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Lágrimas Abençoadas por Camilo Castelo Branco
Livro III, Capítulo XXIV


Era assim a carta de Maria a seu marido:

«Foste enganado por uma chimera, Alvaro. Não era eu a mulher digna do teu amor. Quando vi apertar-se o teu coração á dôr do arrependimento, tive mais compaixão de ti do que de mim. Eu, pobre mulher, posso soffrer e chorar, sem ser vista. Tu, Alvaro, nascido para os prazeres do mundo, cuja privação o meu amor não podia recompensar-te, soffrerias muito, se não tivesses animo de affastar com a ponta do pé os deveres, e esquecer que eu sou, ao mesmo tempo, tua escrava e tua tyranna.

«Felizmente que adoptaste o melhor expediente.

«Penso que as distracções, longe de mim, te deixam sentir as doçuras da liberdade. És, talvez, feliz. Se o és, Alvaro, olha que esse bem peço-o eu constantemente a Deus para ti. Não te deixes vencer jámais do remorso. Os meus padecimentos, bem o sabes, não se alliviam em queixas. Nunca te pedi explicação da tua frieza, nem te dei uma palavra aborrecida por outra. Até as lagrimas te escondia, não é verdade? Se me surpreendias chorando, antes queria mentir-te uma invenção, que exacerbar-te com as minhas lastimas o pesar de me teres dado o direito de te arguir. Quando assim se soffre, Alvaro, não ha idéa de vingança, nem se aceita com prazer a expiação de quem nos mortifica.

«Vamos tratar da tua felicidade, meu caro irmão. Deixa-me dar-te este titulo que tem tanto do affecto como da razão. Entre nós já não existe o grande amor, que me parece ser inflexivel aos dictames do juizo. Podemos suavemente caminhar cada um para seu lado, sem voltarmos as costas com arremesso. É o que eu queria, e espero consegui'-lo, porque, sendo eu tão fraca, a força que sinto para dar um passo em teu bem, é Deus que m'a dá, e dar-m'a-ha até ao fim.

«Deixo-te mais livre do que vives, Alvaro. Vou entrar n'um convento, e vou pobre como vim para tua casa. Sentirei lá que és meu marido, porque não cessarei de orar por ti, e offerecer em desconto das minhas e das tuas faltas o tempo que Deus me der de vida.

«Conheço que nasci para a solidão e para os prazeres ignorados da vida obscura. Esta consciencia e a absolvição de algumas cruezas do teu caracter para comigo. Tu precisavas de uma mulher que te disputasse na sociedade uma parte da tua gloria. Querias, talvez, abrilhantar-me aos olhos dos outros com o reflexo da tua luz. E eu, educada na pobreza e na simplicidade, não pude, por mais que quiz, contrafazer a minha indole. Fui arrastada pelo dever aos raros bailes onde me levaste; voltava de lá contente com a esperança de estar sósinha comtigo, e muitas vezes me deixaste sósinha com a minha saudade; e tornaste aos bailes a aproveitar as horas que eu te aguava com a minha inexoravel melancolia.

«Era então que eu te lastimava, por teres sido enganado pelo coração, quando me dizias que a vida no ermo, só comigo, era o teu sonho de ventura, e amaldiçoavas o brilho perfido da sociedade que te não deixára mais cedo ver o que é este mundo, com os olhos da razão.

«Se me não tivesses dito isto, Alvaro, eu seria muito culpada por aceitar o sacrificio da tua liberdade. Fomos enganados ambos. Pensava eu que era verdadeiro o teu fastio dos prazeres ruidosos e vãos; cuidei até que o meu maior merecimento para ti estava no desprezo com que eu ouvia lá fóra do meu cantinho o bulicio da vida opulenta. Aqui está porque eu não te peço perdão de ter querido ser, contra a vontade de meu bom pae, tua mulher. D'esta culpa quem me ha de perdoar é o pobre velho, e eu conto com a bondade da sua alma.

«Aqui tens, pois, o meu destino, Alvaro. Vou para um convento; não devo, porém, sahir de tua casa sem praticar este acto de humildade, rogando o teu consentimento. Quasi certa de que m'o dás, vou fazer os meus ligeiros preparativos. Ainda não disse tudo, Alvaro... Se um dia sentires a penosa necessidade de falar a alguem que te diga palavras de allivio, procura-me, vae sem receio de encontrares uma queixosa. Eu farei quanto puder em teu bem contra o mal que o mundo te houver feito. Chamarei á tua alma as reminiscencias do que ella foi, quando eu t'a mereci, furtando-a ás outras paixões. Vae procurar-me, Alvaro, e acharás sempre uma irmã.

«De tudo o que te disse n'esta longa carta, deves tirar a certeza de que, muito longe de odiar-te, estimo-te, sou tua amiga, offereço a minha vida pelo dom da tua ventura; mas quizera, Alvaro, que essa ventura não fosse mentirosa. A que presentemente gosas não póde ser duradoura, nem filha do espirito.

Adeus.

Tua mulher

Maria dos Prazeres.»