que ambos julgavam, umas vezes, indispensaveis, e, outras, fastidiosas, em quanto Maria, convidada por seu tio, foi sentar-se contrafeita ao piano e suspendeu a travada conversação dos dois, que á primeira corrida do teclado, levaram instinctivamente os olhos e os corações para o rosto incendiado da formosa menina.

O que ella tocou não se recordava Alvaro de o ter ouvido. A meia voz perguntou á mãe de Maria a que opera pertencia aquelle rico trecho de musica. Em resposta teve um sorriso de modestia, a que o mancebo achou duvidosa explicação, e, pouco depois compreendeu, quando frei Antonio, alma franca, e sem reservas de falsa modestia, declarou que a musica era de sua sobrinha. Maria córou, e apressou-se a declarar que não era absolutamente original aquella composição modelada por alguns fragmentos de musica, que ouvira no orgão das Theresinhas. A evasiva não era de todo inexacta. Maria, affeiçoada á musica do templo, nas suas composições, procurava sempre como texto as notas que mais lhe afinassem com o profundo sentimento de terna melancolia, que a dominava, nos ultimos mezes da sua existencia.

Frei Antonio estava sendo penoso á natural modestia, filha do pudor, que a cada instante, se manifestava no rosto purpurino de sua sobrinha. Homem extranho ás mil conversações com que a sociedade consome as horas em inutil trocadilho de palavras, entendia que o mais judicioso passatempo, e até o mais commodo ao espirito de sua educanda, devia ser a litteratura. Por isso chamou a campo sua sobrinha, e obrigou-a pela obediencia a entremetter-se em questões, que o proprio Alvaro de bom grado não quizera quinhoar, com receio de não sair-se bem. Maria, quando os primeiros terrores se desvaneceram, era sublime aos olhos do hospede, que a não concebera tão elevada a respeito de certas cousas, que se dizem, quando a auctoridade dos annos, gastos em aprender, lhes dá um tom de certeza que, quasi sempre, ajusta mal com a natural simplicidade de uma senhora.

Falava-se em romances. Frei Antonio dos Anjos empenhava os seus vastos recursos scientificos em condemnar esse genero de leitura. Alvaro abraçava a opinião de seu mestre, e citava-se a si como victima das perniciosas leituras da sua infancia. O coronel e sua esposa applaudiam a rejeição dos romances. Maria, porém, e só ella, cheia de humildade, sem levantar os olhos dos dedos rosados, que se distraiam correndo a bainha do lenço, contrariava as opiniões dos inimigos dos romances, depois que a cada um ouvira as razões, mais ou menos fortes, com que a leitura do tempo era votada ao exterminio. A sua argumentação era concisa, e quasi sempre balbuciante d'aquelle temor tão proprio em annos verdes, em presença de um extranho, de um pae, e de um sabio.