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Livro de uma Sogra por Aluísio Azevedo
Capítulo VII


A promessa estava sinceramente feita, mas qual seria o meio de a cumprir? Onde estaria afinal a misteriosa causa de se não poder obter essa felicidade que parece à primeira vista tão simples, tão natural e tão justa? Qual seria o meio de tornar, não só possível, mas deliciosa, a vida em comum de dois entes, que se amem e queiram viver eternamente um para o outro?

Como conseguir a vida reta de um casal, sem a privação do amor, que é a base de todas as felicidades da mulher perfeita, mas também sem essas intermitências do tédio, sem os tristes desfalecimentos do entusiasmo de parte a parte? Como descobrir para minha Palmira uma existência larga, completa, boa e fecunda, sem as misérias do casamento e sem as misérias da mancebia; sem os beijos hipócritas, sem os vergonhosos recursos do fingimento conjugal, que fazem dos casados verdadeiros cabotinos do amor; mas igualmente sem as decepções amargas, e as dores escondidas, e as melancolias da exclusão social e o estéril arrependimento dos casais ilegalmente constituídos?

Oh! Era impossível que não houvesse recurso para obter um ideal lógico e tão humano! Era impossível que não pudesse eu evitar para minha filha o grande mal que me estragou toda a vida! Era impossível que não houvesse um meio de salvar a pobre criança da desgraça que a esperava; um meio de evitar que ela naufragasse como eu naufraguei, apesar da minha virtude e apesar do amor e das boas intenções de meu marido!

Sim, sim! o meio havia de existir, e eu havia de descobri-lo!

E desde esse momento, não descansei mais um instante. Dediquei todo o meu pensamento, todo o meu coração de mãe, todo o meu esforço, em descobrir o meio salvador.

Principiei por estudar-me a mim mesma; estudei-me longa e pacientemente, dissecando, um a um, todos os grandes e pequenos fatos que encheram a minha vida conjugal, e procurei descobrir quais deles marcavam as épocas divisórias dos três estados que conheci ao lado de meu marido; a saber: 1º) o estado de completa e franca felicidade moral e fisiológica; 2º) o estado de transição, estado de dúvida, de tristeza sobressaltada e vago ansiar por uma felicidade, que eu não podia determinar qual fosse, mas que me fazia muita falta à vida e me tornava inconsolável como mulher. Foi durante esse segundo período que nasceu, e começou logo a acentuar-se, a minha indiferença genésica por meu marido. Foi também nesse período que acabei de amamentar Palmira; 3º) o estado de crescente hipocondria, depois tédio e cansaço, e afinal repugnância absoluta pela vida matrimonial, o que transformava em verdadeiro sacrifício, sacrifício insuportável, a existência em contato com meu esposo, a quem todavia continuava a estimar muito, não tanto quanto a minha filha, nem também em segundo lugar, mas logo em terceiro. O segundo lugar na minha afeição cabia já ao homem, que até hoje ficou sendo o meu amigo e o meu verdadeiro amado, o Dr. César Veloso, de quem lá para adiante terei muito que dizer. Só o conheci em meio deste terceiro período, e desde então minha alma foi, a pouco e pouco chegando para ele... mas não é disso que se trata por enquanto. Vamos ao que importa:

O primeiro estado começou na minha época de noiva, e sustentou-se até quase ao termo da aleitação de Palmira. Esse período feliz foi apenas falhado por alguns senões da lua-de-mel, como explicarei depois; coisas de grande alcance, mas de possível correção, quando se tratasse do casamento de minha filha. O segundo estado durou quatro anos, e o terceiro três, até à minha definitiva separação de Virgílio.

Voltemos ao primeiro: Com a puberdade, com que se abriu defronte de meus nascentes desejos um mundo de misteriosas delícias, um vasto caminho de ternura e de esperanças, verde, alegre, risonho, todo iluminado de um sol novo e desconhecido para mim, que me embriagava a alma. E esse desejado caminho perdia-se infinitamente pelos sonhos de donzela, por entre uma cheirosa alameda de laranjeiras em flor.

Como suspirei estendendo o meu casto desejo por esse longo e misterioso caminho desejado! Como eu então, pobre de mim! supunha que o meu destino fosse uma indefinida cadeia de satisfações de todo o meu ser; e que este, sob o fecundo eflúvio do amor de meu noivo, iria desabotoar amplamente, como uma rosa ao sol, transbordante de seiva e de aroma! A idéia de um filho me vinha já ao espírito, mas na poética imagem de um pequenino botão de flor ao lado de outra flor maior, plenamente desabrochada, que era eu.

Dores, decepções, fastios e tédios, não entravam jamais no cantante programa da minha felicidade. E note-se que eu não era, à semelhança de muitas das minhas amigas, o que se pode chamar um moça romântica. Não sonhei nunca para meu noivo algum príncipe encantado, nem algum singular e formoso aventureiro, que viesse de longínquas paragens, galgando precipícios e vencendo insuperáveis escolhos, para chegar até a mim e depor a meus pés o seu coração de poeta enamorado e a sua gloriosa espada de cavalheiro.

Não, e acho que essas donzelas, que sonham assim torto, são verdadeiras aleijadas do coração, deformidade conseqüente de uma moléstia que grassava muito quando eu tinha dezoito anos — a infecção romântica, com caráter pernicioso e acompanhada de crises agudas de delírio e perturbações cerebrais. O que eu via no casamento, graças a Deus o digo, em boa consciência e com orgulho do meu bom senso, era o legítimo direito de uma felicidade natural e honesta. Sonhava um noivo razoável e verossímil; sonhava um rapaz de gravata e fraque, sadio, inteligente, ativo, honrado e bem parecido.

Era ainda sonhar muito, mas, apesar disso, encontrei o ideal dos meus sonhos.

Quando encarei com Virgílio pela primeira vez, meu coração disse-me baixinho: "Ei-lo aí está, o invasor! Prepara-te, pobre fortaleza, que vais ser tomada de assalto e conquistada!" Rendi-me logo ao primeiro ataque — o seu primeiro olhar venceu-me. Não sei o que me segredou estar ali naquele moço, tão sério e tão amável, quem devia ser o meu companheiro no risonho mundo, que os olhos da minha alma, e os meus sentidos ainda mal acordados, pressentiam com frêmitos de felicidade.

Eu era um bom partido: além do dote, havia de herdar muito de minha avó; já não tinha pai nem mãe. Esta última desgraçada circunstância era ainda considerada uma vantagem pelos burgueses mal-educados, que vêem na sogra e no sogro os principais inimigos da sua tranqüilidade; como se a tranqüilidade absoluta fosse coisa possível no casamento comum.

O casamento é quase sempre um duelo, em que um dos dois adversários tem de ser vencido; os sogros nada mais são que as testemunhas oficiais, imediatamente interessadas na luta.

O meu dote tirava-me pois da ridícula situação em que se acham muitas moças, coitadas! que não podem, como eu podia, escolher noivo. Virgílio, pelo seu lado, era também um excelente partido; de sorte que nenhum de nós dois teve de representar, nas salas em que nos encontramos e namoramos, o triste e odioso papel de caçador ou de caça.

Meu coração não me enganara quando mo apontou como o ente destinado a iniciar-me na vida sexual. Desde o nosso primeiro encontro, senti logo que ele pensaria em mim com insistência, e comecei a associá-lo a todos os meus devaneios de donzela; comecei a amá-lo.

A flor da minha cândida feminilidade expandia-se enamorada, ao idílico frêmito das asas de ouro, que lhe esvoaçavam em torno.

Caía então em longas cismas deliciosas, suspirava sem saber por que, dormindo abraçava-me ao travesseiros, estendendo os lábios à procura dos beijos de alguém, que meus braços e meu colo reclamavam com impaciência.

E era sempre e só Virgílio que eu tinha desses sonhos. Quando ele me pediu em casamento, passei a noite inteira a chorar de alegria. Toda eu palpitava ao anelo daquelas núpcias. Os seis meses do nosso namoro pareceram-me séculos de invariáveis mágoas, tanto eu morria por poder confiar-lhe toda a minha ternura e dar-lhe toda a minha dedicação. Sentia-me ansiosa para lhe mostrar, para lhe provar, quanto eu era meiga, pura, casta; para lhe provar quanto e quanto o amava; para lhe mostrar por palavras, e por atos, e por ações de todo o instante, e por toda, toda a vida, tudo aquilo que eu sentia e que até aí não me permitiria o pudor que lhe dissesse ou demonstrasse.

Oh! Que loucura apressar essa época feliz!

E amei-o, amei-o com todo o entusiasmo de minha alma desejando-o mais e mais de dia para dia, vendo nele o melhor, o mais perfeito dos homens, o único digno de ser amado, o único que eu amaria sempre.

E quanto é belo o amor de uma virgem! Quanto ele é mais forte, mais sincero e mais corajoso que o primeiro amor do homem! O adolescente só vê o seu primeiro sonho de amor através do prisma da poesia; todo o homem é poeta nos arroubos da puberdade: não deseja possuir a mulher que ama, quer ao contrário divinizá-la, fazer dela um ídolo sagrado, diante do qual se ajoelhe compungido e contrito, sem lábios, e sem voz, e sem mãos, senão para a divina prece; sem olhos senão para as estrelas confidentes do seu enlevo. E ela — não! a mulher desde o seu primeiro amor de donzela, já é a mulher, já é a carne, já é o pecado. Menos dominada pela poesia ideal, volta-se mais para o paraíso dos céus. Não vê no homem desejado e amado um ídolo venerando, mas nele vê o senhor e dono de todo seu ser.

O ideal existe sempre, apenas o dela é mais natural e humano.

O homem, na puberdade, ama só com o espírito; a manifestação do seu amor é um transbordamento de resíduos de leituras romanescas e reminiscências poéticas. O seu primeiro amor nunca aproveita para a geração. É muito raro, é raríssimo, encontrar um homem que constituísse casal com o seu primeiro amor; em geral todo o pai, todo o chefe de família, tem, guarda, e conserva, depois do casamento, escondidos aos olhos da mãe de seus filhos, a saudade e culto daquela a quem ele consagrou, na puberdade, as poéticas e suspirosas primícias do seu coração. E a virgem, essa ama logo com todo o seu ser, com todo o seu corpo imaculado. E goza em sentir-se pronta a dar esse mimoso corpo todo inteiro, ao carnal despotismo do seu amante; goza em senti-lo ameaçado pelas mãos sensuais que se estendem avidamente para ele; goza em abandoná-lo, vencida, e deixá-lo invadir, rasgar, e deixá-lo alterar todo transformando-o de um corpo de virgem em um corpo de mulher.

Ela prevê que o homem não se modificará fisicamente com o novo estado que começa no leito nupcial; ele era já um homem e continua a ser um homem como dantes. E ela? ela vai transformar-se toda, invadida pelo amor até às estranhas; ela sabe já que os seus delicados pomos virginais avultarão, adquirindo novas curvas; que os seus estreitos quadris de donzela ganharão voluptuosas protuberâncias; que o seu fino pescoço de criança vai carnear-se, formando uma garganta cheia de ondulações misteriosas e sedutoras, um branco e tépido ninho para os beijos dele; e que seus olhos se rasgarão, banhados de novos fluidos de volúpia, e que seus olhares serão outros e outros os seus sorrisos, depois do amor consumado; e que seu ventre enfim vai ser consagrado pela maternidade, e seu sangue transformar-se em leite, o seu amor transformar-se em vida.

Oh! Pertence-lhe o amor muito mais do que ao homem! O amor no homem é um incidente e nela é um destino, é a missão principal de sua vida. O amor pode nascer ou não no homem e pode abandoná-lo sem deixar sinal de raízes; na mulher apodera-se de todo o seu ser, invade-lhe as entranhas, e nelas cresce, enfolha, floreja e frutifica. E por isso, porque nesse amor de uma donzela entre já a idéia do sacrifício de todo o seu corpo; por isso que ele é mais da terra, mais natural e mais humano; por isso esse amor é sem dúvida melhor que o amor do homem, pois que este precisa para manter-se dos socorros da ilusão e do ideal.

E é por isso ainda que nós mulheres amamos relativamente, com mais igualdade e mais firmeza que o homem. Em qualquer casal é sempre ele o que primeiro afrouxa de entusiasmo no amor, sendo aliás quem principia com mais intensidade e com mais ímpeto; ao passo que a mulher, passiva desde o berço, escrava por natureza, só chega, em geral, a enfastiar-se do seu companheiro, quando este já não preenche, como homem, os requisitos de sedução, que no seu mister procriador a natureza exige em benefício do filho.

Esta última razão é um dos pontos capitais da insignificância do casamento como ele está instituído. O encanto, que namora, que aproxima dois indivíduos de sexo oposto, empenhados inconscientemente na formação de um novo ser, é coisa muito mais importante do que parece à primeira vista.

Para que o filho saia um ente perfeito — forte, inteligente e belo — é indispensável que venha em conseqüência de um perfeito amor. A natureza, sempre amiga e previdente prepara o terreno para os amantes que têm de pagar o delicioso tributo da reprodução — dá à juventude os atrativos da beleza e a sedução da força e da inocência, como dá à flor o brilhante matiz, a frescura e o perfume, com que ela chama o trêfego inseto condutor do pólen. Mas, quando assim não seja, quando mulher ou homem não tenha algum deles verdadeiros atrativos e reais encantos, o amor, isto é, o instinto da conservação da espécie, substitui no espírito do outro, com a imaginação, os sedutores atributos que faltam na pessoa amada.

"Quem o feio ama, bonito lhe parece", diz o provérbio, e diz a verdade.

Não é, pois, indispensável, para a perfeição do filho, que a mulher seja deveras formosa e o homem um perfeito ideal do amor; indispensável é que eles se amem de fato, porque, se assim acontecer, no momento capital da irresistível atração de um para o outro, ela representa para ele a primeira mulher do mundo, a mais sedutora, a mais terna, a mais amável, e ele representa para ela o melhor dos homens, o mais nobre, o mais apaixonado e o mais digno do seu amor.

Nestas condições, o filho será por força de regra, não como são os pais, mas um ente tão perfeito como eles mutuamente se julgavam, convictos, na providencial ilusão do seu desejo. Donde se conclui que a formação de um filho, rigorosamente perfeito, isto é, que a garantia da seleção humana e o aperfeiçoamento da espécie, dependem mais da imaginação dos pais do que da suas verdadeiras virtudes e das suas qualidades físicas.

Mas, pergunto eu agora, essa ilusão pode existir sempre, entre os dois mesmos indivíduos, durante toda a sua existência íntima de casados? Depois do nascimento e da amamentação do primeiro filho, o homem continuará a ver na esposa a mais desejável de todas as mulheres, e ela continuará a ver no marido o melhor e superior de todos os varões?

Não! Para isso seria preciso a possibilidade de um novo período de fascinação amorosa, de namoro, e uma nova expectativa de lua-de-mel. Para isso seria preciso que os dois se desejassem de novo como se desejaram da primeira vez, e que se atirassem de novo nos braços um do outro, com o mesmo primitivo entusiasmo, com o mesmo ardor, com a mesma ilusão.

Ora, como não é possível obter de novo essa ilusão, todo o casal, depois de criado o primeiro filho, compõe-se de dois desiludidos.

Mas, se, para que o filho seja perfeito, é indispensável aquele conjunto de circunstâncias auxiliares, e, se o destino fisiológico do homem é procriar, aperfeiçoando a sua espécie, segue-se que — ter um segundo filho, com a mulher inutilizada pelo primeiro — é um crime perante as conveniências gerais da espécie, e é um crime perante os interesses particulares do segundo filho, que será injustamente lesado, que será privado das regalias e das vantagens naturais de seu irmão mais velho. Mas isto é a execrável lei dos vínculos e morgadios prevalecendo ainda fisiologicamente na família! O segundo filho, concebido já dentro do período da desilusão dos cônjuges, é um brutal atentado contra a natureza!

Entretanto, essa mesma mulher, agora inapta para despertar no pai de seu filho aquelas favoráveis ilusões que, aos olhos dele, faziam dela a mais desejável das mulheres, pode ainda acordar noutro homem, com quem nunca viveu na intimidade procriadora, os mesmos fortes desejos, o mesmo ardor, a mesma febre de posse carnal, que dantes levantara no primeiro. E este, que já não serve para encher de sonhos de amor a fantasia da mãe de seus filhos, e talvez nesse momento o objeto dos anelos de outra mulher, que o ronda enamorada, e nele vê o ente escolhido pelo seu desejo, o eleito da sua carne, o único colaborador que lhe convém para a sua missão reprodutora.

A sociedade, porém, não quer que se aproveitem esses dois indivíduos, ainda tão úteis à geração, e obriga-os a ficarem perniciosamente ao lado um do outro, contra todas as leis da natureza.

Ora, se tudo aquilo que for contra a natureza é imoral e vicioso, o nosso casamento é, passada a crise do primeiro filho, nada menos do que uma condenável imoralidade.