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Lágrimas Abençoadas por Camilo Castelo Branco
Livro III, Capítulo IV


A apparição de Alvaro em casa do coronel impressionou extranhamente aquella numerosa familia, cuja maior parte não se recordava de ver na sua sala um extranho.

Maria foi como sua mãe cumprimenta'-lo, e, pela hesitação em que ia, pudera julgar-se que a violentavam. O acanhamento das suas maneiras, a inflexão tremida das suas poucas palavras, denunciariam uma inculta rapariga d'aldeia, a quem por passatempo aparamentaram de vestidos senhorís. Na grande roda seria fertil assumpto de risos e gracejos.

Alvaro, por uma d'essas incoherencias da natureza humana, revelava um acanhamento quasi semelhante ao de Maria. A prevenção em que o vimos a respeito d'ella, o conceito sublime que a religião lhe ensinára a fazer das suas virtudes, e, mais que tudo, a belleza d'essa menina, que elle nunca encontrára nos bailes, nem, semelhante a ella, se recordava ter visto outra, foi por ventura tudo isto a extranha emoção que o sobresaltou e collocou, como costuma dizer-se, n'uma falsa posição.

E, demais, quem sabe se assim ficam explicados os embaraços de Alvaro?

Qual de nós não teve na vida uma situação semelhante, d'onde melhor possa ver a de Alvaro da Silveira?

Quem é o homem forte e senhor de si, quando a virtude e a formosura, illuminando a mulher de um santo prestigio, lhe fascinam os olhos da face e os da alma?

E, quando o espirito, purgado das fezes da irreligião, contempla a mulher virtuosa como a depositaria de sentimentos que mais genuinamente simulam o amor de Deus, é tão natural esse enlevo, esse culto, essa idolatria no homem que poude encontrar um anjo, onde não esperava já encontrar senão estimulos de paixões materiaes!...

Nem se explica de outra maneira a surpresa de Alvaro na presença de Maria dos Prazeres.

A virtude tem uma fascinação particular sobre o homem, que não desceu, na escala da depravação, a ponto de negar a existencia de corações immaculados. Anojado de estudar a mulher, modelada nas fórmas invariaveis do salão, onde todas são semelhantes a cada uma, Alvaro da Silveira, abaixou os olhos diante da primeira mulher, que, em outros tempos, poderia abater-lhe o orgulho.

Foi n'esse respeitoso silencio, n'esse involuntario acanhamento de maneiras, que o mancebo justificou a regeneração do seu caracter. Mezes antes, se o tivessem apresentado a Maria, ve'-lo-iam empregar todos os recursos da eloquencia, adaptada a todas as mulheres do «grande mundo» intimamente persuadido de que aquella, deslumbrada pelos ouropeis da phrase, saudaria em sua alma a apparição de uma sympathia ardente pelo genio, pelo talento palavroso, e pelos arrebiques da lingua estudada.

O coronel, attencioso observador da approximação de Alvaro, gostou do pejo com que sua filha foi recebida. Frei Antonio a quem competia encetar uma conversação em que respirassem aquellas duas almas retraídas, principiou a elogiar modestamente as qualidades do seu amigo. Alvaro, silencioso, principiava a affligir-se da sua absoluta esterilidade de idéas, quando, em boa civilidade, lhe convinha agradecer o acolhimento com que era especialisado n'aquella casa. Não se acreditaria esta perplexidade, se cada qual não pudesse justifica'-la com um momento semelhante na sua vida.

Alvaro achou a inspiração na propria fraqueza, que o mortificava. Voltando-se para frei Antonio, com as faces rosadas, disse com voz tremula:

—Eu creio que perdi na solidão os habitos do mundo, meu caro mestre. Nem já sei falar, e era d'antes um falador importuno!... A sua familia deve fazer de mim uma idéa triste...

—Porque?—interrompeu a mãe de Maria, com insinuante delicadeza.

—Porque, minha senhora?—retorquiu Alvaro—porque me acho aqui coacto, entrei aqui grosseiramente, como um saloio que vestiram de casaca, e de um modo que v. ex.ª de certo não esperava receber um hospede que vive na roda onde as etiquetas chegam a ser enfadonhas pela demasia de reparos.

—Ora, sr. Alvaro—interveio o coronel—nós sabemos o que são essas cortezias, e palavreados da tal roda, que v. ex.ª frequentou. Minha filha Maria, essa não as sabe de certo; mas pouco lucrariam, ella, se as aprendesse e v. ex.ª se lh'as ensinasse. Aqui, a unica pessoa exigente—continuou o coronel, sorrindo—exigente das genuinas etiquetas da côrte é talvez v. ex.ª que de lá vem. Tenha, porém, paciencia, se nos encontra sem o polimento com que se envernizam os mimosos da fortuna, alegres sempre e sempre cuidadosos de ensaiar-se, quando a ociosidade os enfastia, na arte de agradar. Aqui tem v. ex.ª as idéas a respeito dos galhardos faladores de salão, que, segundo ouvi dizer, por ahi se chamam fazedores de espirito. Sejam lá o que forem, eu aprecio muito a economia de palavras com que v. ex.ª abriu as relações com esta familia ignorada. Até por generosidade, nenhum hospede, chegado a esta casa deve exigir de nós os tratamentos apurados de uma refinada delicadeza. Não os sabemos, nem poderiamos sustenta'-los. Tudo isto vem a serenar a impaciencia com que o sr. Alvaro da Silveira parece queixar-se das idéas, que lhe não abundaram, quando tivemos a honra de o receber.