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Laura
por Luís da Gama

<poem> Aqui, ó Laura, No teu jardim, Pétalas colho D’alvo jasmim.

Delas rescende Doce fragrância, Quais meigos sonhos Da tua infância.

As plúmbeas nuvens, Já fugitivas, Os ermos buscam, Serras esquivas.

Plácida lua Nos Céus alveja, Prateia os lagos, E as flores beija.

Aqui, ó Laura, Teus olhos garços, Na linfa clara, Nos Céus esparsos.

Lânguidos brilham Nestas estrelas, Que as brandas ondas Retratam belas.

Na cor de rosa, A luz da lua, Risonha vejo A face tua.

Carmíneos lábios Nos rubros cravos, Que n’hástea pendem, Quais melios favos.

Teu níveo colo — Na estátua erguida Do amor de Tasso — Da bela Arminda.

Na onda breve O arfar do seio, Que a aragem move Com brando enleio.

Dos mal-me-queres Áureos novelos Os anéis fingem Dos teus cabelos.

Da violeta Na singeleza Tua alma vejo, Tua pureza

Ergue-te, ó Laura, Do brando leito, Dá-me em teu peito De amor gozar;

Um volver d’olhos, Um beijo apenas Entre as verbenas Do teu pomar.

Não fujas, Laura, Vem a meus braços Leva-me vida Nos teus abraços...

Lá surge um Anjo! Oh Céus, é ela! — Estrela vésper De luz singela!

Cobre-lhe os membros Alva roupagem, Que manso agita Suave aragem.

Longos cabelos Belos se estendem, E em ondas de ouro Dos ombros pendem.

A ela corro Tento abraçá-la Recurvo os braços, Mas sem tocá-la!

Era um Arcanjo De aéreo sonho No ar perdeu-se Ledo e risonho.

Laura formosa No leito estava, Dos meus lamentos. Só desdenhava.

Já a luz do dia Renasce além, Debalde espero, Laura não vem.

Não têm meus versos Beleza tanta, Que ouvi-los possa Quem tudo encanta.

Naquele peito De olente flor, Paixões não entram, Não entra amor.



Era uma estátua — exemplo de beleza, E como ela de mármor tinha o peito!